quarta-feira, outubro 07, 2009

RAZÃO E DELÍRIO

O tal milionário que queria comprar o boneco de espetáculo, que na verdade não era o tal, propriamente, mas colegas que queriam presenteá-lo, finalmente fecharam a compra. Os colegas apesar de bem remunerados não são milionários e por isso precisaram cotizar o valor do boneco, fizeram a tradicional vaca para pagar!
Já se disse que pessoas ricas não são ricas porque gastam seu dinheiro, and so....
Eu me sinto meio prostituto, meio celebridade das artes, uma vertigem que hora enleva , hora provoca náusea. Sei lá, sei lá.

Aliás, descontei R$200,00. Não foi uma grande oportunidade???

Dinheiro, dinheiro e dinheiro...
Quem quer dinheiro?
A pergunta a se fazer é o que se fazer com dinheiro.
Fazer uma viagem ao redor do mundo, pagar as nossas dívidas e dos parentes, investir em imóveis, capitalizar e nunca mais trabalhar: isso é invenção, sonho, ou conversa fiada.

Vejam os campeões de obtenção de verbas de editais. O que se fez com o dinheiro? Depois de comprar casa, carro e roupa nova, montaram espaço próprio e compraram equipamento. O raciocínio BNH da casa própria; para não ficar disputando com os colegas a pauta dos teatros. Tudo para sair do meio hipponga, pobretão e chinelo de dedo. Agora conquistaram a independência estética, resta encontrá-la.

Razão e delírio. É pressuposto da arte mergulhar no caldo inconsciente, misterioso ou terrorífero. Na Grécia Clássica havia uma maratona a cada sessão de teatro. Eram dois dramas entrecortados por uma comédia curta. Curta em relação aos dramas que levavam cinco horas cada um.
Hoje o teatro deve ser leve, ser comédia. Ah, já basta a tragédia de todo dia. Não é mesmo?
Havia uma dançarina tradicional japonesa, cujo movimento era atravessar uma passarela. Ano após ano sua performance principal era fazer essa travessia. Perguntaram como ela se sentia fazendo todos os dias aquela mesma ação. Respondeu que jamais fazia a mesma ação, que num dia ela fixava um ponto no fim da passarela a dói metros do chão, noutro a dez centímetros e assim por diante.
O que leva ou levou alguém a um teatro para ver uma mulher atravessar uma passarela para verificar essa variação de foco? O que isso tras para a alma desse assistente?

E aqui no berço da civilização Guarany, o que vale é ter sangue azul, de preferência um Boubon & Bragança (não confundir com o me dos francos) sem mencionar os Cardosos, Magalhães etc. Um lugar em que ficam pasmos com o Sul onde os loiros são pobres (gente dos Sudestes...). Pois aqui deram de achar que para ser artista tem que ter diploma. Aliás, em São Paulo, desde que pisei no solo sagrado do tablado, exige-se o canudo para poder trabalhar (é ou não uma monarquia?)! Nos editais da FCC tem um espaço para declinar sua “titulação acadêmica”, sua publicações (tenho um tijolinho publicado no Jornal da Cidade, de Bauru, mas escrevia cartas -muitas- para a coluna do leitor do Diário de Bauru). Como se para escrever uma boa peça precisasse esquentar a bunda na carteira, prestando atenção nos sábios conteúdos do professor. Como se para ter uma boa presença no palco fosse necessário um boletim de notas acima de 6.0, ou que tal notas acima de 8.5 , será exigido, por favor.
Vão pensar que sou contra a produção acadêmica.
Eu sou graduado e no tempo da graduação queria ser doutor. Tentei Pós em Multimeios na Unicamp. Fiz estágio no LUME, conversei com o Burnier... Mas depois de tudo aquilo, vi que ou dedicava a relacionar meu pensamento com os decanos e prosseguir a carreira acadêmica, ou começava a olhar para dentro de mim.
O que eu tinha a dizer?

Ontem fui lá na Vila Nova Barigui, apresentar o Luvazine numa creche. Chuva, barro e muita pobreza. Sinceramente, uma delícia!
Todos estão ali para me assistir, ninguém está reclamando de perder o Brazil Next Top Model.
Mas deu um problema na trilha sonora e a execução ficou ralentada. Escutava as crianças se mexendo nas cadeirinhas, mas ouvia as risadas de algumas professoras. A sorte é que após cinco anos que produzi essa peça resolvi o final. O resultado é que ouvi uma professorinha, aquele tipo de tia bem chucra, revelar para a coordenadora pedagógica:
...esse teatro é bão! Tem umas coisas que vem aqui que eu num intendo nada. Mas esse eu intendi tudo!

“Menas”, “nos sumos”, “eu di”, sou da facção que defende que essa linguagem não é erro, mas discordância. As pessoas que se expressam assim tem sido meu público. E por isso os funcionários das instituições acadêmicas, que consideram a linguagem popular um erro a ser corrigido extirpado e higienizado (já que são positivistas e portanto monarquistas) não gostam dos meus espetáculos.
Na minha opinião, sendo eu um ex-candidato à academia e atualmente, artista. Pela minha trajetória pessoal, acho racionalmente impossível um doutor produzir arte que toque o cerne das pessoas.

Não que eu consiga realizar esse feito. Afinal meu tempo é dividido entre cuidar do nenê, fazer faxina, visitar o supermercado, açougue e a quitanda e montar os projetos para os editais. Dedicação para compreender os mecanismos da sensibilidade humana: 0 horas.

É por isso que sinto falta das mesas de bar e da saúde que tinha para enfrentá-las. Ali havia uma piracema diária e nenhum fiscal para dizer quanto podia ser pescado. Alegria, alegria.

Estão gostando do passeio?
Vamos voltar agora.


O que fazer com o dinheiro sendo você um artista?
Presumindo que na arte, a condição para obtenção do lucro é árdua.
Na verdade, uma opção errada, ou não-lucrativa, como vimos, ao constatar o investimento em mini-centros culturais particulares. Isso é queimar dinheiro, é ou não é?

Então aqui a minha declaração:
Não vou me matar para disputar todos os editais que aparecerem. Vou tentar bater forte até conseguir comprar minha casa. Pronto! Com a casa quitada ou financiada (com juros na tabela Sacre), vou arrumar a oficina e praticar o ideal ( não restam muitos, né?) renascentista de compreender a mecânica do Universo pelo racionalismo Aristotélico (ta, não gosto do Fritjof, não entendo Física Quântica, e não me encham o saco). Assim, hoje é esculpir madeira e fazer a madeira esculpida vibrar como pele e músculo.
Só isso.

Para que dinheiro?
Para que matar-se para ganhar tanto edital?

Se não entrar mais nada, quando os doutores monopolizarem , finalmente, todos os canais pagos de produção, aí eu saio para matar.

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