sábado, março 28, 2009

A TRANSFIGURAÇÃO DA REALIDADE



Não pensem que isso é uma crítica ou um insulto, é apenas uma pergunta:

POR QUÊ SE FAZ TANTO TEATRO SOBRE O MEIO RURAL???
POR QUÊ, O ATOR, O DRAMATURGO, O DIRETOR QUER FAZER OUVIR A SONORIDADE DA FALA RURAL?? FAZ O ATOR REPRODUZIR(UM URBANO) UM SOTAQUE ANEDÓTICO, QUE NÃO REPRODUZ A VERDADEIRA SONORIDADE DA FALA RURAL? NORDESTINÊS, CAIPIRÊS, POLACO, GAUCHO...
POR QUÊ APRESENTAR O MATUTO COMO UM HERÓI? COMO SE NELE ACUMULASSE A SABEDORIA E NO CITADINO A ESTUPIDEZ?

Foram várias perguntas, mas que apontam para uma análise escapista da irrealidade. Forjando um ideal que deixa escapar , detalhes significantes de outra existência, uma exist~encia muito mais dura, sofrida e cruel.
Ou talvez querendo dizer: tudo bem no meio rural, não há conflito de terra, não há chacina, não há exploração do trabalho escravo, infantil, de toda uma família; até esgotá-los, onde se pergunta ao homem exaurido pelo sol, pelos anos de trabalho, pela lida na enxada: como vai tua vida? "Vai bem sim , sinhô!" Noooossa, um cara assim só deve ser sábio! Um santo-homem!

E o negro no meio rural?
Esse, o mamulengo retratou como analfabeto, disléxico, contaminado com todos os vermes e bactérias, mas... inteligente!
E esse "neguinho" é capaz de enganar o empregador, a representação do poder de polícia, eclesiástica e até espiritual já que ele dribla a morte, o diabo e quiçá Deus.
Porque, nossa representação de herói afro-descendente compreende os mecanismos, a burocracia, o trâmite dos poderes em qualquer escala. E obtém êxito, mesmo, analfabeto, com dificuldade de aprendizado da educação formal, adoentado, desnutrido: somente com a matreirice!! Simplesmente, porque é "O" Neguinho.
Estarei forçando a barra em dizer que esse protótipo racial não faz propaganda de que "com esforço tudo se obtém"? Que o cara só é pobre porque é preguiçoso? Que na cidade o menino indolente é mandado para a psicóloga que descobre que falta estímulo na sua vida, e no campo, o menino indolente recebe o estímulo da chibata? É assim que se forjam os heróis sábios das representações do meio rural? Praticamente todos eles.

Uma parente disse que as cotas universitárias eram injustas. Que os japoneses deveriam usufruir dentro de um estatuto democrático etc. etc. Antes que isso se torne um debate jurídico, os japoneses vieram para o Brasil para ser algo próximo de escravos. Porém vieram livres, quero dizer, não eram capturados, não eram prisioneiros, nem mercadoria. na mesma condição vieram os italianos,alemães, poloneses, judeus, ucranianos etc. Meus antepassados, ambos, eram alfabetizados em suas línguas, leitores, e com formação técnica. Seus descendentes tiveram assim uma formação melhor. Meu avô percebeu que estava sendo explorado nas plantações de café, porque era realmente inteligente, fazia cálculos e podia prever que aquilo não ia ter um bom fim, e por isso fugiu com a família em busca de oportunidade melhor. Num país em que não dominava o idioma, com ninguém para lutar a sua causa. O resultado é o número respeitável de vestibulando de origem nipônica e a fácil inserção no mercado. Pelo menos, antes da crise...
Bem, e se para o japonês com formação e vantagem histórica é difícil, quanto mais o negro que há um século era tratado como rês...

E mais uma pergunta:
Aonde, um matuto se deu bem na vida?
Só quando virou torneiro mecânico.

terça-feira, março 24, 2009

DON'T BE ANGRY WITH ME, RENATO!





Se há uma pessoa que respeito por aqui. Esse é Renato Perré. Ele não ficou feliz com um texto escrito neste blog. Aqui reproduzo sua manifestação e a devida réplica, que graça, no debate cavalheiresco, característica que esse grande artista também possui:

Caro Miyashiro achei totalmente infundados e fora de propósito os comentários a cerca do espetáculo Ópera de Carvão e Flor considerando que o amigo nem se quer viu o espetáculo.

