sábado, janeiro 24, 2009

MENTIR OU A ARTE DE FAZER VERDADE?

Você está dentro de um ônibus lotado.
Solitário em seus pensamentos, no meio de toda aquela gente.
Alguém, levanta a voz. Talvez alguma hostilidade. Susto.
É Apenas mais um fazendo o discurso da desgraça própria, pedindo uma ajuda.
Câncer raro, aids, qualquer doença mórbida. Mas fica bem claro que é pessoa de boa índole, está lutando para recuperar, se levantar, basta apenas uma ajudinha, alguns centavos...
Outro pensamento solitário e você constata que todos tem boa impostação. A voz alcança todos dentro do ônibus, de ponta-a-ponta.
Que técnica!
Mas então, o cara é um malandro?
A arte origina desse ludibriar, criar a ilusão, enganar.
Simular, representar é criar verdade onde ela não existe.
Um desenho de búfalo na caverna. O caçador lanceia o desenho, "matando" a representação do búfalo. E como o caçador adquiriu "experiência", sente competente para matar o búfalo real.
E alguns séculos mais tarde, um feiticeiro de feira promete mostrar um habitante das terras desconhecidas, ou um leprechaun, uma fada capturada, e abre uma caixa revelando o ser ainda vivo, que se move e olha para todos, para a platéia perplexa. Se não era realmente um ser mágico, bem poderia ser a mão introduzida por debaixo da caixa, movendo aquele títere, que desde sempre trabalhou para juntar alguns tostõe para o artista de rua.
Esse trabalhador de rua, que vive do maketing de convencer o usuário das linhas de ônibu a esvaziar seu porta-níquel, em essência, não pode ser chamado de contraventor. Nada mais faz do que qualquer agência de publicidade sempre fez, do que qualquer comércio sempre fez. A questão é que o legal é aquele que entrou em acordo com o governo, pagou a taxa do governo. O trabalhador da rua, o artista de rua, não. Só que se este publicitário informal, regularizar sua situação, não vai conseguir convencer mais ninguém, já que a sua mídia é a condição emergencial.
Essa maravilhosa arte de fazer as pessoas desvencilhar daquilo pelo que elas mais lutam, mais necessitam.
Isso é uma arte, convencer as pessoas de que existe algo mais importante que o dinheiro.
O dinheiro que vão ganhar, o salário.
O dinheiro que as faz acordar 3, 4, 5h. da manhã.
Que as faz suportar a tirania de um patrão.
conviver com pessoas que não são queridas.
Pessoas que as vêem como inimigas, alvos a serem eliminadas.
O dinheiro que vai pagar seu aluguel, a sua prestação.
Sua comida, o alimento da sua família.
Que deveria ser poupado para uma emergência.
E aquele indivíduo convence essas pessoas a doar esse precioso e suado dinheiro!
Em troca, deixam uma idéia.
Uma espécie de dízimo social: "vejam como sou bom, ajudei esse coitado".

Tinha aquela menina do Largo da Ordem que pedia para nos dar um beijo e vendia uma rosa. Rudemente, assim.

Havia outro desses artistas-publicitários da informalidade na linha do expresso Pinheirinho/ Campina do Siqueira, não me lembro se era isso. Era um tipo inchado, moreno, bochechudo, não sei se passava gel no cabelo ou se era falta de lavar. Entrava e passava alguns instantes falando com o motorista sobre algum assunto do noticiário, como que para amaciar o "dono do ônibus", daí fazia seu discurso. Com a voz alta, bem impostada (para boa impostura): pedia desculpa por molestar a solitária incubação dos usuários, falava de sua moléstia, uma enfermidade de alto custo, aids; isso o impossibilitava de trabalhar (infelizmente o mercado é assim), mas não estava pedindo esmolas, vendia uma coisa qualquer, um conjunto de canetas etc.

Pois tomava eu o ligeirinho, ontem, na Pç. 29 de Março, nas Merces.
Sou barrado por um cadeirante. Espero ele entrar, claro.
Tento ajudar, mas havia um garoto com ele. Era seu filho. O cadeirante se posiciona para estacionar a cadeira no lugar reservado, e seu filho, engraçado, comenta: -tem que ter estratégia...
O pai-cadeirante, pede para ele sair do espaço reservado. O menino encolhe as pernas. O pai então está no lugar.
Achei a cena divertida. Horas antes havia ajudado um cego a atravessar a Visconde de Guarapuava. O cego havia dito que esperava que aquele gesto não fosse trabalhoso, porque para ele era muito importante...
O cadeirante inicia um discurso: pedindo desculpa por molestar...

Era o aidético da linha Pinheirinho...!?!

Agora era paralítico e havia gravado um cd de música golpel com ajuda do irmão cadeirante do Zezé de Camargo e Luciano, que er difícil encontrar o cd tal (produto de qualidade artística incontestável) porque ele não tinha dinheiro para a divulgação (justa afirmação, dificuldade real de todo artista).
Porem, aquela brilhante configuração não funcionou. Ninguém deu nenhum tostão.

Na rua como nas produtoras é assim.
Uma brilhante idéia nem sempre faz brilhar as moedas na latinha.

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