quarta-feira, dezembro 31, 2008

A TRAGÉDIA DO PALHAÇO


Brisalenta, foto Sérgio Del Giorno/2003


Algum repórter perguntará para o perfil básico da sua carreira, o que o inspirou a tornar-se ator. é de bom alvitre estar preparado, não antes de dar uma pausa dramática, como quem resgata uma reminiscência há muito deixada para trás.
Eu, claro, não farei isso aqui e de pronto vos digo: tinha inveja dos tipos artistas, aqueles caras atirados, tipos exóticos, tomavam conta das festas e animavam a todos. Auto considerado tímido, observava sua maneira, seu modus operandi, para mais tarde imitar, sem muito sucesso. Acho que ainda não tinha a verve, o timing.
Tempos depois, com maturidade antropológica suficiente para fazer uma observação mais ampla, percebi que apenas eu admirava incondicionalmente esses tipos "performáticos"! As pessoas se divertiam, participavam, mas depois, à socapa, comentavam com ironia e até um certo desprezo msobre "aquele tipo performático"...
Mas aí era tarde, eu já era artista. Havia feito um longo apresendizado para ser performático e descubro que nada mais eram do que uns "malas" que faziam todos rirem, mas aquele riso daquele cara que levou a torta na cara, ou que abaixaram as calças exibindo a cueca. Um palhaço no mal-sentido social.
Daí que o palhaço, aquele que foi capturado pela carreira. Tem um componente trágico. Ele é desajustado socialmente e exibe seu desajuste na sua ação, não alardeia, nem clama para sí a graça da cena; porque ninguém se orgulha de ser portador de uma deficiência. A não ser os heróis. A tragédia é a outra face da comédia, mesma estatura. Um palhaço não é o apresentador do circo. E há o tipo performático que se diz palhaço ou "clown", mas não passa de um apresentador bonitinho e engomado.

segunda-feira, dezembro 29, 2008

Benzadeus!


Olhe o deleite do padre!?! É o mesmo que nos fez mostrar o que temos de melhor!
Foto Duda Miyashiro/Botucatu, 2008


A gente marca férias no fim de ano para encontrar a família eo que encontra é aventura e emoção. Tem gente que classifica como "encheção de saco", mas convenhamos, o que é mais emocionante? Saltar numa cachoeira pendurado somente numa cordinha de nylon ou participar das festas familiares de fim-de-ano. é por isso que o Governo faz intensa campanha para festejar sem exagero!!! mas ninguém respeita o Governo e exagera, como eu.
Não contente em só festejar o natal e o reveillon, quiseram batizar o Felipe, nene de 2,5 anos. O que poderia dar errado?... Deixa eu ver... Acho que.... Aam, nada pode dar errado. toooopei, desque que: não tenha que ouvir sermão de padre por não casar no religioso. Escolha minha. Casei no civil. Não está bom? Assumi a encrenca no cartório.
Tudo bem, soube, o padre só abençoa as alianças e batiza o Felipe. O que pode dar errado?
Roteiro apertado. A gente vai até SP (assiste o Sobrevento) sai de lá, vai até Botucatu, abençoa, batiza, festeja o Natal; sai de lá e vai até Bauru encontra outra part da família e festeja o fim-de-ano e volta para Curitiba. o que pode dar errado?
Uhm, Que tal a gente fazer o Natal em Rolândia e o reveillon em Botucatu. Mas e o batismo? "Mas vcs. são f..., está tudo pronto, tudo comprado, o batismo preparado..." Mas estaremos aí para o batismo. "...tem que levar documento, falar com padre...". Tudo bem. Volta o plano original.
Em Botucatu.
Tudo certo? "Tudo".
Não vai levar documento? "Depois leva"...
Ahmmm!
Véspera do batizado, para não falar que no natal comemos frango assado comprado na hora...:
E aí, não vai falar com o padre? "Amanhã a gente fala".
Hoje é amanhã, não vai falar com o padre? Não dá, o padre não dá expediente sábado.
Falamos com ele antes da missa.
Epa! O batizado será durante a missa?!?

chega os parentes de longe, parentes de perto. Um calorão e eu com camisa de manga comprida. Felipe correndo para todo lado.
Padre chama os pais na sacristia. Vai a sogra, cadê o sogro?
Padre chama "todos" os pais na sacristia.
Chii, esse padre vai dar sermão e eu não quero ouvir sermão, faça sua melhor cara.

