domingo, abril 24, 2011

MAGDA MODESTO

Meus primeiros anos de ator-bonequeiro foram uma soma de experiências intensas.
Rodei para fazer teatro por estradas esburacadas, hotéis baratos, aprendi a achar comida saborosa em lugarejos que pareciam nem haver comércio. Apresentei em festivais onde conheci e reverenciei os maiores mestres da animação de bonecos do Brasil e do mundo, encontrei com gente simples mas com talentos singulares, capazes de surpreender a mais exigente plateia, onde aprendi a me comportar com a menor ostensividade possivel no entanto buscar comedimento e elegância em meus espetáculos.
Nesse tempo numa oficina o grande mestre Yang Feng no Rio de Janeiro, onde participaram a Bete Gil, Maíra Coelho, Sérgio Mercúrio, encontro pela primeira vez MAGDA MODESTO. A senhora não participou, mas assistiu sentadinha, julgando, observando, selecionando, o empenho dos alunos durante os exercícios quase kung fu, do mestre chines. Sai muito bem, não por ter talento, mas por ter o background de kung fu na adolescência, o que permitiu pelo menos compreender a lógica dos exercícios. Magda então aproximou, daquele jeito, por seu próprio interesse, e pôs a comentar sobre a técnica da luva chinesa. Claro que já sabia quem era aquela dama; evidentemente, conhecia o rigor com que tratava as experiências e tentativas de produção dos colegas, por vêzes rechaçando impiedosamente ou louvando pela litania gloriosa outorgado pela madame Modesto. Com que enlevo recebi aquela companhia e o convite para conhecer sua coleção de bonecos do mundo, em seu apartamento em Ipanema. E fui, escoltado pela fina companhia de Miguel Vellinho.
Desde então esse foi sempre o protocolo dos nossos encontros. Cercada, procurada, solicitada, assediada por todos os devotos, artistas candidatos a pesquisadores, amigos, admiradores, sempre aguardei a oportunidade em que ELA escolhesse o momento em que ELA decidisse sentar na mais afastada das mesas, em que eu e a Luciana estivéssemos sentados, dai o eixo do agito mudasse para lá. Aquele cantinho cabisbaixo de repente transformava em mesa de discussão, alegria, conversa mole, violões eram dedilhados, cantoria, num dia teve até harpa! Magda era assim trazia anjos para a terra, revoltava demônios e instigava os acomodados (a pior espécie de morto-vivo).
A partida de MAGDA MODESTO, deixa um mundo menos pensante, sob maior império do mal gosto.
Adieu Madame!

2 comentários:

Marionete na Saúde disse...

Ola Jorge
Também tive a honra de desfrutar de mtos destes momentos gloriosos e inesquecíveis.
Ela vai morar para sempre em meu coração.
Grande guerreira e amiga.
Bjs
Bete

Jorge Miyashiro disse...

Bete! Voce mais do que todos, com toda a certeza... ela deixará saudades.
Um grande beijo.