quinta-feira, outubro 20, 2011

O VALOR DA ARTE / HOW DOES ART WORTH?

Como cotar o valor de uma obra de arte? Como calcular o valor de um espetáculo? Hoje, valor médio de um espetáculo de teatro de bonecos, com uma equipe de no máximo 3 pessoas, após a crise de 2009 e em meio a recessão de 2011 é de R$1.500,00, em Curitiba. Mesmo através de captação de dinheiro via Lei de Incentivo, o valor de mercado é algo em torno disso. Estou falando de uma pequena companhia que diante da pureza de seus objetivos, em algum momento decide que não vai mais buscar “mamar nas tetas do governo”; que “vai andar sobre as próprias pernas” etc. Desmamar e aprender a andar, para uma cia. Teatral é mais traumático que se pensa. Talvez pela grande oferta de espetáculos gratuitos oferecidos pelo governo municipal, as creches e escolas públicas não compram mais os espetáculos. O dinheiro arrecadado dos pais, ironia, costuma ser gasto em passeios ao cinema, parques de brinquedos, museus até jogos de futebol. Ainda assim, nesse ambiente de desvalorização do produto teatral de pequeno porte, artesanal, familiar em que o artista reune habilidades de confecção, atuação , administração e quiçá musical e de dança! Para suplantar a concorrência, as novas companhias reduzem o preço para escolas particulares, aniversários e outros eventos, algo em torno de R$100,00. Em 1999 até 2000, cobrava R$350,00 para uma apresentação em escola particular ou aniversário, mas desse mercado não vinha minha renda principal. A prefeitura de Araucária compra espetáculos por R$500,00, há pelo menos cinco anos. Ano passado recebi R$100,00 por uma atribulada apresentação num aniversário, substituindo uma cia. de Guaraqueçaba; um colega da Cia. Fio Mágico tentou vender a R$100,00 meus espetáculos, valor em que seria deduzida a sua parte de venda. Agora nesse semestre, sem maior avaliação das cotações, cobrei R$100,00 por cada apresentação em duas escolas de Bauru. Mas o valor de mercado não era R$1.500,00??? Ao propor esse valor perguntam se não faria o espetáculo de graça, como se o teatro fosse um lazer, um hobby, como se fizesse uma pipa, um estilingue no fundo do quintal, e pudesse presentear as crianças da escola de uma diretora (esse sim, nobre trabalho pago, ainda que não reconhecido o seu devido valor!). Pois essas diretora, professora que luta pela valorização da sua profissão, pede para que eu faça o meu trabalho de graça! Bom meus amigos, esse é o quadro do ator-bonequeiro artesanal. Que não obtém os valores das Lei de Incentivo, não recebe investimentos do BNDES, Ministério da Cultura e portanto não tem o apoio dos bancos, indústrias de petróleo, aço, carne, cosmética... A arte sem alinhamento político é arte da fome. Talvez meu próximo espetáculo fale sobre isso. Da fome e seus mais amplos aspectos sociais, culturais e éticos. De como a arte subsidiada se domestica e torna veículo de controle social, perpetuando o humor barato e a poesia frívola. De como o artista movido pelo amor a arte pode suplantar seu ódio pelo sistema.
HOW DOES ART WORTH? How to quote the value of a work of art? How to calculate the value of a spectacle? Today, the average value of a spectacle of puppet theater, with a team of up to 3 people, after the 2009 crisis and amid the recession of 2011 is R$1500,00, in Curitiba. Even by raising money through Cultural Incentive Government Program, the market value is somewhere around that. I'm talking about a small company on the purity of your goals, decide at some point it will no longer seek "to suck on the breast of government" that "to raise on their own feet" and so on. Weaning and learning to walk, to a Theater Company is more traumatic than anyone can hope. Perhaps the large supply of free shows offered by the municipal government, daycare centers and public schools do not buy more shows. The money collected from parents, ironically, is usually spent on trips to the movies, toys parks, museums to football games. Still, in this environment of product depreciation small theater, craftworkers, parent-to-son workers in which the artist brings together puppet sculpture, painting skills, performance, administration, and perhaps to perform music and dance! To overcome the competition, the new companies reduce the price to private schools, birthdays and other events, something around R$100,00. In 1999 to 2000, charged R$350,00 for a presentation in a private school or birthday, but this market was not my main income. The City of Araucaria buying shows for US$ 250.00, for at least five years. Last year I received R$100,00 for a birthday present a troubled, replacing a company from Guaraqueçaba, a colleague of Fio Mágico Company tried to sell the R$100,00 my shows, that value would be deducted from their share of sales. Now this semester, without further evaluation of quotations, collected R$100,00 for each presentation in two schools in Bauru, my birth city. But the market value of R$1.500,00 was not?? In proposing, a teacher/ director ask me if i could do a free perfomance for kids, as if the show would be a pleasure, a hobby, as if making a kite and a slingshot in the back yard, and could give the director of a school children (but this, noble paid job, although not recognized because their value!). For this school director, a teacher who struggle for appreciation of his profession, asks me to do my job for free! Well my friends, this is the picture of puppeteer in Brazil. That it obtains the values ​​of Incentive Government Program does not receive investment of Government Banks, Ministry of Culture and therefore does not have the support of private banks, oil, steel, meat, cosmetics industries ... The art without political alignment is the art of hungry. Maybe my next show, going to talk about it. Hungry and its wider social, cultural and ethical issues. Of how art is subsidized becomes conformable and turning in a vehicle of social control, perpetuating by some cheap humor and frivolous poetry. On the other hand, how the artist moved by the love of art can overcome their hatred for the system.

