sábado, agosto 15, 2009

CARTA AOS PRESTADORES DE SERVIÇO EM TEATRO

Conversando com meu velho amigo Del Giorno da Cia. de Artifícios Teatrais, concluimos que em tempos de "recuperação"da crise, o que sempre faltou e falta é um bom prestador de serviço. Desde um calafetador até um contra-regra, o cara está ali para pegar o salário e que se dane tudo mais.

Lembrei de um pessoal que foi contratado para iluminar um espetáculo em um teatro que tinha as dimensões de um banheiro. Havia um grande patrocinador na parada, e a rapaziada queria mostrar servicó. No caso, mostrar serviço era encher o espacó de equipamento. Só que não havia, espaço, para comportar tudo aquilo. Eles puseram um canhão para iluminar uma máscara por dois minutos. O trambolho bloqueava a entrada da platéia... Para aqueles pensadores do chiaro-scuro não interessava, como bem notou Del Giorno, queimar as retinas dos atores.

Tive problemas com músico.
Um músico é um cara que despende a vida em cursos e aulas em seguida tentar produzir alguma coisa vendável para uma gravadora. Isso, e um concursando, é a mesma coisa. O fato é que o músico é estanque ele não divide a criação com outros artistas, formalmente, embora receba e necessite de influências externas. Então, nós, incompletos artistas, contratamos essas pessoas para suprir nossa deficiência e produzir uma trilha sonora.
Trabalhei com um músico que jamais assistiu sua trilha sonora inserida no contexto de um espetáculo. No entanto demonstrava avidez em receber o pagamento. Na encomenda da trilha, evidentemente, era uma aposta, uma adivinhação da parte dele em traduzir por cifras musicais os meus anseios. Sabe o que lançava no mais profundo Hades da depressão? Pedir que tirasse as percussões, os sopros e tudo mais que encorpasse a trilha sonora. Ele não fazia idéia do que era algo "roubado a cena". Um músico se prepara para queimar uma bolacha, gravar um disco. Por isso precisa construir uma massa sonora suficiente para satisfazer o ouvinte. É sintomático que esse meu ex-colaborador, que jamais testemunhou um contexto de trilha e cena, jamais poderia apreender que uma trilha encorpada, em determinados casos, satura a cena. Compete com a cena.

Por isso, se por alguma razão o senhor, músico, cenógrafo, iluminador, designer, pretende obter algum cobre nesse território que é o teatro, deve primeiro entender a dinâmica do conjunto cênico, para então dosar sua intervenção e tornar a obra como um todo, rica.

O resto é som e fúria...

Um comentário:

Sergio disse...

Cara, o pobrema cumpádi, é sermos preocupados demais com a qualidade. A regra é receber e não entregar. Se entregar, entregar errado. E se receber reclamação, sumir sem deixar recado.

Não é só Curitiba, claro, o país inteiro é indigente assim, mas como vivemos aqui, temos que falar daqui. E a prestação de serviço aqui é perto da nulidade.

O lema local deveria ser aquele do Diógenes, o grande personagem do Mutarelli: "Servimos mais ou menos para servir de vez em quando."