Padre tem vitiligo, mão macia de quem nunca pegou pesado. Você é o pai? Fixa o olho em mim, sustento e digo: sou! Quem é a mãe? Os padrinhos... é o que estou falando para ela. Não vou casar vocês dois. Não posso casar.
choque!
Não estou nem falando de dinheiro (a igreja não toca em dinheiro),nada. Mas tem que fazer a coisa direito, o processo, só em 2009.
Pensando nos parentes, todos na igreja...
Mas e o batizado?
Sim o batizado pode (ufa, nem foi tão emocionante assim). Mas o casamento não, e não posso abençoar as alianças porque seria casamento e casamento não é assim. Casamento é coisa séria. Nem em 50 anos vocês vão saber o que é casamento (lição de humildade!).
Hora do sermão!
...e vocês são amasiados (!?), não podem ser padrinhos de batizado... sai.

Que tal um pouco de emoção? Pular sobre o padre Michael Jackson e estrangulá-lo com a batina? pense nos parentes, pense nos parentes...
Voltamos com o melhor sorriso e explicamos a situação. Sem casamento e um obscuro batizado durante a missa. Sentados no meio da audiência, como ele fará para jogar a água da pia batismal? "Liga o sprinkler" sugeriu minha irmã...
Começa a missa, padre entra em cortejo pela porta principal, glória!
Padre: irmãos! Devemos orar, neste fim-de-ano... (silêncio)...(longo silêncio)... estou quieto aqui para dar tempo para vocês fazerem a reflexão (ah, bom, pensei que deu tilt no padre).
"Pais e padrinhos sentados aqui na minha frente". Esse padre está pedindo...
Reza a missa.
O bom da missa é que se tem tempo suficiente para planejar todos os lances de um ataque ao padre. Se ele falar assim, eu faço isso. Se ele falar assado, faço aquilo. Se ele der um croque no Felipe que está subindo no altar, faço o que nem sei o que faria!
E agora vamos batizar o Felipe. Mas primeiro vamos perguntar se os pais querem o batismo, quer ou não quer? Puta merda, o que um porra como tu acha? (traduzindo: queremos!)
Então vamos batizá-lo com o óleo bento. E apresentá-lo a comunidade: palmas para o Felipe! Oremos para o Felipe!
Em resumo um carinha de sorte esse menino. Os pais é que se lascam , matam um ou dois lobos por dia e um urso por semana. Sem falar dos piolhos diários. O menino continua lindo. Foi o batizado mais doido que vi na minha vida. Nem aqueles batizados evangélicos de afogar o cara no rio, são mais doidos.
Bom.
Agora estou em Bauru. O que pode dar errado?????????

FUI AO ORLANDO E FOI BOM!