Renato Perré


Meu querido amigo Perré!
É verdade que, ocupado que estava, não assisti o seu espetáculo, e isso ficou avisado no texto. Assim como vc., ocupado que estava, não assistiu ao meu.
Entretanto quando for assistir, onde espero que em breve irei, acredito que nada de novo será acrescentado ao debate, fora o imenso deleite de apreciar a fina artesania da tua obra .

Talvez, devido a sua vida atribulada, onde espero que os rendimentos sejam compatíveis com tamanhos compromissos, não tenha lido com mais atenção o texto a qual se refere. Se assim o fizer, perceberá que, sem a menor intenção de difamar, talvez incisivo, concordo, devido a velocidade deste meio, onde a cortesia é prolixa; fiz um paralelo de linguagens, minha e sua.

No Visitantes Incomuns, faço a crônica pop-burguesa, sendo eu, desmamado por uma babá eletrônica. Meus pés sempre calçados, pouco sentiram a terra tenra, de tanto caminhar sobre carpets; e embora tenha chupado gabiroba, só consegui reconhecer a notória fruta do Cerrado aos 23 anos.
Minhas cantigas de ninar eram os hinos do Ultra-Seven, Robot Gigante, Goldar, Phantomas.
Cirandas e cantigas eram liturgias que jamais me afetaram. Cantar os cantos populares era uma matéria no currículo das escolinhas, aula de folclore, que graças ao método reprodutivista, distanciaram ainda mais os meninos urbanos do universo rural que vc. tão bem descortina. Além disso, sem ser sexista, as cirandas e jogos de palavras eram coisas de meninas, ao que as professoras não cuidavam de remover a diferença. Aliás estimulavam o futebol e outros jogos físicos para o meninos e combatiam a mistura, a troca, a intervenção, temendo que isso estimulasse a sexualidade desde os tenros 5 anos! Coisas do papado de João XXIII.

O que faço aqui, neste blog é atender uma necessidade de traduzir as técnicas de expressar pelo teatro. Certa vez, declarei a ti, que nós, eu, você, e outros colegas tínhamos nossos modos protegidos de relacionar com o público, nossas repetições, nossas estruturas, seguras e confortáveis. E que admirava outro colega pela sua ousadia, em romper, pelo menos até aquele momento, com o conforto próprio. Esse colega mergulhado no risco assumido de errar, ou pelo menos de oferecer a indigestão ao propor novas regras, chutar o tabuleiro.

É sobre isso, com detalhes pessoais de impressões de assistir teus outros trabalhos anteriores, que teci minha opinião.
Na época em que escrevi o texto, estávamos em cartaz, simultaneamente pela FCC. Achei curioso as visões de espetáculos em oposição. O meio urbano e rural.
Ler e interpretar é fundamental, meu caro.

Um forte abraço e
seja sempre bem-vindo.

SOCIOLOGIA DO ANIVERSÁRIO DE CRIANÇAS 2 (ou) - Quem cospe para o alto revida cagada de passarinho!

A meu Deus!

E no dia seguinte, após a epopéia do aniversário dos filhos da vizinha, liga em pleno domingo matinal, de ressaca madrugueira, uma senhora pedindo "pelamordedeus" uma apresentação de teatro de bonecos para a festa de aniversário do neto.
Topei, mesmo sacrificando minha ressaca e recebendo uma merreca, por quê?

Porque tenho conta pra pagar.
Porque os atores que substitui estavam ausentes por razões médicas e morde-fronhísticas.
Porque sou aquele tipo de animal que corre em direção das duas luzes aparecem no meio da estrada escura.


Chegando no local, que local!
Uma mansãozinha de três lotes etc. etc.
Na festa a decoração inspirada nos heróis da DC-Cômics. Super-Homem e Mulher-Maravilha na recepção. Garçonetes lindas e acaba aí a parte vantajosa.
Nunca como nada na festa, para demonstrar profissionalismo. Além do mais, seja rico seja pobre o velhinho sempre vem, os velhos salgadinhos gelados estavam por lá, a sra. Coxinha, a Empadinha, o Quibinho e toda essa delinquência.

Convidados ricos nunca chegam na hora, pior que noiva!
E vieram com seus panos de seda (ou seria javanesa?) casais com filhos, mães "model-stylisted" abandonada pelo marido mas com o filho, peruas idosas-alfa, figurinhas carecas com óculos de aro italiano e os patriarcas cheios de dinheiro propositadamente mal-vestidos e antipáticos.
O aniversariante estava lépido na conquista de seus 9 anos e de cada presente que enchia sua caixa-baú.

