sábado, novembro 20, 2010

A COISA ATACA EM ALCACU

(Origami Luciana Miyashiro)
Meus amigos saudosos dos contos de Alcacu. Heis que retorno com mais uma turmalina resplandescente do formoso triângulo antropológico da Santa Felicidade, Campo Magro e Almirante Tamandaré... falando na virtude da felicidade, soube de um monge tibetano, em visita ao Rio de Janeiro, cujo cortex teve suas sinapses captadas e confrontadas com tabelas fidedignas, e se concluiu ser o monge daquela região onde o governo chines chama de seu, o homem mais feliz do mundo! Nem os cariocas alcançaram tal feito, embora tenham encetado, muito cedo, no amargo caminho sem retorno de ser feliz. Durante a reportagem sobre o monge caminhando, sentando em lotus, claro, no jardim Botânico onde Tom Jobim ouvia os trinados do passaredo, pois para a tradução do canal televisivo não há felicidade sem Tom Jobim, muito menos sem a trilha sonora ornitológica, minha esposa consorte e cúmplice me inquire se em minhas meditações eu era feliz, pois essa era a receita do monge como forma de ser feliz, meditar. Respondi com o clichê dos praticantes informais que ainda havia muito que aprender sobre a arte de tranquilizar os fluxos e refluxos mentais e as marés de serotonina. Traduzindo: era atacado por uma onda de feliz plenitude muito de vez enquando.
Alguns dias depois desse frívolo episódio, estou embarcado num eficiente (e um tanto arriscado) Ligeirinho, o ônibus de poucas paradas do transporte público de Curitiba, em pé, carregando minha mochila importada, de alças tesas e eretas (Deuter), sentindo-me habitante dos primeiros mundos, enquanto a paisagem deslizava-se pelas janelas, recordei da pergunta desafiadora da minha esposa. Fazendo uma réplica complementar tardia, meditei ali mesmo e fui inundado por uma cálida sensação benfazeja. A felicidade morava ao meu lado, como não!
Um passageiro levantou-se mas não quiz sentar-me, deixei para a ocupação de quadris mais esgotados, como os daquela senhora que costura célere entre a fila dos passageiros em pé. Facilitei a passagem da senhora, e manobrei a mochila importada e tesa, que não estava em minhas costas, mas ao lado do meu tronco, afim de não bloquear o corredor. A mesma mochila que se chocou contra mim, a senhora, sentada, que ainda de mão elevada,como uma desafiante marcial, olhos firmes contra os meus, indica que a alça tesa resvalou sobre si. Sorrio atenuando.
Não direi que meu estado búdico foi prejudicado, mas protelado. Perguntava a razão desse costume dos nativos curitibocas de invadir o espaço físico dos transeuntes, quando devo novamente deslocar para permitir a passagem de um senhor obeso ao corredor, mas com uma respeitavel obesidade. Resultando que de alguma forma a alça tesa resvalou na mulher sentada, novemente. No meu campo de visão inferior dois glóbulos faiscantes, raios de alta potência, queimam minhas retinas. Como o coelho Pernalonga pergunto: algum problema, senhora?
-Essa coisa bateu no meu rosto!
-Se a senhora pedir com educação posso resolver...
-Essa coisa esta batendo no meu rosto.
-Bom... A senhora esta precisando de um peeling, mesmo.
-Essa coisa esta batendo no meu rosto!
-Esta bem, senhora. Que sem educação!
-Sem educação é você!
“Sem educação é você”, eu fui o mal educado de esfregar uma “coisa”na cara da mulher, no Ligeirinho. Evidentemente, contando com a velocidade da malícia do presente leitor, replico em minha defesa que isso tudo fiz com a voz mansa de um gato ronronando e da maneira mais gentil. Apenas uma moça que estava ao lado da mulher testemunhou o fato e endossou com a assinatura de um largo sorriso.
Se algo me magoou, pois não posso chamar de mágoa o perdurar da memória sobre o evento; se algo me desalinhou foi chamar a mochila importada de COISA! Para mim a amostra infalivel da degradação social em meio as Louis Vuitton costuradas por crianças. Não reconhecer um legítimo produto original, tomando-o por um tacape que se atira nas bochechas alheias... ai, que chato.
Acredito na astrologia com a mesma reserva que a homeopatia. Há dias que tenho crença fervorosa, em outros o meu ceticismo coagula qualquer resultado funcional dessas artes e ciências. Mas hoje, depois desse debate com a mulher atacada pela alça tesa, revelou-me a seguinte frase:
Medito no que me há dito.

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