Cena de Orlando Furioso, Grupo Sobrevento, SP/2008



Fui à última apresentação da temporada 2008 de Orlando Furioso, do Grupo Sobrevento, no CCSP.
Trata-se de uma grande produção (para teatro de bonecos), 4 atores-manipuladores, 4 músicos, o sonoplasta e o iluminador.
Orlando Furioso é uma obra de Ludovico Ariosto, a primeira vez que ouvi sobre ela foi na aula de História, na 6ª série, aula sobre o Renascimento, muito en passant, na verdade não li porque o livro nunca esteve disponível nem em biblioteca, muito menos nas prateleiras. Não havia nada de Aristóteles (grego clássico, muito lido na renascença), Maquiavel (20 anos depois li O Príncipe), Gargantua e Pantagruel (Li os dois mas esqueci o autor, antecipou Macunaíma ou talvez fosse descaradamente plagiado pelo Mário de Andrade), Moliére... e por ai
Mas sobre o Orlando do Sobrevento, para mim, essa produção será um marco no teatro de bonecos brasileira, pois trata-se de um legítimo épico. Da mesma forma que há um Bunraku-Zá em Osaka- Japão, um símbolo para os japoneses, o Sobrevento aponta para uma maturidade a ser seguida por outros grupos nacionais na montagem de obras robustas ou os chamados “clássicos” objeto de desejo de todos os atores para alcançar a fase adulta em sua carreira. Resta esperar para ver se é vontade do Sobrevento em tornar-se símbolo nacional, tesouro imaterial e todo esse tipo de coisa.
No entanto há o notório desequilíbrio técnico entre os componentes do elenco, que, resolvi, em minha companhia tornando-se solista. Este desnivelamento das capacidades , fruto, talvez, da diferença etária ou da bagagem de experiências e aprendizados. Luiz André e Sandra Vargas apresentam performance segura nos momentos solos; Luiz André canta uma canção á Orlando Silva com inesperado controle físico e domínio da voz; os meninos ainda estão inseguros: ainda tem medo de errar, ainda não “atiraram-se”, precisam apropriar a parte que lhes cabem neste minifúndio (tratando-se por teatro de bonecos) . Entretanto a melhor manipulação é de Maurício Santana, que manobra o Rei Carlo Magno. Há uma bem equilibrada distribuição de ímpeto e sutileza em sua manipulação. Embora, a direção de Luiz André defenda que o puppi siciliano (ou napolitano) peça o emprego de força, para não entediar o público,Maurício aplicou fúria, ímpeto, pausa e sutileza quando necessários sem causar tédio e brilhando com dignidade.
Tédio é uma sensação impossível em Orlando. Não há cenas contemplativas, tão caras a um pesquisador teatral como eu, leitor de Kierkegaard (mentirinha!). Fúria e ímpeto estão presentes em todo espetáculo. É o motor de todos os atores. A trilha sonora executada por quatro “ciganos” embalam tudo num louco frenesi, numa urgência, arrebatadora e implacável, sem permitir reflexões e titubeios. Esse furor impetuoso, desencadeia uma poderosa energia nos atores, empregada desde em segurar os pesados bonecos de ferro e madeira, até na correria dentro do “submarino” do cenário principal, uma imensa caixa de compensando, que é deslocada, para apresentar a face onde ocorrerá a cena. Os atores a fazem girar em si, de um lado a outro, em seguida, desaparecem em seu interior, para a manipulação dos bonecos, retornam para a cena de atores vivos, giram a caixa-cenário e desaparecem, e reaparecem...
Não fiquei com vontade de fazer um espetáculo de puppi, com varas de aço, o fantoche continua a minha técnica predileta, mas continuo a afirmar, este espetáculo é um divisor de águas para todos nós, atores-bonequeiros.

quinta-feira, dezembro 18, 2008

CRISE, CRISE, CRISE, ORA... QUE CRISE???


Repreodução não autorizada de " O Ensaio do Prestidigitador" de S.D.


Crise? Eu sou do cinema, adoro close!
Nem estou para essa crise. E quer saber? Tem esse impostômetro em São Paulo que computou R$3.000.000.000.000,00 a carga ganha pelo governo este ano. Aí entrevista o capiau, pô assim não dá! Arrancaram três trilhões do meu bolso? Quem é botou tudo isso aí e nem falou nada pra mim?
E o presidente do Equador que não vai pagar a dívida do BNDS, o presidente Correa. Dá um corretivo no Correa! Agora ele disse que vai pagar, acha sacanagem, mas vai pagar. Se até eu pago meus carnet da Casa Bahia, pq., o Correa não vai pagar? Pagamento é coisa sagrada, nem com propina se dá calote! Paga aí, caloteiro!

Agora é sério, chega de piadinha. Nunca tive talento para contar piada. Meu negócio é drama. Eu gosto de fazer drama. No teatro adora fazer (detesto assistir) um papel em que o personagem é portador de uma angústia insuportável. Tão insuportável que ele apenas se resigna, não derrama uma lágrima. Apenas um respirar angustiado... sufocado. Sem esgares e lamúrias... esse sim, é um personagem. Quase o retrato da minha personalidade.
Não acredita que eu carrego em mim o produto de uma dor insuportável? Só não conto porque aí estaria dividindo minha dor. A dor é minha, tira esse olho gordo de cima dela, porra!