Hora combinada 16hs., hora que realmente rolou 17:30h.
É que se esperávamos a vinda dos quíntuplos. Cinco bebês que deveriam fazer a apreciação máxima do espetáculo.

Enquanto isso, os piores vilões do planeta fustigavam a vida do Super-Homem. Do modo mais covarde, atacavam o herói por trás, agarravam sua capa e cantavam a marcha nupcial!!! E SH. crispava um sorriso... chega, naufrago em depressão...

Cadê os gêmeos? Os quíntuplos?
Atrasados, comece agora.
A platéia ansiosa. Criança rica, o pior público.
Tudo está ali para servir-lhe.
Os inimigos do Super-Homem, dirigem seu poder nefando para o pobre bonequeiro...
"Olha aqui! Se continuar assim , não vai haver teatro de bonecos, estamos entendidos?... Menino, fica quieto!"
Ah, se aquelas tias-profes que me punham de castigo, arrancavam minha orelha da cabeça, esbofeteavam minhas nádegas me vissem agora!
Super-Homem morria de inveja...
E lá foi o teatro de bonecos, mergulhado nos gritos das crianças, na inesgotável conversa dos adultos, nos chutes contra a empanada de algum nenê: aaaah, foda-se, cortei a peça, um monte de texto, outro monte de cena. Até uma certa altura do espetáculo: um tranquilo silêncio.
Terminado, vou para frente e estão lá três ou duas velhotinhas e uma mãe; mas esta mãe era a mãe dos quíntuplos, devidamente acompanhada de seus pimpolhos.

Da festa levei o reforço de que a alta-burguesia é um saco, uma taça de água, o cachê miserável e um cansaço enorme.

Não sei por que ainda insistem em encomendar teatro para crianças em festa.
Se é assim deviam chamar aquele FURA DEL BAUS, aquele teatro que tem uns punks que atiram latas de tinta no público, se perseguem de porrada, simulam estupros, enfim: todas essas coisas que fascinam as crianças esclarecidas sobre "o que se precisa saber para enfrentar o mundo de hoje" , dos colégios de altas mensalidades.

Por falar nisso, nesta segunda-feira, num desses colégios que uma aluna selou seu destino.

E para animar, compro uma Trip, com a entrevista do Chimbinha. Interessei-me pela única razão de saber sobre o cara que desperta tamanho nojo dos tios desses pirralhos, gente também "esclarecida", leitora de Veja e assinante da Gazeta do Povo.

Chega de causalidade por hoje!

domingo, março 22, 2009

SOCIOLOGIA DO ANIVERSÁRIO DE CRIANÇAS

O Google analictycs (something like that) indica que tenho alguns leitores em Portugal. Pode ser algumas amizades brazucas. Por aqui, distante da terra do vira, mas na terra do se vira, algumas cias. se viram a completar seus ganhos animando epheméride anual do aniversário de crianças. É um horror, porque os miudos de cá, crêem que o ator é o Judas a ser malhado em todo aniversário, seu ou de algum amiguinho. Qual não é o suplício dar um texto com aquele meio-homem desdobrando-se a recitar o vocabulário pagão de todos os nomes e ofícios licenciosos de minha mãe?

Odeio aniversário de criança.

Outra razão para dar suporte a minha rejeição, é que alguma pedagoga encanou que não se deve ingerir beberagem alcoólica diante dos petizes!
Mas pode-se encharcar de refrigerantes (extremamente salutares!) e deglutir as esferas de carbohidrato frio como o beijo da morte, com alguma pasta de proteína acomodada no interior da bola, de origem bovina, aviária, vegetal (soja) etc. ; a que chamam "salgadinho".

Sem mencionar que o ambiente animado, é frequentado por uma dezena de pessoas desconhecidas. Ou conhecidas entre si, mas desconhecidas de ti! E todos enturmados, para teu desconcerto.