quarta-feira, outubro 12, 2011

JORNADA PARA O SUL / JOURNEY TO THE SOUTH + english allowed

A jornada para o Sul começou em Maringá-PR. Fui convidado pela Ro e pelo Sandro para o 5º FESTEBOM. Maringá é uma cidade peculiar, em 2009 no auge da crise econômica e do virus H1N1 eu e o Bernardo Grillo fomos apresentar o Trem de Ninguém por lá. A notícia que chegava era o do 1º óbito pela gripe; entupi de imunizante e fomos. O que vimos foi comércio vendendo e platéia lotada! Dessa vez em 2011, a cidade continuava a mesma ou melhor. Por lá encontrei colegas bonequeiros onde trocamos rápidas notícias ou algo mais extenso no café matinal. Tambem pude dar uma recapitulada no trabalhos dos mesmos, o que fiz registrando a Cia. Articularte (foto). O FESTEBOM é um festival feito por famílias e isso que o torna único. Acaba fazendo amizade com os filhos e sobrinhos dos Maranhos e Fagundes. Alguns colegas acabam não percebendo essas peculiaridades devido ao estresse das grandes cidades e acabam fazendo exigências inconvenientes ou simplesmente não dão a devida atenção e respeito aos pagantes da sua arte. Visite o Maringá Shopping; vá a praça de alimentação, compre um chopp Brahma com a simpática atendente e vá sentar no mezzanino que dá vista ao Parque do Ingá... ali pense na vida enquanto dá bicadinhas no chopp.
Voltei a Bauru e alguns dias depois tomei um ônibus até Curitiba e de lá, junto com o Bernardo fomos a Jaraguá do Sul-SC (foto) para o Festival de Formas Animadas. Esse talvez seja o festival predileto das grandes companhias, profissional, grandes platéias. As conversas são rápidas, impessoais, logo encerradas para que a demanda dos serviços seja realizada. Quase não conversamos com os colegas que estavam no festival e quase não conversamos com os palestrantes do seminário que acontece em paralelo ao festival. Exceção da Juliana, uma recem formada em Gestão Ambiental. Ela subiu ao palco para expressar seu encantamento com o espetáculo. Ela se impressionou com um adereço da peça, o trem; achou que ele tinha um mecanismo complexo e ficou um pouco desapontada quando viu que, a estrutura era apenas uma "caixa". Mesmo assim, ela insistiu que a locomotiva era muito expressiva porque tinha uma mola que permitia a chaminé esticar para fora do aparelho. Foi quando percebi o quanto a platéia não discerne: o público não reconhece a manipulação do boneco. Não reconhece o gesto produzido pelo boneco com linguagem, embora interprete com uma idéia generalizada. Algo como bater o olho num cartaz publicitário, saber do que se trata, mas não fez o esforço de "ler" o cartaz. A massa do público ao ver o conjunto do espetáculo é capaz de apreender a sequência de eventos, mas não registra a forma com que os eventos aconteceram. Algo com que muitos bonequeiros se preocupam, mas o público parece não se interessar: a manipulação. Manipulação no teatro de bonecos é comparavel a engenharia da sequência de ilustrações dos filmes animados: Shreck, Toy Story, Carros. a audiência sabe que esses filmes são milhares de vezes mais atrativos que os antigos da Hanna Barbera, a mesma situação ocorre com um espetáculo que tem uma boa manipulação de outro com manipulação menos trabalhada.
Depois de Jaraguá retornamos a Curitiba para duas apresentações no Teatro de Bonecos Dr. Botica. Eu trabalhei nesse teatro desde a sua inauguração. Hoje sua administração esta a cargo da Fundação Cultural de Curitiba. Com infiltrações, moscas saindo pelos ralos, baratas... num teatro dentro de um shopping. As companhias que apresentam no teatro devem fazer um mini-show gratuito antes do espetáculo começar. Esse show costumava lotar a frente do teatro, o que é um atrativo para o shopping, cuja administração não tem o menor interesse por esse mini-show. Mesmo a sorveteria, em frente ao teatro, D'Vicz, sempre reagiu com hostilidade, reclama do som alto, embora o estabelecimento faça parte da "praça dos bonecos"... da minha parte não tomo mais os seus sorvetes. Mas esse desacordo é ruim para todas as partes. A multidão não acumula mais diante do teatro porque as atrações não são mais uniformes e as criações nem sempre são do agrado do público consumidor das lojas. O Botica fica nessa variável, nem é produto de shopping nem resultado criativo.