Ah, cara!
Esse final de ano não quero saber de mais nada. Parei com o treinamento, nada mais de fantoche.
Tem escultura para fazer, tem que escolher as cores para pintura, tem que costurar os figurinos, tem que decidir que adereços serão feitos. Tudo para 2009.
Agora só estou tocando violão. Nunca fiz uma aula. Nem sei se a afinação está correta. Mas consegui tirar quatro acordes, que dá para cantar alguma musiquinha de missa de domingo.
Nas missas de domingo iam uma rapaziada que tocava aqueles acordes básicos. Serviam para qualquer música da igreja. Eu achava aquilo maravilhoso. A mesma rapaziada ia nos encontros de jovens. Tinha umas meninas que tocavam bem, principalmente pq. Eram umas gatinhas meigas e recatadas. Mas a conversão cabia a um ou outro rapaz, jovem e maduro, saca? E o jovem maduro tocava aquele acordezinho; pim, pam pom, pim, pam, pom... E com fala mansa ia discorrendo sobre nossos pecados. Eu abaixava cabeça e ouvia o sermão, como ouvia sempre o sermão da minha mãe: “mais um sermão, cacete”. Aliás, o que é que euestou fazendo aqui? Minha mãe mandou eu vir... bom, pelo menos tem umas meninas meigas, recatadas...pim, pam, pom, pim, pam, pom... É cara, eu dou trabalho para os meus pais, tudo bem, quando nascer meu filhote, ele também dará trabalho, só espero não ser um aporrinhador na cabeça dele, pq. ninguém pode ser merecedor de tamanha tortura...pim,pam,pom,pim,pam,pom...Mas como é meiga essa...chorando? (snif atrás de mim) Putz, tem um cara chorando atrás de mim! E outro, mais outro. Putaqueupariu! Só eu não estou chorando! Sou mesmo um pecador punheteiro da porra! Chora, desgraçado, chora, espreme esse olha, faça suco do seu cérebro, mas chora, agora! Chora, pelamor de deus, chooooraaa, pisca, pisca, pisca... pensa em alguma coisa ruim, agora, agora...snif, chu, chu, chuuuuu (puxando gosma do nariz)! Tudo bem, já é alguma coisa, o olhinho está um pouco vermelho, você pode até olhar para alguém e compartilhar. Todos conferindo quem chorou mais, quem é mais cristão... Eu nem fiz muito feio. Puxe um ar raspado no nariz, isso! Sorria!

O negócio é não esquentar.
Quanta culpa já se sentiu nesse planeta. Quanto arrependimento. O importante é ser um bosta, manter-se na superfície. Eu troca tranquilamente uma entrevista na Ana Maria Braga, Jô e Sérgio Gróismann, por uma quantia respeitosa de dinheiro.
Tranquilamente, dispenso conhecer esses caras e outros cabritos montanheses da sociedade glamurosa, para ficar quieto num lugarzinho onde mora a santa felicidade! Eiiita!
Onde mora a Lauriê!
Onde se toma o vinhoto que vem em caminhão pipa do RS. Que não serve nem para fazer vinagre!
Onde as quitandeiras indiscretas perguntam qual a origem do teu dinheiro!
Onde todas as atendentes do varejo são barangas, o que, por contraste, obriga a perceber que sua esposa é um modelo de beleza e simpatia!
Onde os carros andam a 20km p/hora, param o trânsito e não estão nem aí?
Onde todos, invariavelmente, ficam de cara amarrada; te encaram, não cumprimentam!
Onde você não é obrigado a cumprimentar ninguém, nem pedir licença, nem por favor, e como não se aproxima das pessoas, não precisa tomar banho, ou lavar a cabeça nos dias frios!!!!!!
Onde se pode surtar e no máximo, receber um olhar perplexo (para quem não sabe, experimente surtar em São Paulo, vira notícia na Record)!!!!

E por fim. Congestionamento de no máximo 5 , 10 minutos!!!!!!!!
E assim como pode ser que não se saiba que morreu, pode estar no paraíso e não saber.

quarta-feira, dezembro 17, 2008

CONFERÊNCIA INTERNACIONAL MOSCOU 2008

Traduzi esta fala de uma conferencista em Moscou, que rolou em outubro deste ano. É sobre um assunto que já discuti por aqui. Bom divertimento!


TEATRO DE BONECOS PARA ADULTOS: NÃO EXISTE ALGO ASSIM.

