terça-feira, janeiro 05, 2010

ARTE BONEQUEIRA, PASSAGEM E PROSSEGUIMENTO

Juventude e memória da juventude são as duas tônicas da narrativa.
Tenha uma peça ou filme com um ou ambos os elementos, esse blockbuster ira alçar as alturas de Obra eterna.
Atire o primeiro lenço quem não deitou uma lágrima por Romeu e Julieta, de Baz Lurhman o único papel de leonardo de Cáprio e Claire Danes; ou não perdeu o fôlego na viagem temporal de Anton Ego diante de uma garfada de Ratatouille.
Todo adulto lamenta sua juventude perdida. Como um anel que tu me deste que era vidro e se quebrou... Olha com melancolia aquela bela garota, magra, desprezada, de aparelho, que tanto lutou pelo seu amor... "era bonitinha!" Dirão que nem tudo na dramaturgia é moçadinha bonita e cheirosa. Mas quando há uma velhinha (o), repare que eles são imbuidos de uma energia vital, alegre, motivada... juvenil. Na verdade, o maior temor é de que o corpo falhe, falte e envelheça. Ninguém se convence de que uma cabeça boa resolve quase tudo, ou pode-se ir levando, na maciota. Se o medo de um corpo deteriorado é grande imagine, a mente!
Que mal terrível o Alzheimer! Não há destino mais cruel para uma era tão virtual, tão construida no pensamento (bom ou mal).

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Não quero ser diferente, mas meu fim-de-ano foi uma bosta!
Se um dia ganhar um APCA, Oscar, Leão de Ouro jamais vou agradecer minha família. Da sogra até minhas irmãs, do meu sonolento pai até minhas tias, ninguém acha que tenho o tal dom, talento ou sequer a mínima propensão para permanecer na profissão (perdendo edital e dinheiro como perdi, até eu aconselharia a mim mesmo a mudar de rumo...). Que seja essa minha vingança!
O que fazer? Eles estão certos. Hoje, arte é valor, mercado, fama extraordinária. Não tenho dinheiro, e no tópico fama, as pessoas tem uma vaga noção a meu respeito. Aliás não muito boa:- "aquele japonezinho que fez xixi no palco, né?"
2009 errei tudo! Errei a dose, errei o caminho e estou quase para pegar um saco, um cabo de vassoura, largar mulher, filho e família, e sair vagando pelo mundo feito um cometa.
Quando era adolescente era movido por essa possibilidade. Se tudo der errado, saio pelo mundo a vaguear. Hoje eu erro, erro e erro mas continuo insistindo porque sou brasileiro e não aprendo nunca. (É para rir, tá!)

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No fim-de-ano conversava com minhas irmãs, cunhados e cunhadas. Lembrávamos os velhos tempos em que éramos crianças. E a imagem que todos guardam de mim, é que eu era um caso perdido.
Sou tomado pela ansiedade em explicar os motores que me levavam a agir daquela forma. Para que? Ano que vem vou levar a mesma bordada!
Meu cunhado chegou a confessar que jamais confiaria um seviço a mim, caso eu fosse engenheiro, advogado ou físico nuclear!!! Tudo bem, ele é médico e eu jamais confiei minha saúde em sua medicina.
Minha sogra disse que ainda acha que minha profissão não tem nada a ver; depois de dez anos casado com a filha dela, ela vem me dizer isso!
Começo a entender que para a família, a única vez que terei minha vida relatada com um pouco de lirismo será após o meu falecimento.

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Na volta passei pelo Vale do Ribeira, para fingir que nas férias explorei as cavernas do Ribeira. Na verdade flanei pelas rodovias curvas dos morros daquela região. Deu para esquecer o mundico!
Estava com tudo ali, Mac, filmadora, câmera, não captei nada!

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Pronto estamos passando do ape para uma casa. Tem quintal, dois limoeiros, a oficina vai ficar num quarto grande, vamos fazer da sala um espaço para cursos, reuniões e penso em fazer uma sarau aberto para a vizinhança na garagem, com bonecos. Quero fazer num dia ou outro duas ou tres horas de improviso!!! é uma proposição de início de ano, portanto passível de não ser cumprida. Estou muito entusiasmado. A casa fica numa rua sem saída, anotem: Rua Egídio Antonio Zamillian, 221, Santa Felicidade , Curitiba-PR.
Tem velhinhos por todos os lados... Minha única preocupação será aquecer a casa no inverno, sei lá, achei-a meio fresca.

