quinta-feira, fevereiro 19, 2009

CANTE UMA CANÇÃO PRA GENTE...




Uma fonoaudióloga certa vez falou que pela voz, a alma se expressa. Pensava que fossem os olhos, os espelhos da alma. Então tá: pelos olhos nós vemos seus traços e pela voz ouvimos seus reclamos.

A voz não é o instrumento do ator, é tudo para o ator. Pela voz irradia-se a expressão que reverbera nos músculos, ossos e nervos e acalora, por fim, olhos e pele do intérprete.
Diria-se que o ator mudo é um mímico. Em sua mudez, sonhamos no percurso das ações. Estou para dizer que a mímica é uma narrativa fria, mas não direi. Pensarei mais sobre isso.

A voz apóia-se no texto. Sobre os significantes da palavra, na poesia, no narrar das conjugações. E para que não fique monocórdio é necessário que o antônimo seja cultivado. Por essa razão o ator deve cantar o texto. Nas muitas melodias que a voz é capaz de interpretar.

Numa entrevista do Hermeto Paschoal, em 90, explicou o que era musicalidade da voz. Todos os segredos do universo estão ao nosso redor, no entanto, não conseguimos enxergar. Pode-se viver muito bem sem jamais enxergar qualquer segredo do universo. Mas há o tipo insatisfeito, como eu, que não resiste a uma fofoca e muito menos um “segredo do universo” dando sopa na cara, esperando revelar-se. Por essa razão, não faz idéia da felicidade quando percebi a complexidade e, ao mesmo tempo, a evidente simplicidade do segredo paschoalino.
Todos devem se lembrar (ironia, claro!)de um LP experimental do músico, em que ele arranjou a fala do Fernando Collor de Melo e do Osmar Santos. Essas personalidades cultivam uma musicalidade única que os indentifica no imaginário público, e os adequa às exigências do ofício de cada um. Todo “famoso”, se quiser continuar “famoso” tem que cantar, e cantar uma canção só sua. Foi essa surpresa ao ouvir o Collor e o Osmar cantando, com o acompanhamento da banda do Hermeto. Claro que não é aquela canção que conhecemos como canção; mas tornou-se canção com a base ritmica e a harmonia sincopada do Hermeto.
Desde então, estou aplicado a uma constante observação da música de cada pessoa. Gosto muito de tentar imitar a maneira de como as pessoas falam. Pode parecer que estou tirando sarro. E quem me ouve pensa que é assim. Mas não é esse o objetivo.

Acredito que seja esse comportamento que reprime a musicalidade vocal. Não é da boa educação observar as discrepâncias da musicalidade “normal”, muito menos imitá-las. Existe esse padrão uniforme de como falar em público, de como comunicar-se com as pessoas e de como não falar com as pessoas. A gagueira, o cesseio, o vozeirão, o estreitamento das cordas (fala fina) são consideradas patologias. O novo e o diferente sempre provocará fraturas no concenso.
O resultado é o tom monocórdio, socialmente bem comportado, plano e tedioso das falas de todos os dias.

Na atuação isso é a morte! É o fim da peça. É o detalhe desastroso de toda interpretação; e 100% dos poucos espetáculos de grupos novos que tenho assistido tem o vício ignóbil de interpretar com a música de uma fala. Não há variação. Não há acompanhamento do ritmo, não há mudança no tom portanto não há melodia, e enfim: não há interpretação.
Na realidade, o ator novo (e alguns já calejados, sim) tem duas músicas: a da fala diária em volume alto, destinada às comédias ou cenas informais; e o falso drama, “cantado”, semelhante aos volteios dodecafônicos ou um experimento de Miles Davies e isso não é um elogio.

Essas músicas estão lá. Todos os dias da temporada, todos os anos, até quando são contratados nas novelas globais.
Aquelas musiquinhas tediosas...

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