Mas...
Este sábado, uns vizinhos nos convidaram para a festa de aniversário de dois irmãos.
A princípio, desconfiados, relutamos em aceitar tamanho golpe dois presentes em contrapartida de apenas uma festa?!?
Mas somos jovens e corajosos, e cingidos do espírito intrépido, aceitamos.
Minha esposa, embalada de entusiasmo, costurou um gato de pano para presentear a menina. Não contente com o resultado do animal de pano, costurou uma bolsa de feltro para embalar o presente.
Para o menino, que costuma praticar o bulling contra nosso nenê e outras crianças menores, ela comprou dois carrinhos Matchbox de R$3,00 cada.
Claro que o presente masculino foi apenas formalidade.
Já o presente para a menina ela caprichou. Toda hora pedia uma opinião sobre o estágio em que se encontrava o gato de pano. Eu, para mantê-la no chão ficava reticente.
Não foi masoquismo matrimonial, ou alguma espécie de tortura conjugal, mas lembrei-lhe de que a vizinha não havia mandado o convite que prometera. Com todos os parentes no apartamento, será que ela ainda manteria o convite?
Será que quando aparecêssemos na soleira do salão de festas não seríamos escurraçados pelo olhar geral de "quem convidou esses aí?".
Temerário.
Por muito pouco o gato de pano não tornou-se um gato planador.
Mas vou poupá-los de um enfadonho suspense novelístico e dizer que outra vizinha veio nos buscar para a festa.
Os presentes foram distribuidos para as crianças que os desprezou, solenemente, para a decepção da minha esposa.

Apesar de viver muitas experiências, demoro para aprender. E uma coisa que não aprendo, é desaprender ser educado em ocasiões de festa de aniversário infantil. Saí do apartamento, decidido a não cumprimentar ninguém. Pois basta cumprimentar as pessoas desconhecidas na festa para uma surdez generalizada fazer o teu cumprimento bater na parede e voltar com a força de um tabefe na cara!
Foi o que não fiz.
Cumprimentei a vizinha, percebi pela visão periférica, que a sala estava repleta de gente desconhecida e fechei a cara.
A vizinha fez uma apresentação geral de quem éramos e completei com um esgar meio próximo de um sorriso, olhando para uma parede além da última janela atrás da última pessoa na sala. E pronto!

A vida é uma sucessão de surpresas.
Seu traçado jamais é uma linha reta, racional e previsível.

Primeiro, a vizinha, dona da festa nos serviu cerveja.
Em seguida estávamos todos juntos, conversando, debatendo sobre a metodologia de se produzir uma festa, sobre os rumos políticos do país e finalmente sobre a origem do caráter criminoso nas camadas sociais economicamente desprivilegiadas.
É supreendente como surge sociólogos de copo na mão, com teorias criativas, pró-ativas e finais com um poder atômico persuasivo.
Eu, para não ficar de fora, embalado na fórmula de que dois corpos não ocupam o mesmo espaço, expus a minha de que dois copos não bastam para mandar para o espaço... imagine! Ouvi tudo muito bem comportado, fazendo rugas de compenetração.
Para que ganhar de goleada, se um dois a zero estava tranquilo?

Ufa! A próxima só em julho, espero.

quinta-feira, março 19, 2009

A CRISE E OS NEGÓCIOS




Eu não vou acusar, apenas vou observar...

Crise econômica sempre foi sombra do teatro.
Mas nunca vi tanto dinheiro cair nas mãos de produtores como em 2008 e nesse início de 2009. parece que agora, devido ao vultuoso fluxo de prata, fica cada vez mais difícil camuflar os repletos baús.
As cias. teatrais sofreram o choque de gestão e são empresas sólidas com carteiras de clientes fiéis, sem mencionar do mais fiel deles: o Governo.
Arte e Poder também não andam separados. O Poder precisa da persuasão da arte para governar. A arte que discursa em harmonia com o Governo torna-se colaboradora essencial para evitar que o cidadão julgue.
Por sua vez, o artista que torna-se empresário, na minha opinião, deixa de ser artista. Pois é impossível gerir os negócios e fazer refletir sobre o tempo em que se vive. E o que ocorre entre os colegas é isso. Muito pouco se admira o talento, mas a capacidade de captar negócios e gerir a empresa que é o grupo teatral.
Quando comecei a fazer teatro, empenhávamos em longos debates, ensaios e a reflexão continuavam durante a semana. Hoje essa estratégia é encarada pelos profissionais com hojeriza. Pura e desgastante perda de tempo.
As longas conversas sobre fazer teatro, foram trocadas pelas ordens , diretrizes, para agilizar o processo criativo, não queimar o cronograma e toda essa terminologia técnica que na verdade esconde a preguiça mental das atuais companhias para criar, mas apresentam um vigor surpreendente para ganhar dinheiro.
E quem vive sem dinheiro?
A questão é o procedimento para obtenção desse dinheiro.
Arte pode ser um negócio rendoso quando há a oportunidade no oferecimento de dinheiro. O Minc prevê algo em torno de R$48 milhões.
Como é distribuído esse valor?
Se fizer mercado, as cias. tornam-se mercados.
Se abrir concurso, tornam-se funcionários.
Se distribuir feito bolsa-família, só no meu condomínio vão aparecer umas quatro cias. de teatro de bonecos!

