sábado, abril 25, 2009

DIÁRIO DE UM ATOR EM TESTE, OU "ARE YOU MEANING THAT I'M IN?"

Jamais a espera de passar por um teste é feita com naturalidade.

Assim como jamais a espera de um resultado de um edital ou do teste, tem a presença da calma.

Após um sono conturbado despertei 5h. da manhã. Tomei um Cometa para São Paulo; para um teste em um musical. Sabia apenas que teria com bonecos. Não levei currículo nem foto, nem preparei uma cena. Baixei tudo num pen drive e me pus a caminho.
Estava marcado para 17:45h. Cheguei no shopping 13h. O teatro ficava neste shopping, uma bela sala que eu não conhecia. Vi um pouco do movimento nas dependências do teatro. Nada corrido ou disputado. Nada de pais afoitos exigindo disciplina dos filhos candidatos a estrelas.

Para passar o tempo, fui na fotótica ampliar uma foto de corpo inteiro que tirei na véspera. Rodei o shopping inteiro procurando uma lan; talvez por distração ou falta de vontade, não encontrei algo parecido com uma lan. E fui sem curriculo.
Assisti o Dragonball, chupei um sorvete de doce de leite com coco e entrei no teatro duas horas antes do meu horário.
Uma produtora carioca coordenava o teste. Uma loirinha com sotaque fluminense mandou-me preencher alguns papéis. Havia Meia dúzia de uma moçada no saguão. Meninos e meninas veteranos de testes como aqueles.
Vi que se conheciam. Tentavam se reconhecer. Lembravam-se uns aos outros dos detalhes de testes anteriores em que ambos estiveram presentes, mas principalmente, dos trabalhos que participaram. Esse meninos e meninas atuam em shows da broadway que agora são montados mensalmente na capital paulista e dos cariocas. Atendem a fome pelo produto importado em seguida partem para tourné pelo interior, outras capitais e quiçá Buenos Aires, Caracas e caracos.
Conheci um menino, maior de 18, primo distante de uma globalzinha em ascenção, com uma participação em sua primeira novela, já veterano de musicais como Hi Fi, Barney e Cocorico, orgulhoso de sua formação: Macunaíma e Wolf Maia. natural de Barra Bonita-SP, falava com outro garoto algo que tentarei reproduzir:
- Fiz o via funchal.
- Eu também fiz o via funchal.
- Fiz positivo.
- Eu também fiz o positivo.

Que código era aquele, meu deus! Tirei as maiúsculas para que os amigos tenham a mesma perplexidade excludente que passei. Falavam dos teatros em que atuaram e antes que eu percebesse que positivo não era um exame sanguíneo, mas sim a valorosa sala da universidade Positivo daqui de Curitiba. Assim está comprovado que Curitiba, agora, faz parte do circuito nacional de shows internacionais (!?).
Esses meninos são muito ciosos do material do seu trabalho. Assistem os musicais com minúcia e seriedade de pesquisadores. Conhecem os elementos técnicos e subjetivos com autoridade de mestres: - "Impressionante, como você cresce no palco!" - O que quero dizer é que enquanto uma falange de adolescentes gasta de R$80 a R$100 por um ingresso para se descabelar histericamente diante de uma imitação de uma simulação, cuja interpretação restringe-se a mímicas, já que os meninos não tem o poder vocal das crianças estadunidenses, onde apelam para playbacks; os colegas vão a esse shows para analisar os concorrentes, para avaliar o que lhes faltam, talvez seja isso.

- O Luciano Huck esteve aqui! Ele é muito gente fina, cumprimenta todo muuundooo!!!
Jamais imaginei que o Luciano Huck fosse gente fina. Com qual finalidade um apresentador de tv sai cumprimentando todo mundo feito um político em campanha? Só se estiver em campanha. Na verdade estou sendo um velho, porque os meninos adoraram o Luciano tratando-os como gente. Porque nessa profissão, a massa gentia é tratada como animal de carga. Bom, e eu perdi chance de ser cumprimentado pelo Lu...!

