quinta-feira, abril 30, 2009

MENOS VALE UMA POMBA NA MÃO QUE UMA ROLA VOANDO



Falava do penteado sobre a cabeça dos bonecos, que empreguei dois anos para aprender fazê-los etc.
Esse penteado não é somente um rabo-de-cavalo, mas um nó sobre a cauda em que se forma um coque chamado gyngko, porque fica na forma da folha da gyngko, aquela usada para fazer um fitoterápico, remédio para depressão. Além disso a testa é raspada e a ponta da cauda é oleada onde permanece sobre esta área raspada. Ainda hoje esse penteado, com devidas variações e estilos é usada pelos sumo-toris, é chamado chonmage, ou na fonética aportuguesada tchon-maguê.

SHISHI, O COMILÃO tem como cenário o Japão do século XVI, num pequeno território de um donatário rural. Shishi é um leão descontrolado, orgulhoso e arrogante, ele invade a mansão deste donatário e inicia a destruição de suas posses e propriedade. É o declínio do poder aniquilado por um poder maior.
Em SHISHI, O COMILÃO, claro que quero tocar na veia aberta pela crise mundial, onde a voracidade pelo dinheiro com que fomos tomados tornou-se a obsessão evidente durante o fim e início do milênio. A promessa de maior distribuição da riqueza tornou-se uma corrida inescrupulosa em que a arte, ideologia e a vocação religiosa foram incapazes de frear.

Hoje fui até a um restô macrobiótico, o Clorofila na Saldanha Marinho, no meio da tarde. A Estelita, uma sensei platense que cozinha em apenas alguns dias. Ela conhece os segredos do cozimento exato do arroz integral. Nesses tempos de chefs formados em cursos caríssimos, em que o ingrediente já é o prato, o arroz da Estelita é um estado de Arte. Estava sendo entrevistada por isso saí para não atrapalhar, mas já podia ouvir a pergunta da repórter: "é fácil a dona de casa fazer uma comida saudável, macrobiótica..." Não cara repórter de pauta planejada, que pergunta respondendo, o arroz macrobiótico não é fácil de fazer, na verdade é arriscado, porque é preciso por um peso sobre a válvula de pressão da panela. Há um risco iminente de explosão a cada cozimento. A cozinha japonesa é toda assim, como o preparo do fugu, aquele peixe inflável que me foge o nome.

Para lembrar, nos anos 80 o Japão fazia um carro, um som, uma tv que deveria ser um objeto de culto e adoração. Vieram os chineses vendendo um produto barato, que dava para usar mais de uma vez, quebrava fácil, mas poderia ser comprado novamente. Esse pensamento de R$1,99 repercute na arte. Começa com o "artista" buscando seus adereços no R$1,99, sendo considerado pelo burocrata da cultura "um estado de arte ideal", e não está equivocado pois é o reflexo do pensamento atual.

Despender meses em detrimento de minutos para construir um boneco é antiquado, até o giro da história mudar tudo novamente.

A Arte é meu ethos. Eu sou radical, porque busco o essencial na raiz. Eu sou ortodoxo, porque a Arte é minha coluna, o meu eixo. Não sou facista porque não almejo a disseminação. Mas atentem para a exigência de diploma para se fazer arte. A faculdade não obteve êxito em gerar talentos, agora quer impor o conceito do que é talentoso e criativo. A faculdade ama o poder. Ama o embate político. Porque não amaria o controle de nossas mentes? Cuidado com os doutores.

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