Por outro lado, há duas semanas apresentei num lugar que para mim foi familiar: o teatro de bonecos Dr. Botica.
Ingressos a R$14 e R$7,00! Muita gente por aqui, na Santa Felicidade, pede para avisar quando houver apresentações minhas. Se nem quando foi gratuito pela FCC não foram, quanto mais pagando R$14,00! Não convidei ninguém e nem enviei press release. Para minha surpresa as sessões lotaram!
E o Botica é um espaço de arte a serviço de um poder, a empresa que o apóia. E as pessoas confiam nesse poder. É curioso...

quarta-feira, março 11, 2009

AFINAL, QUEM É ARTISTA?



Aqui é a fase em que se encontra aquela cabeça, cuja pintura foi feita e refeita pela LUCIANA ALIBERTI...


Exposição de gravuras feitas por ex-moradores de rua na Pinacoteca de São Paulo. A repórter Neide Duarte diz que "agora suas obras se misturam com a de outros artistas", traduzindo: foram elevados a categoria decente de artistas, ou não-moradores de rua. Ou podem até morar na rua, mas são agora artistas.
Quem é artista, afinal?
O crítico definia isto. Principalmente o crítico de artes (...plásticas). O crítico (...teatral) poderia derramar-se em um jorro de palavras apaixonadas diante de um recém-descoberto cantor , ator e até um marionetista! Mas em virtude da desmensurada ambição de alguns candidatos a ascender no panteão dos eleitos pelas Musas; e a arrogância dos eleitores (eles mesmos, os críticos), temos a confusão desse jogo obscuro que é a definição do artista.
A lacuna está aberta e nela se infiltra o texto jornalístico que elege tal e tal fulano ou sicrano, artista.

Eu não fui eleito.
Impus lenta e elaboradamente minha identidade artística.
Ainda hoje é controvertida a minha identidade.
Alguns ainda não a reconhecem.
Claro, tenho carteira do SATED.
Sou filiado ainda que não recolha as taxas devidas, a aprtb.
E o mais importante, a opinião pública: ...este é Jorge Miyashiro, um artista!
Está bem, sou um artista em baixa-estima.

Mas algo aplicado a mim, alenta que sou um artista.
Eu não me calo.
Entre todas as categorias da sociedade: políticos, jornalistas, empresários, advogados, sindicalistas, manifestantes, líderes etc.
Cada uma dessas vozes dissonantes entre si, que formam o plural ruido que permite pensar, ter idéia própria.
Como criador do meu próprio discurso.
Participante do debate através do meu meio que é o teatro de bonecos.
Aí sim! Sou um artista.

segunda-feira, março 09, 2009

PODEMOS TOCAR OS DEUSES




Reencontrei um velho amigo de teatro, em boas condições, digamos, socialmente invejáveis. Ele vem da estirpe dos contestadores, quando em sua juventude desafiavam Deus e o mundo, literalmente. O mundo era desafiado na sexualidade, contestação política e dos "costumes burgueses". Deus era desafiado também na sexualidade, no uso desenfreado do fumo e alcool, já que os entorpecentes era divertimento burgues. E agora esse pessoal acomodou-se, e igual a letra, repetindo os erros de nossos pais.
Erro no sentido de que não conseguiram mudar o projeto de sociedade em que viveram. A tecnologia avançou, mas o desconforto, a insatisfação e finalmente, a miséria ainda desgraçam nossa vida. E quando deparamos com a força desse projeto repetimos as fórmulas que funcionam, as fórmulas, rituais, maneiras, tabefes, esculachos, desmandos dos antepassados. E nada muda.
Esse meu amigo, com um poder incomensurável parou de fumar àlguns anos atrás. Há dois anos parou de beber álcool. Exercita com caminhadas na rua ou na esteira, faz academia, natação. Na juventude fazia troça dos burgueses que preservavam a saúde.
Porem...
Ele é um homem de teatro.
Não é pessoa comum.
O ator toca Deus e mergulha nos deuses.
Na duração do espetáculo ele move a gênese e o apocalipse. 30minutos, 50 minutos, duas horas... e nada mais. Depois disso é um miserável pedante e inconformado.
Isso é um ator.
Ele sabe que a humanidade é uma comédia. Somos feitos para a diversão dos deuses. Eles, ao final dos eons, vão desaparecer. E se divertem ao assistir a luta humana pela sobreviência, esbanjando arrogância para deixar uma "obra".
Nada permanece. Tudo não passa de um palco vazio a ser preenchido e esvaziado.
E o ator, que constrói e destrói um mundo em 30, 50 minutos ou duas horas, ri dos deuses. Contesta, desafia, revolta-se...
Até que por fim, com a casa quitada, vai fazer esteira, parar de beber e fumar.

