domingo, março 14, 2010

ARTE, TRABALHO E INSATISFAÇÃO

A arte se desenha pelo refino; que demanda trabalho; que é deflagrado pela insatisfação. Para existir é preciso o caminho das botinhas vermelhas!
Veja por exemplo a lenda do gourmet que procura pelo prato popular, barato, mas de sabor inigualável. É um exercício regular andar por botequins daqui da Santa Felicidade o "bairro gastronômico"de Curitiba, esse Grupo Sérgio redivivo, procurando pela comidinha da mamãe, ou mama! Qual o que! Não existe. Após queimar meus tecidos gastro-intestinais conclui: não há como Jesus voltar para salvar o planeta! Fui a um boteco no Posto Ventania. Lá há mesas e todo tipo de penduricalho nas paredes. Do dono aos garçons todos cumprimentam com um aperto de mão, sinal de que o fregues é um amigo! Ao fundo na grelha assam costelas, frangos e outros seres sacrificados para a gula. Vi que alguns fregueses sentavam encostados no balcão, aliás vários. Sentar no balcão significa que se quer fazer amizade com o dono e funcionários é coisa de bêbado, o cara apanha da esposa em casa e vai curar a carência afetiva por lá, é ou não é? Enfim, vi que era todos uma irmandade só, e eu sozinho no centro do salão do boteco. A refeição consistia de arroz à carreteiro, salada, maionese e escolhi costela bovina. Arroz à carreteiro!!! Sei se um restaurante é bom quando o arroz é bom e jamais comi um arroz à carreteiro em Curitiba. Porque não há. No entanto arrisquei e lá veio aquela canja cozida demais com churrasco da semana passada. A mesma receita em qualquer restaurante da cidade! Invariavelmente a mesma porcaria, o mesmo tempero, sem questionamento algum, sem alterar um mililitro de água, sal e copinhos de arroz. quando capricham, adicionam mais churrasco passado. para que desperdiçar um charque? O sabor é o mesmo. porque é a mesma tia cozinheira que aprendeu com outra tia, que espalha a receita numa rede infindável. Não gostou? No Madalosso é assim, naquele outro restaurante chique é assim... e demais justificativas de que o errado é você.


A diferença entre o artista e as pessoas esforçadas.
O artista se esforça para alcançar alguma coisa.
O esorçado trabalha nada alcançar.
O esforçado já tem um plano igual a de todos, segue o modelo que não foi ele quem criou: casa, carro, mulher gostosa e muda, marido rico, fiel, que abra o vidro de azeitona, filhos comportados, nenhum drogado, viado, sem muitas brigas com parentes, vizinhos e no trânsito... enfim uma vida que todos desejam.
Pecado seria desejar o contrário. Pois o artista, o alto executivo, a prostituta, o grande político, o líder traficante são todos pecadores.


Ainda na Santa Felicidade, o triângulo de ALCACU, tem aquela polaquinha que trabalha no mercadinho, bem-humorada e despachada e que me odeia com todas as fibras louras de sua cabeça. Já se passaram três anos e o dono perguntou pq. não frequentava mais seu estabelecimento e surge a rapariga envolta de todo seu ódio pálido; cumprimentei, afinal, we are the world! Recebo um digno virar de costas, pois ainda há a honra!
Dignidade, nome, respeito!!!
Isso é ser pobre: sem nenhum patrimônio pecuniário mas uma grande lista espiritual!
E essa lista de desafetos e ações indignas não alimentam o estômago, nem a mente, nem o coração, mas levanta a cerca para novos encontros, novas idéias e novos amores. Essa muralha moral que não serve para proteger a alma virgem, mas para que não haja oportunidades, desafios, aventuras, para que a vida não siga em frente, serve para atrasar o passo, abreviar a evolução, castrar as paixões... e todas essas maluquices, ora!
...
Nada muda.

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