Por ANNA IVANOVA-BRASHINSKAYA

Para todos os bonequeiros ao redor do mundo um show para crescidos é sinal de extrema audácia e dissabor profissional ao mesmo tempo.
Ambos sentimentos é resultado de um disseminado, talvez o mais disseminado de todos os equívocos de que o teatro de bonecos é um meio exclusivamente para crianças .
Mesmo na Polônia onde havia Tadeusz Kantor, mesmo na França onde há Philippe Genty, e nos USA onde há Peter Schumann e Julie Taymor – existe uma arte contemporânea que pode ser (mas não tem que ser) enriquecido pelo uso criativo, moderno e desafiador de bonecos, e, então se torna um teatro de bonecos em que a presença do boneco, especificamente, torna-o não-moderno, não-excitante, não-adulto, programa infantil.
Aquele ator bonequeiro que trabalha exclusivamente com público adulto, chama seu teatro de qualquer coisa, menos de bonecos. Teatro de figuras, ou de objeto,ou metamorphose, ou phantasmagoria, visual, experimental,mecânico, ou apenas outro - qualquer coisa que evite a palavra bonec que carrega o danoso estigma da infantilidade.
Na realidade, não há tal questão simplesmente por que não existe tal coisa como de criança, ou teatro de bonecos para adultos. Existe somente teatro de bonecos e não-teatro de bonecos, equivocadamente (incompreensivelmente) entendidos por alguns como para crianças
Incompreensivelmente, porque o não-teatro, disfarçado como para crianças é uma prática dominante no mundo dos bonecos. Em muitos casos é um teatro feito sem preocupações com a experiência psicológica existencial das crianças e suas carências, mas com o perverso, forçado, e o repugnantemente falso desejo de ser próximo a elas e, não obstante, mesmo com bonecos, em ser como elas.
Este é o pior cenário: quando o boneco é usado essencialmente como brinquedo – como o objeto de um jogo, não como a ferramenta do ator. O quê pode ser mais patético que adultos com a fala defeituosa, fingindo ser garotos.
Aparentemente, a presença de bonecos permite aos produtores classificar como teatro de bonecos, mas é um pensamento raso, e não corresponde ao significado de uma das palavras da expressão composta.
É claro, deve haver muita diferença entre um show destinado a garotos e outro para adultos, no sentido de que adultos são diferentes das crianças.
Mas essas diferenças não são relevantes na linguagem cênica (crianças, por exemplo, necessitam muito menos de inovação, porque elas, diferente dos adultos, apreendem o mundo pela repetição, não pela novidade) mas, nas singularidades da percepção de adultos e crianças. Crianças percebem as coisas como ganho; não há necessidade de justificar a presença da empanada para elas, enquanto os adultos não aceitam este necessário grau de convenção teatral, eles precisam de justificativa. Esta justificativa, se olharmos pelo nível básico das coisas, deve ser simples e singular: para os adultos, o boneco é aceitável plenamente quando ele atua em coisas que o ator vivo não poderia fazer. Isto é, quando transporta o assistente adulto para a região da impossibilidade, para o reino do conto de fadas, do mito. Isto não é, imagino, o mesmo que transporta as crianças? O fato de que para a criança o conto de fadas não é impossível, mas, pelo contrário, algo realmente possível, bem conhecido e sabido, não altera a natureza das coisas: o teatro de bonecos tanto para crianças como para adultos é a chave (ou talvez a fechadura) para o mundo mitológico, com o qual, nós todos lembramos dos textos dos livros escolares, a humanidade tentando explicar o inexplicável a partir dos primeiros passos. São somente crianças e adultos olhando através do buraco da fechadura por lados opostos da porta: crianças pelo lado de dentro e adultos pelo lado de fora- mas esta é a única diferença que há.

COMO VENCER A CRISE

Meus amigos, o titio Jorginho vai ensinar para todos como vencer essa crise.
Foi através dos ensinamentos que o odissan Miyashiro, patriarca da família, após o duro treinamento a que passam os samurais okinawanos ( tinha samurai em okinawa???), meu avo chamou-me no mausoléu, onde se oferece o saquê e sushis propiciatórios aos antepassados.
Depois de muito calo nos nós das minhas mãos e calombos no dorso de tanta varada, meu avô transmitiu as preciosas palavras:

“Tá com fome? Come. Tá com problema ? Resolva. Mas não desista. Siga o exemplo da bosta. Seja um bosta. Mesmo que te apertem, mesmo que te expurguem. Bosta nunca afunda! (Nunca testei isso) A permanência é o segredo da eternidade.”

