quinta-feira, julho 15, 2010

TEATRO, UNIFORMIDADE E DIMENSÃO MONETÁRIA

Na fina gastronomia existia a uniformidade do cardápio. O rico consumia a monótona dieta de ovas de esturjão sobre torradinhas ou raspas de trufas porcinas sobre um ovo frito, regada a champanhe francesa ou escotch envelhecido sobre gelo, acompanhado de uma loira enfiada num tubinho decotado de alguma maison. Hoje existe o conceito de terroir onde um universo de alimentos recebe um classificação de estirpe e são qualificados de acordo com sua origem e finalidade. Em resumo, para o paladar refinado uma polenta pode alcançar o mesmo status da trufa e da ova de esturjão.
O teatro de bonecos e porque não o próprio teatro sofrem dessa mesma uniformização.
Como o crítico foi muito alvejado, poucos se aventuram a declarar suas convicções ao assistir um espetáculo, apesar de que a crítica informal, das filas e fofocas continue a vigorar. E como ecoa de sua tumba a viva voz do jornalista sobre a néscia unanimidade, percebe-se que a crítica informal considera apenas o consenso e não a variedade, nunca a peculiaridade, jamais a real inovação e a inquietação. A imagem cênica esta contaminada pelo cinema e pela turbulência musical, saturação da luz , da cor como se fosse uma campanha publicitária de meia dúzia de cias empresas. Fazer teatro hoje em dia é um bom negócio. Nunca antes na história desse pais, a cultura recebeu tanto dinheiro. O que foi bom para a profissão, tornou-se ruim para a criação. A interface cia. teatral e empresa geraram bons negócios e não ofereceu mais cultura para esta, mas contaminou aquela com a voracidade pelo lucro, eficiência e resultado. Um espetáculo não é mais admirado pelo estabelecimento da mensagem, conteudo e inovação, mas pela quantificação da bilheteria, aceitação do público e aportes financeiros de governo e empresas. Assim a cia. Teatral que ostentar em seu elenco a marca de uma estrela de novela, pela avaliação empresarial, sera uma cia. empresa de sucesso. Ha duas décadas atras uma cia. de teatro geradora de lucro, e havia várias assim, era menosprezada pelo desvio de finalidade. Atores e atrizes de talento desculpavam-se por atuar na produção de conteudo mediocre da televisão ou de produções teatrais lucrativas.
O teatro hoje tem medo da morte, do enfrentamento, perdeu a coragem, perdeu a juventude. Tornou-se responsavel, asseado, amante do dinheiro e do conforto. E a memória da História revela, pela repetição dos eventos que isso pode provocar ou ser sintoma de uma grande fratura que se revela na sociedade. Por que não queremos mais falar de pobreza, desigualdade social, preconceito racial e criminalidade onde deveria haver civilidade? Por que esses assuntos nos enotorpecem com o desinteresse? Por que a voz de pastores, políticos e empresários tornaram-se mais eloquentes que do poeta? Por que se prefere não pensar??
É o velho motor das representações sociais: o dinheiro. Por dinheiro se mantem a vida, com dinheiro se busca, se consolida ou, simplesmente, se compra as relações. Por dinheiro as pessoas são vendidas, por dinheiro venderam-se a si mesmas.
E contra isso, em várias esquinas da dramaturgia, se pos.

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