sexta-feira, fevereiro 26, 2010

A AATMO É ÓTIMA


Estive em Ovar uma pequena cidade de Portugal, por tres vezes.
Muito curiosa, a cidade esconde tesouros como se aguardando um próximo saque. Ovar foi um baluarte contra a invasão islâmica na península, ou moura como é costume chamar.
Numa pausa após as apresentações, em exploração turística descobri o Museu de Ovar, onde há um acervo de bonecos e marionetes bem suprido. Percebendo minha admiração, uma funcionária perguntou sobre meu interesse. Pensei que (cheio de culpa colonial) ela estava me questionando se iria furtar alguma peça do museu. Disse que era marionetista (ator-bonequeiro), portanto o meu fascínio. Prontamente ela revelou que possuiam no depósito uma "boneca nipónica" onde não obtinham êxito em catalogar (uso, função e origem). Heis que trazem, embalada numa caixa de cedro Matsui e papel de arroz uma bunraku-ningyo, uma boneca de teatro bunraku, uma cortesã feudal.
Estupefactado, tocando pela primeira vez numa boneca daquele tipo, num prosaico museu de uma cidadezinha de Portugal, demonstrava para a funcionária o sistema de manipulação que sabia, apenas na teoria.
Havia sido um presente trocado entre figuras políticas, talves; e tratava-se não de um souvenir, mas uma obra para uso artístico; um pequeno tesouro da maestria niponica para Portugal!.
Alguns anos depois manipulei um bunraku-ningyo, num workshop da cia. Nichiyoji Kuruma Ningyo, bunraku de carrinho, onde fiz bonito, modéstia ao ralo...

Outro tesouro ovarense é a AATMO, onde conheci uma das pioneiras, Carla Dias (a rapariga que esta a falar, ou melhor a ministrar um mini-curso sobre as marionetas na entrevista). Na época cursava uma sisuda faculdade de Direito, mas estava sob os auspícios do recrutador das artes, Evaldo Barros. Carla Dias tem uma refinada habilidade para a escultura que exige minúcia. Seus bonecos revelam detalhes microscópicos, muitas vezes desprezados por bonequeiros com algumas décadas desperdiçadas na inveja de gente talentosa. Dizem que o detalhe jamais aparece em cena, que o público não está interessado em minúcias e que o negócio é boneco grande, de manipulação brusca, bruta e violenta. E o que seria de nos se o mundo todo fosse somente rock!?
Participei uma festinha para arrecadar fundos para a AATMO. Os sócios trouxeram petiscos e beberages e toda gente comparecia para consumir e apreciar um pouco da artesania e do talento cênico dos AATMAenses. Tipo um "chá de bebe", despedida de solteira, em que o pessoal contribui com alguma coisa para alguém. Durante a festa tomei umas cervejas e comi uns sandes (sanduiches de carne). No dia seguinte fui terminar um boneco, no meio da lixeira pos-evento. Mas para meu assombro lá estava jogado num canto um pernil defumado inteiro, tipo presunto de Parma, coberto de pãe amanhecidos; as geladeiras lotadas de latas daquela cerveja de alto teor alcoólico... e uma canícula ibérica de desidratar na sombra...
Se a culinária é uma emoção, fazer uma feijoada, um churrasco pode ser uma forma de carinho para os amigos, fazer um prato na Europa íbero-mediterrânea a coisa se eleva ao quadro da indecência. É por isso que o alimento lá, deve sim ser subsidiado, porque vem sendo domesticado, acarinhado antes dos romanos. Não dá para comparar a uma soja transgênica, a uma produção estadunidense e vamos lá: a todo agronegócio e indústria que tomou o Brasil . O vinho da Califónia jamais será como um Alto-Douro. Falta tempo, domesticação. Enquanto um é mandioca outro é cipó! Manja?

E a AATMO continua lá, encravada e resistente, como um balurarte contra outro tipo de invasão, saque e violência.


MUSEU DE OVAR
Rua Heliodoro Salgado 11, 3880 Ovar, Portugal‎ - 256 572 822‎

AATMO-Associação Amadora de Teatro de Marionetas de Ovar
http://aatmo-marionetasovar.blogspot.com/

Um comentário:

projeto8 disse...

Meu amigo obrigado pelo anuncio do "Projeto 8", foi realmente uma gentilesa.
Só um detalhe eu me chamo Paulo Carvalho, mas valeu o espírito.
Agora quero convidá-lo pra assistir meu espetáculo no fringe.
Chama-se a Pedra e o Lago.
Segue os dados:

A Pedra e O Lago, é uma reflexão sobre o turbilhão emocional que
se abate sobre a alma feminina ao perder um grande amor.
Onde:
Centro Cultural Solar do Barão
Quando:
Dia 17 - 22h00
Dia 18 - 13h00
Dia 19 - 16h00
Dia 20 - 19h00
Ingressos:
20,00 R$
Ingresso Rápido:
http://www.ingressorapido.com.br/Evento.aspx?ID=9850

Folder Virtual:
http://images.orkut.com/orkut/photos/OgAAAB1oldLEa1SwUbQxX3L62D4qslf9T4Y4oEHj4gfP9nD3_7-b4_IO-eSO8-tgeQJ3LdEKUndBZGbGl8bYRqyI_coAm1T1UFr3DcJ7iFCXynwDr31tjXbo8rbA.jpg