Pois é meus amigos.
Este era o meu vovo! O mesmo autor da frase excepcional: “o saco é o corrimão do mundo”, frase que norteia meu destino e como que impressa à fogo, faz-me torrar uma fortuna em caríssimos cremes para a mão.
Ou então: "a ajuda vem de cima mas o empurrão sempre vem debaixo". Essa frase tem caracteristica oracular e pode ser traduzida tanto para o bem, quanto para o mal, demonstrando a descomunal capacidade do para a lide de assuntos transcedentais.
Quem não conhece a famaosa: "quem não tem cão, caça com gato, mas quem nem tem gato, caça com sapato!" Impressionante a versatilidade do meu avô. É impactante!!!!

Breve , na megalivraria mais próxima, o sucesso de vendas:- “Ametistas do Odissan Miyashiro- Vai, que dá!”

AQUI SE FAZ DO JEITO CERTO- Nº0001

Curitiba parece cosmopolita, mas como qualquer cidade, capital desse país tem traços regionais distinguiveis, embora os nativos teimem em diluir.
Aqui, em nome de um preconceito contra o colonizado, o abastado procura distanciar-se com a aplicação do verniz metropolitano, enfim, toda essa análise antropo-sociológica de almanaque que todos sabemos etc.,etc.

Resta alguns indicios, o erre interiorano, o "e" cantado, algumas palavras como "passeio" (...ande pelo passeio não pela via pública.). Muito pouco perto de uma riqueza perdida para uma diluição carioca-paulistana.

Algumas pepitas restam.
Fui a um armarinho na Santa Felicidade e atendeu-me uma guria, lora, com o jalequinho velho do estavelecimento. Portava um pedaço de papelão, cortado a mão, com o nome escrito com hidrográfica. Escrito na parte escura do papelão, provavelmente porque a parte lustrosa estava impressa com alguma coisa. O nome da guria era Laurie.
Perguntei se ela tin ha familiares ingleses ou americanos.
Ela ficou muda.
Pronunciei seu nome: Lóouri.
Ela continuou muda. Torceu o rosto. Fez um muxoxo. Muda, muda, muda. 15 segundos de mudez. E por fim: nos estados unidos é assim (como eu pronunciei), mas por aqui é Lauriê!
Então estamos discutidos!


PRODUÇÃO ILIMITADA:

Ah! As festas de fim-de-ano!
Estou indo para o encontro fatal com a família. Primos, tios e agregados...
Vamos lá. Espero não ouvir mais algum pitaco sobre ter sucesso na vida, diante dessa crise que está nos ensinando muita coisa sobre ter certezas nessa vida.
EStavam organizando a festinha e amigo secreto já encheu o saco mesmo porque amigo secreto e´caro!!! Imagine, o custo das lembrancinhas!
Então sem amigo secreto (graças a Deus!) pediram sugestão. Eu achei que a gente devia ter uma palestra de um tio que na véspera do Plano Collor sacou toda a sua poupança, foi o único que teve dinheiro na família. Ele nem trabalhava no Banco Central. Achei que esse tio teria muitas coisas para encisnar sobre como lidar com a crise.
Achei que os velhinhos deveriam flar de como sairam de um Japão devastado pela guerra e chegaram num Brasil com selva em São Paulo!
Mas ninguém se manifestou.
Crise é assim. O ônibus cai no rio e as pessoas ficam sentadinhas na poltrona com o cinto de segurança bem preso, por segurança...

Olha só eu falando do que se deve fazer num momento crítico, trabalhando com a lucrativa profissão de ator-bonequeiro.
Eu ficaria muito feliz se meu teatro desse a solução para as pessoas, um bálsamo para as feridas. Isso não é escapismo. Um teatro que amenise o ardor provocado pelos rigores da escrotice que nossos semelhantes inflingem a si mesmos e ao outros.
Ai eu poderia dizer que estou na profissão certa.
Ainda vou aprender a trabalhar com esse equipamento!

O trabalho na madeira está parado.
Faltam os pés.
Só que já não aguento mais o pó de serra. A rinite atacou de um jeito que vou tentar trabalkhar na casa da sogra. Vou encher a sogra de pó de serra! E dizer que se não fizer isso, o neto fica sem o leitinho.

segunda-feira, dezembro 08, 2008

CURITIBA, 30°

E nessa tarde quente de Curitiba, Felipe estava impossível.
Brinquedos espalhados, virou os móveis (forte como um urso, o meu filho), derrubando a casa...
Pensei: acho que é melhor dar uma passeio com o nene.

