segunda-feira, abril 19, 2010

ADEUS DOUTOR JORGE!


Heis que passou, meu pai, Jorge Miyashiro.
Para quem não sabe sou Júnior, adotei o nome do meu pai talvez pelo mnemonismo, talvez para a secukarização do nome de família; quem poderá dizer?
Ele nada tinha em especial. Um bom pai como todos são, menos os crápulas.
Talvez não mereça uma estátua em praça pública, nem uma póstuma sessão solene na Câmara Municipal de Bauru, já foi titulado Cidadão Bauruense por obra de um vereador amigo.
Da minha parte Jorge Miyashiro poderia ter acreditado mais em mim, é apenas o lamento perfeccionista, um tanto egoista de um filho ambicioso, carregado de pecados.
Lamentei muito mais a morte da minha mãe.

Curioso foi que durante o velório do homem, percebi a lágrima no rosto das pessoas mais simples e humildes. Essa foi sua obra silenciosa. Pessoas desesperadas que iam até ele em busca de uma solução. Pessoas que não tinham meios de pagar por seus serviços advocatícios e que agora retribuíam com o pranto.
Sabia o trâmite para obter a aposentadoria para inválidos, remédios de preços astronômicos para pobres e jamais negava uma elegante cortesia.
Uma história que ele contou e guardo com orgulho na pequena saga mitologica da minha família:
Quando delegado de polícia, chefiava o arquivo criminal, aquelas fichas de pessoas suspeitas que mais serviam para extorquir do que promover a segurança pública, coisa da ditadura, as fichas não serviam para mais nada mas a burocracia funcional exigia sua guarda... Uma ex-cafetina veio até ele e pediu um favor. Ela teve um filho e lutou muito para sua formação e o resultado foi que esse rapaz assumiu um cargo de autoridade numa pequena cidade. A ex-cafetina foi então considerada "senhora de respeito, mãe da autoridade", quase nobiliárquico. Pediu para apagar sua ficha de suspeitos que poderia servir para a extorsão do filho. Meu pai solicitou que trouxessem a ficha daquela senhora e rasgou-a diante dela.
Outra que mostra o caráter impetuoso do Miyashiro foi quando a polícia cercou o notório assaltante João Cardoso. Esse bandido temeroso enfrentava à bala a polícia, punha de joelhos a sociedade bauruense da década de 70. nada comparado com os PCCs de hoje, mas a maioria dos bauruenses perdiam o sono ao ouvir o nome João Cardoso. O cerco gerou um impasse, ele não podia sair do esconderijo e ninguém queria entrar. Era uma tarde de sábado, modorrenta, Dr. Jorge Miyashiro saiu de casa e foi até o Jardim Cruzeiro do Sul onde ocorreu o cerco. Sem colete à prova de balas (nos anos 70 isso era equipamento de filme americano), desarmado, entra na casa do meliante e o faz render-se evitando um desnecessário derramamento de sangue. Muito tempo depois meu pai e eu encontramos um senhor que o cumprimentou como se estivesse diante de um patriarca familiar. Separamos e meu pai, não sem um vacilo na voz pois era apenas cumpridor do dever profissional e revelou: esse era o João Cardoso.
E quando os presos tentaram incendiar a antiga cadeia pública de Bauru, ao lado da rodoviária. No começo de noite, meio da semana, antes do Jornal Nacional meu pai saiu de casa, bravo porque ia perder a edição do jornal. Ninguém quis negociar com os presos exaltados. Rebelião selvagem, coisa feia. O delegado assistente da seccional subiu até as ameias da cadeia e postado como e diretor de escola (das antigas) iniciou o diálogo, os presos reconheceram quem estava falando: o delegado duro que não fazia sujeira etc. O tom da rebelião diminuiu, meu pai propos um acordo, os presos recusaram: -Ah é assim? Vou mandar a tropa de choque (da PM, ele que era da polícia civil!!!!!). E termina a rebelião.
Meu pai, que ajudou na lavoura, professor de ingles, bancário, agente do juizado de menores, delegado de polícia e advogado, enfrentará seu julgamento superior com esse currículo, sem importar-se com homenagens terrenas, levando junto a saudade dolorosa de quem tocou sua mão estendida.

5 comentários:

Sergio disse...

Meu amigo, meus sentimentos. Belo texto, bela homenagem. Que a tristeza não pese demais e que o reconhecimento e o carinho mantenham a boa memória dele.

Marilia Kubota disse...

Que linda crônica. Poderia até publicar no JORNAL MEMAI, um dia. Errr, falando nisto, a reunião já rolou...semana passada. Tivemos tantas afazeres que não pude dar um toque pra você. Vou te escrever um email. Beijão

Joba Tridente disse...

Mr. MiyashiHERO

taí ó ô pai
tal o filho

num campo de palavras
lavrando histórias
semeando verbos
colhendo aos ventos
causas de um outro tempo

taí ó ô filho
tal o pai

iguais atores
em palcos
tão diferentes
senhores

tal um
dominando homens
que agem feito bonecos
tal outro
dominando bonecos
que agem feito homens

onde a diferença
dos iguais quando
se partilha o DNA?

não conheci o Sr. Miya
mas li sobre um Mr. Hero

Jorge Miyashiro disse...

Com o perdão da flexão léxica:
Pooooorra!
Obrigado amigão, esse teu tridente não cutuca só a inação cultural

carlamiyashiro disse...

Ooopa, Joba, obrigada pela belísssima mensagem e vc tem razão ao dizer q ambos tinham em comum a lida nas relações, com "bonecos" e homens...