segunda-feira, março 09, 2009

PODEMOS TOCAR OS DEUSES




Reencontrei um velho amigo de teatro, em boas condições, digamos, socialmente invejáveis. Ele vem da estirpe dos contestadores, quando em sua juventude desafiavam Deus e o mundo, literalmente. O mundo era desafiado na sexualidade, contestação política e dos "costumes burgueses". Deus era desafiado também na sexualidade, no uso desenfreado do fumo e alcool, já que os entorpecentes era divertimento burgues. E agora esse pessoal acomodou-se, e igual a letra, repetindo os erros de nossos pais.
Erro no sentido de que não conseguiram mudar o projeto de sociedade em que viveram. A tecnologia avançou, mas o desconforto, a insatisfação e finalmente, a miséria ainda desgraçam nossa vida. E quando deparamos com a força desse projeto repetimos as fórmulas que funcionam, as fórmulas, rituais, maneiras, tabefes, esculachos, desmandos dos antepassados. E nada muda.
Esse meu amigo, com um poder incomensurável parou de fumar àlguns anos atrás. Há dois anos parou de beber álcool. Exercita com caminhadas na rua ou na esteira, faz academia, natação. Na juventude fazia troça dos burgueses que preservavam a saúde.
Porem...
Ele é um homem de teatro.
Não é pessoa comum.
O ator toca Deus e mergulha nos deuses.
Na duração do espetáculo ele move a gênese e o apocalipse. 30minutos, 50 minutos, duas horas... e nada mais. Depois disso é um miserável pedante e inconformado.
Isso é um ator.
Ele sabe que a humanidade é uma comédia. Somos feitos para a diversão dos deuses. Eles, ao final dos eons, vão desaparecer. E se divertem ao assistir a luta humana pela sobreviência, esbanjando arrogância para deixar uma "obra".
Nada permanece. Tudo não passa de um palco vazio a ser preenchido e esvaziado.
E o ator, que constrói e destrói um mundo em 30, 50 minutos ou duas horas, ri dos deuses. Contesta, desafia, revolta-se...
Até que por fim, com a casa quitada, vai fazer esteira, parar de beber e fumar.

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