segunda-feira, maio 14, 2012

VAIDADE, EGO E OUTRAS PRÓTESES DO ATOR


Tietê-SP, 2012
Rio Tietê 150km da capital
Votuporanga-SP, 2012
Estou para completar cinco meses na cia. Truks. Quando chegar a seis acendo um charuto que queimarei nas ruas da Vila Gumercindo, respeitando a Lei Antifumo. Com óbvia intenção pedagógica a permanência no quadro da Truks tem sido muito surpreendente; descobri aptidões latentes em mim, que jamais pensaria em exercer nessa vida. Jamais imaginaria memorizar cinco espetáculos, um espetáculo por mês!? Estar na Truks está sendo um exercício de humildade. Alcancei meus orgulhosos 45 anos porém feri meu orgulho ao ver diminuído minha capacidade de explosão muscular. A rapaziada hoje em dia possuem habilidades corriqueiras que antigamente (nossaaa!!) meus contemporâneos não tinham. O convívio com a diferença etária requer habilidade diplomática extrema em qualquer lugar e alí é preciso vigilância para não ceder às provocações como num debate com um jovenzinho impertinente dizendo-se tradicional e portanto respeitador dos mais velhos. O mesmo jovenzinho que num acerto de contas numa reunião denunciou-me por ser pouco "mano" ao não compartilhar da tristeza coletiva por um pequeno fracasso num espetáculo; respondi que do alto da minha experiência seria preciso fracassos verdadeiros para arranhar minha serenidade... Cara, é bom ser velho, vivido, ter o corpo marcado pelas cicatrizes do tempo; e para mim, mulheres marcadas pelo tempo são personalizadas pela vida, falou? Ser dirigido por alguém que se respeita é muita sorte. Novamente aquela palestra do Grotowski em 1993. O ator que elimina a dualidade entre a atuação e a mirada do público. Vou entender assim. Qual é a virtude e o vício do ator? Ego. O ego do artista é ao mesmo tempo musa e nêmises, inspiração e derrota. Portanto o ego não é o melhor apoio do ator, aliás bem se sabe que o ego não é bom para nada no fim das contas. É um poderoso entorpecente que cobra alto a fatura no dia seguinte. A boa direção, por mais que venha a lamentar por essa declaração, é aquela que aniquila o ego implacavelmente. Bons diretores são os cruéis, impiedosos e escravocratas; estes produzem atores soberbos pelo simples fato de destruirem o ego do ator. Este ator, finalmente está apto a ser moldado por qualquer direção. Existe suplício maior do que dirigir um ator que não é capaz de responder a um pedido de ação no palco? Um pedido de cinco passos no palco e ele dá dois... porque dois e não os cinco? Porque não quatro ou seis? Mas o ator egodicto dá dois passos e nada mais, nada menos. Henrique Sitchin é um matador de egos. Ele ostenta troféus de egos abatidos, narra a epopéia de egos fugitivos como caçadas a Moby Dicks. Percebi essa oportunidade de permitir o homicídio do meu ego. Meu ego. Um senhorzinho intranquilo, incapaz e reclamão. Cego circunstancial, pouco voluntarioso e muito abatido. Cheio de auto comiserações, cheio de verdades a serem ditas. Teoricamente percebo como a ausência desse senhorzinho permite fluir as ações de maneira muito mais tranquila. É como se toda vez que fosse fazer um trabalho esse senhorzinho tivesse que fazer seu discurso sobre os assuntos frívolos que acreditasse ser importantes. Ego não serve para nada! Portanto, calar e agir quando gente jovem e menos experiente que eu, ordenar; calar e agir quando o diretor mandar; para mim, um velho que muitos colegas cravaram o epitáfio de "mestre", estar na Truks está sendo um período de treinamento zen-budista há muito desejado.

quinta-feira, maio 10, 2012

ARTE E O IMPALPÁVEL- ART AND INTANGIBLE


Navegando num mar de puro deleite, pondero sobre a insatisfação humana. Há dia que tudo ocorre como planejado, que a aventura provoca surpresa; há dia que o peito aberto acolhe a adaga furtiva de alguém próximo e a amarga mistura de frustração e incapacidade contamina o peito. Onde está o espírito da arte? No coração, na mente, nos olhos? Como despertar nas pessoas a admiração pela recriação através dos símbolos no gesto teatral? A próxima pergunta que atormenta meu mais profundo sonho é, será que todo artista esta cônscio de que a razão de lidar com símbolos é recriar o que já existe através de uma luz diferente da que usualmente se manifesta. Será que todo artista acessa esse estado de arte? A vida é plena de símbolos onde desde a mais superficial leitura até ao profundo mergulho expressa a dor e o prazer do nascimento, do existir e da morte. Todo o cantar, toda mancha, todo ritmo deseja invocar esse estado de arte, essa região impalpável, jamais descoberta completamente, sempre nublada e desconhecida. A obra de arte é como uma criança sempre jovem, capaz de brilhar com megatons infinitos, de alterar a rota dos planetas, mas frágil tão frágil que morre diante do primeiro olhar reprovador! Como pode? Não sei, mas assim é!
Sailing in a pure delight sea, I thought under unsatisfaction of humanity. There are days that everything happens as planned, when the adventure causes surprise. There're days when the openned chest receives a sneak dagger from someone around and hte bitter mixed of frustration and failures contaminates the heart. Where's the spirit of art? In the heart? In the mind? In eyes? How to awaken people's admiration for the recreation through the symbals in the theatrical action? Next question that haunts my deepst dreams is: is every artist is aware that the reason for dealing with the symbols is recreate what already exist through a different light from that usually manifest. Does every artist accesses the state of art? Life is plenty of symbols from which the most superficial reading, or the most deepest expression of pain and pleasure of birth, existence and death. All singing, all ink stain, any pace you want to invoke this state of the art, this region intagible, ever discovered completely, always cloudy and unknown. The masterpiece of art is as a eternal child, able to shine with endless megatons, to change the route of the planets, but fragile so frail that dies before the first reproachful look! How it's possible? I do not know, but so is.