JOURNEY TO THE SOUTH The journey to the South began in Maringá-PR. I was invited by the producers Ro and Sandro for the 5th FESTEBOM. Maringá is a unique city, in 2009 at the height of the economic crisis and H1N1 virus, me and Bernardo Grillo were invited to present with our puppet theater the Trem de Ninguem there. The news came that there was the death of a victim to the flu, and we were immunizing a lot. What we found was the sidewalks crowded, stores selling and trading with high capacity! This time in 2011, the city remaining the same or better. For where I met fellow puppeteers exchanging quick news or something longer accompanied by breakfast. Could also give a recapitulated in the friend's work, which I did recording the Articularte Co. (photo). The FESTEBOM is a familiar made festival and what makes it unique. Ends up making friends with the sons and nephews of Maranhos and Fagundes. Although some colleagues have just not noticing these peculiarities due to the stress of big cities and end up making demands inconvenient or simply do not give due attention and respect for the buyers of his art. Visit the Shopping Maringá, go to the food place, buy a Brahma beer with the friendly attendant and go sit on the mezzanine that overlooks the Park of Inga ... here think of life as it gives sipped the beer. I went to Bauru and a few days later I took a bus to Curitiba and there, along with Bernard went to Jaragua do Sul, SC (photo) for the Festival de Formas Animadas. This is perhaps the favorite festival of large companies, professional, large audiences. The talks are fast, impersonal, then closed for the demand of services. Hardly talked with colleagues who were at the festival and hardly talked to the speakers at the seminar that takes place in parallel to the festival. Exception of Juliana, a newly formed Environmental Management. She took the stage to express her delight with the show. She was impressed with a prop in the play, a train, thought it had a complex mechanism and she were a little disappointed when she saw that the structure was just a "box". Still, she insisted that the engine was very impressive because it had a spring that allowed the chimney to stretch out from the engine. That's when I realized how much the audience does not discern: the public does not recognize the manipulation of the puppet. Does not recognize the gesture produced by puppet as language must be, though made a general idea. Something like the eye hitting a oudoor, know what it is, but made no effort to "read" the advertising. The mass of the public to see the whole show is able to capture the sequence of events, but does not the way of events happened. Something that many worry about the puppeteer, but the public does not seem to be interested: the manipulation. Handling the puppet theater is comparable engineering of the sequence of illustrations of animated films: Shrek, Toy Story, Cars. Audience to know that these animated films are more a thousand times more attractive than the old Hanna Barbera cartoons, the same situation occurs with a spectacle that has a good handling of another with less manipulation worked. After Jaraguá returned to Curitiba for two shows at the TEatro de Bonecos Dr Botica. I worked in theater since its opening. Today his administration is in charge of the Fundação Cultural de Curitiba. Leaking, flies out of the drain, cockroaches ... a theater inside a mall. Companies in the theater must present a free mini-concert before the show begin. This show used atracted a crowd to the front of the theater, which is an attraction for the mall, whose administration has not the slightest interest in this mini-show. Even the ice cream store in front of the theater, D'Vicz, always reacted with hostility, complains about the loud sound , although the establishment takes advantage of the "square of the puppets" to sell their products... on my part no longer take their ice cream. But that disagreement is bad for all parties. The crowd does not accumulate more on the theater because the attractions are no longer uniform and the creations are not always appreciated by the consuming public stores. The Botica is on this variable, nor is the product of creative outcome or shopping product.

domingo, outubro 02, 2011

Quando o óbvio for única saída. Quando criar for repetir e repetindo todos passam a recordar. Quando o único a me ouvir for eu. e quando não mais suportar nem a mim. Chega a hora que não tendo o que falar, o melhor é calar... Outubro chegou depois dele novembro; e depois o melhor é não saber... Ai destino cruel viver as festas de fim de ano. Gostava de beber e imaginar-me numa borda de um precipício vertiginoso em que declamando Baudellaire mantinha-me suspenso... hoje o precipício que se abre é a trivial náusea do estômago, a nada heróica e desonrosa ressaca oceânica! Afinal a arte depende da carne sem o que sua glória não condensa. Que seria de Romeu e Julieta sem os corpos juvenis, os trágicos ficantes? Ainda não superei o muro da falência hepática. Qual primavera vai suplantar o cinza invernal?