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Eu sou ator-bonequeiro. Tenho ouvido muita gente que faz teatro com bonecos, um mal teatro de bonecos, dizendo-se: A-T-O-R! Afora o serviço que essa gente presta para a arte, isso demonstra uma falta de amor próprio. Ou talvez algo pior, o desprezo, motivados pela mesquinharia burguesa nobiliárquica de ficar sempre por cima, por uma vertente que reune teatro, escultura, pintura e mambembagem. O cara se diz ator como quem diz: sou cardiologista e não clínico geral. Minha opinião é de que isso aconteceu nos anos 70, no período em que o teatro era arma contra a ditadura. E os atores daquela época tiveram encontros com os mestres de outros países, embora houvesse outros bonequeiros por aqui. Esses mestres do estrangeiro eram articulados, traziam dentro de si a luta política e revolucionária. Já o bonequeiro brasileiro era e ainda é, gente simples e analfabeta; e dificilmente aderia a causa política. Portanto as técnicas de manipulação de estrangeiros tornaram-se instrumento para o ator brasileiro e isso permanece até hoje. Só que ao invés de anotarem a teoria dos mestres estrangeiros, ficaram só com o currículo e o exibicionismo perpetua. No entanto, em contradição, há um medo contra a aplicação demasiada sobre a técnica. O ator teme ficar "bitolado", "marombado"pela técnica. A vida nos ensina que, sem o exercício disciplinado e regular jamais o boneco será manipulado adequadamente, assim como um instrumento musical jamais será tocado apenas ela intuição momentânea. Uma coisa é a defesa da identidade nacional. Outra é a adoção de boas práticas. Nem sempre a sabedoria do índio funciona no corre-corre. Deve-se separar e reconhecer o que é patrimônio do país e a adoção de normas , técnicas e formas, vindas do Exterior que sejam interessantes. Esse velho debate de gente da cidade reproduzindo, sem reler e adaptar o canto de trabalho da gente do campo, soa distoante. Porque a forma física do urbano não revela a carga dura do campesino. Mas isso é outro assunto.
Ressalto que apesar do teatro de bonecos ser considerado arte menor pelos próprios atores que usam bonecos, o teatro de bonecos não seria o que é, disseminado e praticado, sem eles. Um mal que vem para o bem, talvez...

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Só o teatro brasileiro admite um violeiro que não toca violão, um cantor que não canta, um dançarino que não dança. Embora as escolas citem e adotem o Stanislavski. A coisa fica na citação. Portanto qual a mensagem de uma cia. que aplica uma técnica diferente a cada espetáculo, e um espetáculo por ano? Eu faço há 12 anos fantoche. Procuro trazer uma cena nova a cada dois anos, com fantoches. É o que dá para fazer. Consigo fazer um fantoche cantar e o outro tocar violão. Vai entrar na próxima peça. Foi o que consegui até agora. Já fiz a manobra clássica, do fantoche pular da minha mão dar cambalhota e voltar para a mão. É difícil, a cena as vezes não dava certo, mas fiz. Pois sou considerado um especialista pelos colegas. Isso denota que sou tedioso e pouco criativo, para eles. Mas vá procurar um músico erudito que venha a tocar um instrumento diferente a cada cinco anos para ver o que acontece com sua carreira.
Afinal, a fome intelectual e infantil, a visão jornalística e crítica por novidades, não passa de outra voragem consumista como a que acontece nos axés, funks e sertanejos da vida.
É isso, cara! Se você não é erudito, então é massificado! Durma com essa.
E voltamos a falar da juventude...

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3 comentários:

Joba Tridente disse...

É, meu amigo,2009 finalmente se foi, não sem antes me quebrar. Ainda bem que me diverti com a sua ida à Sagrada Família da Desconsideração em busca de energia para um 2010, que já vai a um bom caminho.
Desconsideração por desconsideração fico com a minha mesmo, pelo menos eu já me conheço. Acho!
2009 se foi com cancelamentos.
2010 começa cancelamentos.
E me pedem paciência porque acreditam que sou paciente e que pago as contas com paciência porque em mim a paciência não tem limites. Será!

Que a inocência fundamental dos Bonecos continue viva em você!

Abração!
Joba

Joba Tridente disse...

É, meu amigo, finalmente 2009 se foi e me deixou praticamente em pedaços, ainda (até quando?) remontáveis.

2009 terminou (me) com cancelamentos.
2010 começou (me) com cancelamentos.
E olha que ele já vai a caminho...

Na perda de rumo vim retribuir a visita e me diverti com a sua grande viagem à Sagrada Família da Desconsideração. E eu que estava (estou) me sentindo um caco vi que: ou a gente ri (tá difícil) ou muda de profissão (qual?)nessa altura da arte da convivência à distância.

É isso, mestre, que a inocência real dos Bonecos continue contigo na nova morada. E aproveite pra criar Gnomos no seu quintal!
Ainda deve valer alguma coisa num mercado tomado por Vampiros. Mas ande logo porque a próxima onda será a dos Anjos.

Abração.

Não sei se a postagem anterior chegou. Então escrevi esta!

Joba

Jorge Miyashiro disse...

Aliás, passei por sua Gália querida, no caminho entre Rolândia e Bauru.
forte abraço amigão!