Era 15h. Parque? Curitiba estava com um sol de 30°.

Parque não dá. Shopping? Ah, que saco! Shopping?

Supermercado. Vou comprar um brinquedinho chines.
Enchi duas mamadeiras de Ades, Puz na térmica e fomos embora.
Claro que ele ficou feliz da vida!
Fomos ao Carrefour.

Felipe ia pegando três, cinco oito carrinhos e enchia a cesta. Eu ia devolvendo para as gôndolas.
Tarde quente!
No meu celular inscrevi a seguinte saudação: pense bem...!
Quando já estava no limite, entrei na fila do caixa.
Peguei uma conversa entre as duas meninas do caixa.
Algo sobre ingressar na Federal.
A menina que me atendeu, continuou a conversa, dirigindo-se a mim, dizendo que o vestibular só privilegiava os mais ricos.
Verdade! Exclamei.
Basta olhar o estacionamento e verá o perfil dos alunos; só carro do ano.
Parece que ela não percebeu o impacto da minha observação e continuou num monólogo da injustiça social que privilegia os mais abastados.
Consenti que ela estava corretissima.
A outra menina, com fúria desatada, atacou; tudo bem, mas o que não admito é a cota racial, que toma a vaga de gente que estudou...
Olhei para ela, tomado de surpresa com aquela emboscada verbal, preparando o contra-ataque. Recuei.
Pensei bem...!
Estava com o nene. Simplesmente calei.
Porque não interessava mais o que ela e muita gente que toda hora vem expressar esse raciocínio infame. É lei! E acabou. A cota é lei! Dane-se quem estudou e não concorreu pela cota. Estude mais! Ou declare-se negro.
É o tipo de assunto indiscutível. Não há que se debater a cota, mas o aumento de vaga nas universidades. No aperfeiçoamento do ensino. Chega de racismo não assumido.
Que eu saiba em minha família ha pelo menos três gerações não sei se alguém foi acorrentado e submetido a servidão. Fico louco quando alguém profere um simples não, quanto mais abaixar a cabeça diante de um feitor.É por isso que tenho ódio de quem é racista.
Pense bem antes de opinar sobre as cotas e faça as conexões corretas negro-escravidão e cotas, não negro-vagabundagem e cotas...
Vão a merda!
Por falar em racismo.
Sou do tempo da Sony e agora comprei um MP4 Zen chines(!!!!.
O Sony durou 5 anos sem qualquer manutenção. O Zen nem tem seis meses já está na segunda revisão. Ele simplesmente parou: não desliga nem liga. Está lá aceso, sem funcionar.
Estou baixando um programa há duas horas, sem saber se vai funcionar.
O pior é que o mp4 é equipamento dos espetáculos.
E se ele dá uma pane dessa durante uma apresentação?
só para tornar o assunto pertinente ao blog.

quinta-feira, dezembro 04, 2008

ORLANDO FURIOSO

O Grupo Sobrevento enviou essa merecida reprodução da crítica publicada no blog Cacilda!, pelo Nelson de Sá.
Como já escrevi, tive a oportunidade de ver alguns preparativos e um oitavo de ensaio da peça orlando Furioso. Em breve espero assistir.
Enquanto isso, o sucesso permeia mais uma produção deste fantástico grupo, a quem tenho a honra de ser amigo.


A temporada de nosso novo espetáculo, Orlando Furioso, vai até 21/12/2008. Estamos em cartaz no Centro Cultural São Paulo, às sextas e sábados, 21h, e aos domingos, 20h.
Aproveitamos para divulgar o comentário de Nelson de Sá, publicado no blog Cacilda, da Folha de São Paulo.

02/12/2008

Orlando Furioso

Até o Sobrevento, a única imagem que eu guardava de "pupi", os desajeitados bonecos sicilianos, vinha da segunda parte de "O Poderoso Chefão" _quando o vilão don Fanucci vê uma apresentação na rua, comenta que é "muito violenta" e caminha pela festa católica até seu prédio, onde é assassinado por Vito Corleone ou Robert de Niro.

