segunda-feira, abril 13, 2009




Olha a falta que um lugar para trabalhar faz.
Não dá para ver, mas o quarto está tomado de micro-bolinhas de poliuretano, ou, fiapos de isopor. Isso entra nos olhos, nas fossas nasais, na boca. Felizmente não causa mais irritação, o organismo já assimilou e reconhece como elemento... ah, sei lá!

Tudo para dar uma mudada no cenário da peça. Um telhadinho.
Vão pensar, o que um telhadinho vai mudar? Pois se eu tivesse um telhadinho para trabalhar, poderia fazer muito mais coisas.
E replicarão: mas o verdadeiro talento manifesta, independente das condições materiais. Concordo meio-a-meio.
Ví uma cena em vídeo com o Yueng Faï, irmão do falecido patriarca da família Feng, o Yang Feng; ele carregava todo o seus bonecos e props numa valise de couro, uma mala com capacidade para 10 ou 13kilos. Nem um amarrado de tubos de alumínio, pvc ou varas de madeira. Só a mala! O sonho do titeriteiro itinerante. Embora só precisando dessa mala, seus espetáculos tem a dimensão física de uma mala. Correm o risco de enfadar. O cara tem que ficar com pé na estrada o tempo todo, devido a sede de novidades do público. Principalmente se esse público for de uma cidade grande ou média.
Uma vez, já comentei isso, ví uma sala de manutenção dos bonecos de bunraku, de Osaka no Japão. Como lá metro quadrado é calculado por kilo em ouro, os caras estão numa boa se tiver uma edícula para trabalhar, e era o que tinham.

Aqui, o herói da peça, esperando o acabamento na pintura, por Luciana Aliberti Miyashiro.

AS DIVINDADES E A CRISE

Cada um tem sua maneira de lidar com o transcedental.
Eu costumava ir a algum lugar de força natural, tipo, cachoeira, rio, lago, fazia um pedido aos deuses do lugar e jogava uma moeda de menor valor que tivesse na carteira. Outra coisa que fazia, era ir a um cruzeiro em algum cemitério, acendia uma vela e pedia para o espírito da minha mãe defender - nos contra as forças que atacavam o membro da família. Tipo, você luta por aí que nós lutamos por aqui. Evitando que espíritos do mal viessem atormentar o mundo da materialidade. Minha irmã espírita deu-me uma bronca por demandar com nossa mãe, e parei, por via das dúvidas. Disse que eu estava atrasando seu crescimento espiritual. Mas meu raciocínio não é impecável?

O fato é que nunca ví as igrejas tão cheias como agora.
Gente extremamente materialista. Buscam auxílio espiritual para aumentar o patrimônio!
Que até onde vi, jamais tiveram o menor interesse pelo próximo.
Jamais fizeram uma ação a favor do mundo.
Aliás, agradecem a tragédia que acontece em outro lugar do planeta e não na sua casa.
Estas são pessoas que estão ao lado.
Pergunte sobre elas e vão reclamar que o dinheiro está difícil.
Conversam contigo porque souberam ser importante estender a rede de conexões.
Um vizinho chega ao cúmulo de "aproveitando a oportunidade" para vender um plano de financiamento de imóvel do Unibanco com juros menores que a Caixa Econômica, e ele demonstra. Embora, os juros da Caixa sejam subsidiados e os do Unibanco visem o lucro, ele demonstra. Até hoje não consegui entender o que ele diz, por que ele fala para dentro, e eu sou meio surdo... fico olhando para ele, concordando... tomando minha cerveja amarga.
Tente convidá-lo para um programa voluntário.
Prefere ir para a igreja, clamar por ajudar dos céu.
É um pagamento de promessa.
Prometeu frequentar os cultos semanais, caso obtivesse alguma venda.
Agora está pagando.
A maioria dos meus vizinnhos é católica. Mesmo os que mudaram daqui, posso reencontrá-los na missa dominical.
Mas por qual interesse?
Jamais foram assistir uma peça minha.
Católicos, por natureza, não assistem teatro.
Nem dizendo que é de graça.
Somente os autos da paixão e talvez, de natal. E olhe lá...

Daí a conversa rola em torno de empresas, economia e política. Na verdade, trata-se de uma revisão das leituras de jornal. As opiniões são repetições de editoriais. Resta o futebol. Mas como o futebol é como religião, evita-se esse assunto, caso não haja muita familiaridade para troça.

A muito tempo não faço uma bela troca de figurinhas. Não ouço uma defesa apaixonada por este ou aquele artista, de como ele está mudando a cena da música , do teatro e da literatura. Mesmo porque os academiquinhos castraram todo e qualquer debate com os seus Arheims, Teixeira Coelhos, Florestan Fernandes, Câmara Cascudos, Derridas, Sartres, Foucaults e outros carecas que, graças ao C.S.Peirce, esquecí.

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