sábado, janeiro 17, 2009

A DESPREZÍVEL

Como todo brasileiro, nesta sexta-feira, 21:30h, assisti ao último capítulo da Favorita. Tentei, novamente, consumir o produto cultural, manufaturado em território nacional. Produto brasileiro! Mas sou tomado de tal ansiedade, desejo incontido de sair correndo da frente da TV, gritando, desespero explosivo total.
Não consegui. É impossível assistir uma novela brasileira, para mim pelo menos. A Favorita tem um eixo interessante, uma idéia boa. Duas mulheres, amigas na infância, inimigas na maturidade. Ou seria , na terceira idade... Começa por aí, a escolha das atrizes. Pode ser ortodoxia, mas se são duas atrizes com 25 até 35 anos é uma coisa, de 30 a 45 quase 50 como foi, é outra coisa. De 19 a 25, a quem interessar, seria Malhação. Mas, talvez pela direção, ou incompetência técnica da intrepretação a coisa soa muito falsa. Talvez seja interferência demais, pressa demais na gravação e este é o resultado. A inverossimilhança. Não da para crer.
Uma vez me chamaram para fazer uma gravação par aum DVD, só uma ceninha. Fiquei 4 horas num barracão, repetindo, e o diretor dirigindo, querendo chegar sabe-se lá aonde. Havia uma garota, era a produtora, aquela garota contratada para trazer o café e a fita crepe. A produtora come¸ou a ditar a direçāo! "Traduzir" o diretor, e ninguém falava nada. E a produtora continuou falando, mandando, traduzindo e por fim pedi para só o diretor dirigir, ora.
Acho que no fim é isso. por aqui, todo mundo acha que é muito bom em tudo. E se num barracão a mo¸a do café pode dirigir e ninguém manda calar a boca. imagine como isso acontece na Globo.
Volta para A Favorita. Cena final. Donatela, num momento sexy na cama com seu maridão, pos- qualquer coisa que tenham feito Donatela e Zé maridão, tem um "blank", um tilt, e sua mente se transporta para o passado, quando ela e a Patrícia Pillar eram amigas e faziam os pequenos pactos da infância. Estão em algum lugar na zona rural, sentadas num gramado e cantam pela primeira vez Beijinho Doce, o início do projeto de tornar uma dupla sertaneja que tornou-se uma caçada e busca pela vingança.
Como é feita a cena?
É uma cena final.
A câmera mostra um plano geral e sem seguida, durante o diálogo, detalha os rostos das meninas. A imagem é sépia, tudo bem , somos ortodoxos. Em seguida elas canta a música, que encerra a novela, só vocal... melancolia pura. A câmera agora esta posicionada dentro de um estábulo, como se olhasse através da janela, as meninas que estão lá fora, a cena externa vai se distanciando, emoldurada pela janela, e a visão se afunda na escuridão do estábulo, deixando as meninas no passado, veja isso! Não é demais! Um primor técnico! Não fosse...
Ah, não fosse o detalhe insignificante diante da grande máquina global. A direção de atores.
O diretor de fotografia, o dono do equipamento importado, a câmera do Galvão Bueno, mandou na cena. E mandou assim: meninas fiquem ai nesse ponto. Não saiam daí, nem que a terra rache, para não estragar a cena. Fa¸am qualquer coisa. Como assim qualquer coisa? Ah, sei lá, chama do diretor de ator, o que essas meninas podem fazer? Ahn, bem, deixa eu ver, não pode correr , não pode se mexer, né? Ah, balança o braço! Segura uma na outra e balança quem nem nana nene! Boa!
E assim terminou a novela com a cena das meninas agindo que nem umas doentes, balançando os braços que nem umas... não vou insultar. Mas qual o problema do naturalismo? Essa tradição glauberiana, só lembrada no MINC. Por quê não fazer as meninas correr? Brincar de pique? Desaparecendo e reaparecendo na moldura da janela, e ficamos com a canção e o desejo de que aquelas meninas maravilhosas permaneçam um pouco mais dentro de nossas retinas.
Mas não, resta apenas um malabarismo técnico, insípido.
Parece aquele circo e o enfadonho e repetido número do trapézio. Sempre as mesmas manobras. Puta como eu ficava de saco cheio do trapézio. E era sempre o penúltimo número...
É isso aí, o país das mocinhas do café, as donas da bola, do eu mando eu faço e aconteço.

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