domingo, outubro 28, 2012

Cinquenta tons de um frapê de café


Tenho sido bastante condescendente com o trabalho alheio. Não sei se a cafeína de frapê acabou por provocar uma súbita ira, mas não pude me conter ao ver um teatro de fantoches na livraria Saraiva. Uma empanada de madeira singela, uma pequena caixa de som de home theater e um único refletor pendurado na frente do palco, como um chifre de rinoceronte, prenunciava uma deliciosa apresentação para as crianças. Música de playback, antigas músicas de trilhas sonoras de peças dos anos 80 e 90, ah vai, qual o problema? Falta o pagamento para o ecad? Mas subitamente o boneco mestre de cerimônias, a marca da companhia agradece ao "papai do céu" pela presença das crianças. A cia. era evangélica, e sorrateiramente divulgava a palavra do seu "Senhor", para as crianças e pais incautos. Isso mais as barrigas, as manobras de luva mal feitas, os apelos do personagem MC da peça para que não esqueçam o seu nome... despedaçaram meu encantamento. Era um SENHORA peça comercial. Um produto de baixa qualidade, um refrigerante com um sapo morto dentro, um restaurante com baratas subindo pelas paredes. Mas o maior insulto foi a condescendência dos consumidores, os pais. Tão ciosos em pagar por aulas de mecatrônica no jardim de infância. Felizes em apresentar os doces e a coca-cola aos bebês. Eles próprios, pais, adultos, se matam no trabalho para poder saltar na piscina do consumo e prestações de juros criminosos. Com tal fome voraz com que consomem a religião que lhes pede 10% do seu salário bruto. Deus quer parte do seu salário. Deus precisa do seu salário. Esse é o sacrifício de Iacov, que não vacilou em levar seu primogênito no topo da montanha para imolar, cravar a faca na garganta da criança como prova de fidelidade religiosa; como você pode reclamar de pagar o dízimo, a contribuição religiosa, a cota do carnê? Será que os adultos não vêem nem isso? Será que estou paranóico? Será que estão perdendo a mínima referência racional, de que um espaço laico como uma livraria deve respeitar pelo menos em vender livros com as capas certas, que não quero consumir um Liev Tolstói e encontrar a saga do padre Marcelo ou as dicas de enriquecimento do pastor Malafaia. Quanto mais meu filho que vai ver um conto dos irmãos Grimm ou Charles Perrault, sei lá em qual versão, e dá de cara com a do Edir Macedo, pô!!!! Que bola fora!

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