segunda-feira, dezembro 07, 2009

A IMPORTÂNCIA DA EXIGÊNCIA

Sempre fui da política de que o artista deve ser humilde. Tratar o funcionário do teatro com respeito, amizade etc.
Estou tentado a mudar de opinião.
Já expliquei porque não gosto de trabalhar em festas de aniversário, pois agora direi porque não trabalhar em escolas.
Ao que um coro de atoresdo teatro pedagógico gritarão: muda de profissão!
Sim, poderia. Mas por enquanto dou meus pitacos.

Há uma semana fui apresentar num colégio muito bem fornido de recursos (rico). Procedimentos de segurança etc. Na chegada, carregado de material, o portão de acesso está fechado. mandam dar a volta por 100m. Era um auditório. na Portaria mandam caminhar com tudo até às salas de aula. Mais 100m. No meio do caminho as professoras aparecem e mandam retornar ao teatro que tem dois lances de escada. Pronto, estou num salão muito amplo, com duas pequenas janelas que não consigo deixar abertas. Estou desidratando, muito rápido. Tento enxugar com algumas toalhinhas absorventes de papel, mas não dá. Não tenho tempo nem de ir ao banheiro. As crianças logo vão subir. A mala não abre, a chave não gira...
Tudo pronto, uma funcionária resolve ligar o ar-condicionado, mas minhas mãos estão meladas de suor.
Os bonecos ficam presos no braço. É difícil troca-los. As cenas atrasam. alguns adereços não estão presos porque corri para montar tudo e não tive tempo de verificar.
Depois, mandam desmontar tudo, para fazer a segunda apresentação, quando em outro lugar. Sendo que havia combinado um preço menor, justamente para não ter que montar e desmontar tudo de novo...
E os funcionários a quem deveria ser respeitoso, nem estão ai. Mandam andar de um lado a outro, mesmo vendo a carga que tenho de transportar sozinho. Ah, e o carro havia quebrado fui de táxi, sem poder levar o carrinho...
Em resumo: todas essas dificuldades, toda a falta de organização da produção da escola, proporcionou um espetáculo incompleto. As crianças, excelentes alunos, com domínio de mais de cinco idiomas, excelente público, não puderam assistir a totalidade que o espetáculo poderia ter oferecido se houvesse um mínimo de condições.
Exigir 5000 toalhas pode ser exagero, mas sinaliza a produção que fique esperta!
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E um produtor de um festival, teatro, centro cultural, em gerla recebe o artista com aquela frieza e despeito. O artista (o pequeno artista) que tem de se dobrar em humildade, diante daquele cioso administrador, guardinha, , operador de equipamento. Isso é uma inversão, como pode ser? Para o público, se o funcionário foi depenado ou não, não tem o menor interesse. O público quer ver o show rolar. Se o funcionário está num canto chorando de humilhação, que pena! Mas se o espetáculo foi ruim, o público vai exigir a morte do artista e o incêndio do teatro com tudo e todos que nele estão.
É isso que dita a experiência.

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Um espetáculo é um rito.
A finalidade do rito é provocar.
Se uma missa é um rito, uma missa é teatro.
Se uma bolacha é o corpo de um deus, não posso negar que essa bolacha é a picanha desse deus.
Se um jogo de futebol, tourada, um carnaval e até uma briga é um rito, esse teatro é um rito que provoca emoções descontroladas, avassaladoras.
E o teatro formal está no meio do caminho do rito religioso e da histeria dos jogos carnais.
Tem que ter um pouco da verdade de uma picanha divina e abrir a possibilidade para uma fuga histérica.
Esse seria um bom teatro.

4 comentários:

Marilia Kubota disse...

Que triste, Miyashiro...lembro com carinho de suas maravilhosas peças contando lendas japonesas. Você conhece "Mimi Nashi Hoichi" ? Ah, tentei mandar um JORNAL MEMAI pra você mas voltou. Veja o primeiro número em WWW.JORNALMEMAI.COM.BR. Vai ter um bazar no Tomodachi (Jaime Reis, 28) lá dá pra ver o primeiro e segundo números do jornal. ABRAÇOS!

Jorge Miyashiro disse...

Ah, Marilia!
É triste mas a é a vida...
O Memai vai para a lista dos favoritos.
Não, não me recordo... é alguma coisa sobre orelhas, né? Brincadeira, queria saber mais!
abração!

Adrianne Ogêda disse...

Jorge, trabalhei muitos anos em uma compania de teatro de bonecos no Rio de Janeiro. Não era lá algo que posso considerar high level, mas era uma oportunidade de levar para festas de aniversário, espaços que podem ser verdadeiros hospícios, as delícias de uma história contada. Achava sempre o fim o barulho dos adultos e o tratamento que recebíamos mais das vezes. É brabo mesmo.

Jorge Miyashiro disse...

Nossa Adriana!
Eu faço aniversário quando um colega liga desesperado para substitui-lo e não fazer feio para o cliente. Eu vou, mas...
É um trabalho que as pessoas não respeitam.
O que fazer?
Perde a civilização, ganha o bárbaro.
Abração