A loira carioca chamou eu e mais três meninos para a fila do teste, fomos para o lobby. Uma menina de malha de ginástica fazia aquecimento. Ela ainda aguardava sua vez de ser testada. A menina era uma boneca, linda, pequena, morena e ágil. Seu nome, talvez artístico tinha o sobrenome Cavalo!
Cada um que saia relatava o teste, o que, em princípio seria para ajudar, causava pânico.
Para mim aquilo estava sendo diversão. Embora os motivos de estar ali eram menos divertidos. Trabalho que se rolar rolou, senão...
Estou finalmente numa idade em que pratico um cuidadoso e proposital desleixo. Não fico abatido com notas baixas, embora ainda esteja obtendo notas baixíssimas, inacreditavelmente.
Minha vez chegou, entrei pisando duro.
A sala com poltronas novas, palco de madeira resinada, o abafamento de uma sala com acústica perfeita.
quatro mulheres, mesas espalhadas, notebooks ligados, um espelho, uma filmadora e o diretor inglês, do espetáculo que seria produzido. Uma das mulheres era tradutora e perguntou se eu era fluente na língua. Virei para o diretor e disse que era "professional puppeteer". E com isso fui. O englishman deslachou na fala, enquanto eu pegava uma ou duas palavras e ia embora. Fazia cara neutra, respondia com alguma ironia e parecemos todos satisfeitos.
qual o problema da língua estrangeira? É o tal pensar na língua. Você não pode querer tentar falar pensando o estrangeiro em língua nativa. Não pode responder "beleza, aí" com "beauty, there on", e tem frases que traduzidas literalmente até tem o mesmo sentido, mas que não pegam bem, ficam pedantes, fora de contexto, ou de moda, ou foram contaminadas por algum episódio ocorrido na vida de uma pessoas famosa, algo assim. Por isso tento ficar calado, ou reproduzir pequenas frases, com sentido direto. antes, é claro, há muito tempo a trás, queria descrever o que era ser brasileiro para qualquer gringo que aparecia, só dava bosta.
Perguntou se um trouxera um boneco. Não trouxera. Perguntou se tinha currículo...
Mandou-me improvisar no palco, já que não preparara uma cena. "Mas assim sem nada?" a tradutora mostrou uma mesa com brinquedos de plástico, baldinho, molde e pazinhas. Peguei dois moldinhos de areia e improvisei um diálogo, fazendo os moldes de rosto dos personagens. Nada brilhante, nada impressionante, apenas para dar uma visto meu método.
Então mostrou-me um boneco do espetáculo, um personagem de uma série de tv educativa, vou declinar para que não rastreiem esse blog, sabe como é: segurança da informação...
Era uma silhueta, de borracha, com forro. Caprichada mas limitada mesmo.
Fiz algumas manobras sob orientação do diretor e da tradutora. Foi bem reprodutivo, repetitivo. Eles mandavam e eu fazia, falei muito ok, ok, ok...
Algumas manobras arrancaram uns ahs do diretor. No fim ele perguntou se eu teria problema de atuar de joelhos, respondi que era japonês; em seguida respondi, sério, que os joelhos estavam bem, já o resto...
Mostrei para ele o desempenho dos meus joelhos que fizeram uns clics malignos e quando saí do palco, percebi que estava mancando. Afinal, desleixado que estava fiquei assistindo o deleitoso aquecimento da Cavalo, e o entra e sai dos garotinhos, que como soe nesses ambientes, são efeminados, nada fleumáticos, correm para cima e para baixo. Eu, no caqui dos meus fios brancos preferi ficar sentado nos pufes das poltronas do lobby. Aliás estava sentado nas últimas 14 horas. O joelho fez o que pode para mostrar uma boa imagem ao diretor. E disse algo mais sobre escolher a parceira do meu papel, descreveu algumas técnicas que iriam ser usadas, sua fala pareceu que eu já estava escolhido. Mas como estou calejado pelas decepções decidi apenas calar-me e aguardar o curso do destino.
Além disso não ocorreu a frase: -"Are You meaning that I'm in?" Pensei em "Am I contracted?", suspeitando do verbo. Preferi o sábio silêncio .
Agora é, mais uma vez, aguardar.

3 comentários:

Sergio disse...

Muito bom, muito bom. Legal poder acompanhar a história, mesmo já tendo ouvido naquele domingão inspirado do Coringão. Aliás, as histórias são muito legais.

Jorge Miyashiro disse...

É irmão!
é um prazer de ouvir histórias é ouvir, ler, mesmo que repetidas, né!

Sergio disse...

Legal também a chamada sobre a verdadeira autoria dos bonecos músicos. Presta atenção, galera!