terça-feira, março 03, 2009

IKIMASHOOO!




Ikimasho é uma palavra japonesa para "vamos!", "simbora", vai que é tua! Isso tudo.
Agora tá na hora de mandar braza, que pela mor de deus! Que paradeira foi esse 2007. Recessão foi em 2007! Começou em 01/01/2007! Agora chega de imobilidade, quero correr, quero agitar! Éeééé!

Veja como está saindo a pintura das cabeças. Está no ritmo da Luciana, mas está indo.
Estou revendo a minha coleção de Lobo Solitário, o mangá do ex-executor do Xógum, o cara que decapitava os nobres condenados no momento da esviceração (cortar a barriga, por as vísceras para fora) ritual, o seppuku. O trabalho do executor era cortar a cabeça do suicida, antes que ele fizesse as feições de dor e desespero, para que fizesse um suicídio bonito, poético. Era um trabalho muito importante, como podem ver...
Bem, mas o executor é traído, sua esposa é morta e ele sofre a falsa acusação de difamar o xógum, e aí ele tem que fugir levanda o bebê recém-nascido, em busca de vingança. Eles se tornam o Lobo Solitário e Filhote! O assassino do carrinho de bebê, manja?
Num episódio, um envenenador arma uma cilada para o Lobo Solitário, jogando pontas de chumbo envenenadas. O Lobo calça sandálias de palha de arroz e não um coturno. No momento em que ele pisa, sente a resistência da ponta envenenada contra as fibras da palha, sua reação é saltar para uma árvore próxima, evitando que a ponta aprofundasse e atingisse a sola do pé ou pisasse sobre outra ponta envenenada. Daí, claro, fez o que todos fariam numa situação dessas: recolheu todas as pontas envenenadas e devolveu para o envenenador, espetadas nas solas do par de sandálias, indicando que com aquele truque o envenenador não o pegaria mais! Não é o fino?

Bom mas eu estou falando do Lobo Solitário para comentar o andamento dos trabalhos por aqui.
Nada muito grave.

Fico pensando que um cara bom de briga, um lutador brilhante, exímio e habilidoso, não deva ser um cara estabanado. Na verdade ele deve ser bem tedioso, comedido, contido, uma bomba com aparência inofensiva, como todas as demais bombas soem. O cara deve andar devagar para não pisar em pontas envenenadas (aí o meu raciocínio!), falar arrastado para não provocar insultos, ter o olhar semi-cerrado para que ninguém ache que ele está fitando alguém, provocação respondível com alto teor de violência. O bom lutador gosta de evitar a luta, mas ela, claro, o procura com sagacidade...

Eu, pelo contrário, lutador medíocre; gosto de correr, de falar, me irrito com coisas somenas do tipo: mal atendimento, trânsito lento, falta de educação etc. Sou até capaz de irritar-me contra um cara bom de briga (que perigo!!!!)!!!

Daí que a Luciana escolhe uma tinta e desiste. Escolhe outra e desiste. Pinta um ladinho, e para. Uma hora depois, volta e pinta outro ladinho e em seguida apaga tudo!
Eu fico louco com isso!!
Por mim já estava tudo pintado.

Revendo uma gravação de uma das primeiras peças solos da Cia., Gato por Lebre, vejo esse... não defeito, mas característica, de fazer tudo correndo. A peça inteira, 55minutos sozinho, de solo, naquela rotação de Dvd player 4x!! Sabe? Correndinho, rapidinho, quase que vc. perde alguma cena... Eu era assim. Agora estou menos assim.

POR ISSO, EMBORA A PINTURA NÃO ESTEJA NO RITMO QUE ACREDITO SER ADEQUADO, ESTOU APRENDENDO A SER UM BOM LUTADOR.

Então já sabem:

IKIMASHOO! Mas não se apressem...!