sexta-feira, fevereiro 06, 2009

MEU MUNDO E MINHAS MOTIVAÇÕES



E fácil dizer que a vida de alguém é muito legal. É fácil invejar a vida alheia e inveja é um esporte que pratiquei desde cedo.

Os vizinhos daqui do prédio perguntam "mas que raio de trabalho é esse que o cara fica em casa o dia inteiro"? Inveja?
Tem uma que ficou vindo durante umas duas ou três semanas no fim do ano passado. Viu tudo que tinha de ver e agora mal nos cumprimenta. Geminiana, claro! Uma outra que já não está mais aqui, queria saber onde eu apresentava. Nenhum vizinho jamais foi ver uma apresentação minha.
Por isso conscientes da nossa imagem um tanto incomum, ficamos um pouco reclusos, sem misturar com a pequena burguesia. Em parte por isso, outra razão é que temos de produzir e ficar concentrados nos trabalhos. Somos estranhos, mesmo. Escolhemos ser.
Mas falava da inveja da vida alheia. De que viver o alheio dá mais prazer.
Todos os nosso bonecos, adereços e cenários são feitos aqui, num apartamento de 170m2. Pode parecer grande, mas é moradia e estúdio. Além disso tem o nene, o que faz a casa ter áreas intocadas pelo trabalho.
Assim só posso usar a área de serviço e um quarto-depósito.
Mesmo assim, existe o componente da limpeza. Tenho de planejar bem desde a hora até a duração do uso desses espaços. E há a hora de cuidar do Felipe, há a hora em que ele dorme, e há a hora em que todos estão dormindo. E isso significa que não posso ligar a furadeira, serrar e martelar a qualquer hora do dia e da noite. E por isso jamais sou motivado para trabalhar. Não sou levado por inspiração, mas por regras de serviço.
Certa vez fiquei costurando até 4h. os figurinos do Gato por Lebre, foi ótimo. Mas no dia seguinte a vizinha veio reclamar do barulho.
Poderia alugar uma sala. Grande sonho. Talvez faça isso um dia. Por enquanto estou me virando com a economia.

O que consola, é que tudo isso terá um fim.
Pode parecer meio deprê. Mas é a real. Tudo acaba debaixo da terra.
Assim, eu me esforço, mas não até o ponto de me matar, entende?
Fico maneiro, na maciota, sem pressão.
Deixa que me matem. Não vou contribuir procurando as balas no meio do tiroteio.

Hoje posso estar aquecido pela inspiração de uma idéia maravilhosa de um espetáculo. Amanhã por alguma razão que não desejo invocar, tudo isso perderá o sentido e tranquilamente porei fogo, o mais serenamente que for capaz.

Na passagem do ano ouvi uma história maravilhosa, um precedente na família.
Na minha família ouvi poucas histórias inspiradoras, poucos atos de rebeldia. Rupturas. Os relatos eram sempre de bom comportamento, atitudes corretas, não direi exemplares porque para mim exemplar não é o que chamam de bom exemplo.
Enfim. Uma tia contou como sua irmã havia morrido. Uma vez eu vi foto de uma menina, dessa irmã-tia, ninguém contou muito detalhe e essa era a atitude normal. Para as crianças, não havia muita explicação, mas havia muita ordem e mando; o que fazia da desobediência um colorido natural a esse modo de vida frustrante.
Eram pequenas as tias, muitas irmãs, minha mãe, e os dois irmãos. Moravam em Marília-SP, num sítio. E a irmã-tia começou com uma dor de cabeça que evoluiu para algo pior. Meu avô lutou muito para buscar a cura da filha. Levou-a até São Paulo para uma cirurgia no cérebro. Mas voltou com a filha apenas para vê-la morrer em casa.
Um fenômeno comum na zona rural, é o surgimento de floradas acidentais. De alguma maneira, flores aparecem, sem semeadura planejada; e disseminam, cobrindo grandes extensões da propriedade. É agradável, maravilhoso de se ver. E quando a tia morreu, abriram-se crisântemos brancos por toda a propriedade. Lindos crisântemos. É uma flor que representa a pureza e a casa Imperial do Japão. Mas para meu avô aquilo foi aviltante. Ele tomou a enxada e derrubou todos os crisântemos e jamais deixou alguma flor crescer no sítio, enquanto esteve ali.

Nas minhas famílias (pai/mãe) não há personalidades históricas, militares, políticas ou artísticas. Durante muito tempo pesquisei se havia algum samurai ou lutador de karatê. Um tio bêbado dizia que havia um arqueiro muito famoso, mas talvez fosse de outra família, um nome semelhante tipo João da Silva, famoso arqueiro samurai, manja?
Mas no anonimato é que ocorrem as mais fascinantes histórias. São aquelas que as famílias se envengonham de expor que mais inspiram a ir em frente. É a experiência dolorosa, o erro, o deslize, o equívoco que aponta para a humanidade.
Tais como a história desse mesmo avô matador de crisântemos que sequestrou minha avó, porque os irmãos não admitiam o casamento deles. Porque meu avô era um pé rapado. E porque apesar de, e mesmo assim, grávida, a família da avó não iria ceder. Então... então não sei de mais nada, porque não me contaram as lacunas em branco.

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