quarta-feira, março 24, 2010

A TENTAÇÃO DO SADHU- Um conto hindu

Sadhu é um retirado. Vive nas florestas e montanhas dedicando sua vida a mortificações, amputações e cauterizações dos sentidos. São considerados sagrados na Índia; assim como a vaca, o macaco e o rato.
Embora a dona de casa queira usar a vassoura contra os seres sagrados, eles são sagrados mesmo assim.

Impossibilitado de prosseguir na senda espiritual, o sadhu não obtinha êxito em sublimar a energia sexual. E quem consegue? Qualquer adolescente se priva do alimento. Qualquer estressado rompe o laço de apego familiar. Qualquer brasileiro, classe média, concursado sonha em viver somente com uma rede, um violão e uma casinha na montanha (pode ser praia, melhor ainda!)...
...mas estava a falar sobre a batalha transcendental do sadhu contra a tentação da carne.

Para auxiliar em sua disciplina, os deuses hinduistas enviaram apsaras, seres angelicais de formas voluptuosas, seios túrgidos, cinturas finas como o seu pulso, quadrís largos como a anca de uma vaca (sagrada!) e pubis perfeita como... como... ora, como uma coisa legal! E não vinham em bando mas numa legião. E povoaram a mente, o coração e toda a extensão da pele do sadhu, forçando-o a um contato cósmico-terrenal, com a consequência de queda profunda no escalímetro do progresso celestial... uma derrota fragorosa.

Mas!

Se no politeismo hindu existe algum deus que conspire contra a ascenção dos mortais; existe também aquele que anseia pela companhia, irmandade de um herói, de um semi-deus.
No exato instante em que o sadhu se deixava tocar pelas apsaras, outro toque despertava sua mente para outra realidade. Era a mão da deusa Durga, a devoradora do tempo, a terrível, decrépita, feia que matava só de pensar. E esse toque, impossível de perceber aonde ele foi deixado, imprimiu um aforismo:

"Quem ama não escreta"

E essa frase desencadeou um grande conhecimento no sadhu. E ao invés de santo tornou-se, agora, um sábio. Ao invés de lutar, passou a absorver as apsaras, sem resistir aos seus encantos, ademais, amando-as com humildade; e isso anulou o ataque dos seres angelicais que revelaram sua verdadeira natureza assexuada.
Enfim o sadhu alcançou a placidez em sua mente, sendo portanto elevado até o império dos deuses celestiais do hinduismo.

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