No dia em que fui ver "Orlando Furioso", encerrada a apresentação, o diretor, intérprete e manipulador Luiz André Cherubini não só convidou o público a conhecer e manipular ele mesmo os bonecos, mas explicou como funcionam e são feitos, um pouco de sua história, seus limites em relação aos bonecos modernos.

Foi uma breve aula prática, que fez com que me envolvesse no assunto, depois, até compreender que "Orlando Furioso" e os "pupi" são bem mais ligados do que parecia. Se juntei bem os pontos, a violência de Orlando e dos paladinos cristãos de Carlos Magno são a própria razão da rusticidade e dos movimentos bruscos dos bonecos sicilianos.

Mas não fui ao Centro Cultural pelos "pupi". Estava em outra fila, uma semana antes, quando vislumbrei na porta de entrada para o Sobrevento, também na fila, três monges. Vestiam batina preta, sandálias, um era mais gorducho, outro jovem. Estavam lá por Ariosto, pela Idade Média, a Igreja Católica, algo assim.

E eu vinha de assistir à "Mandrágora" de Maquiavel, pelo Tapa, no teatro de Wolf Maya. E era naquilo que queria continuar.

(Acabei vendo mesmo a outra peça do Centro Cultural, já havia comprado ingresso. Mas foi bem pouco estimulante, algo que selecionei por ser de algum lugar do Nordeste e se inspirar em Brecht. É o vício por diversidade, que já passou dos limites.)

Precisei esperar o outro fim de semana para encontrar Ariosto e sua crítica relativamente amena, se comparado a Maquiavel, à hipocrisia cristã. Mas ela está lá, no Orlando que rejeita covardemente seu grande amor para atender ao imperativo da fé cristã e do rei sacro, mas não suporta, deixa tudo e corre pelo mundo, até se ver "furioso", louco.

Além da paixão frustrada de Orlando e Angélica, que é também o coração do poema original, a encenação sublinha o conflito de cristãos e "sarracenos", aparentemente para criar pontes com o contemporâneo choque de civilizações, Iraque, Palestina etc. Mas nem era preciso carregar tanto.

Na própria história de amor, criada na Idade Média já a caminho da Reforma e da Contra-Reforma, está o questionamento de Ariosto não só às ordens do sacro império franco, mas a Deus e Roma _ainda que o poema tenha sido dedicado a um bispo, que pouco se deixou tocar.

O que mais permaneceu do espetáculo, por outro lado, foi a impressão deixada pelo rigor e pela riqueza do Sobrevento. Eu já devia saber que não tenho mais paciência para a diversidade em si _e que é a amplitude generosa de trabalhos como "Orlando Furioso" que mais instiga, que estimula a seguir novos ou até rever caminhos esquecidos.

Da música que dinamiza a cena ao cenário engenhoso de André Cortez, que ajuda a trazer para o presente o que poderia ser excessivamente respeitoso, até museológico, a peça vence as limitações eternas do porão do Centro Cultural _e ultimamente a falta de funcionários, o abandono das salas etc. É um espetáculo nada nada século 16, como o poema, ou 19, como seus bonecos.

Também importante, para tanto, é que Sandra Vargas, o próprio Luiz André, Maurício Santana e Anderson Gangla preenchem com veia cômica bem desenvolvida quase toda a apresentação. Para não falar da habilidade na manipulação de objetos tão pesados, com seus duelos de espada, suas cabeças cortadas.

Escrito por Nelson de Sá às 23h30

FIQUE ATENTO!NÃO CULPE A CULTURA PELO FURTO DO RENDIMENTO







A todo momento leio e escuto alguém metendo pau em quem recebe uma dotação do governo, por prestação de serviço na área da cultura. E isso fica martelando na cabeça, uma culpa por receber uma verba que poderia estar pagando a habitação de gente pobre, comprando remédio para um posto de saúde, melhorando a merenda escolar, comprando um livro para uma biblioteca. Pois é, no meu caso, a verba proveniente de impostos que eu também pago, paga o teatro de bonecos assistido por crianças que jamais teriam dinheiro para assistir uma peça de teatro de uma Regina V. ou de um Espaço deax Criança, talvez nem de um Doutor Botika ou muito menos de um Feani.
A última vez que um Guairá pagou-me um cachet de festival, pedi para apresentar na lona do circo na praça Santos Andrade, ingresso gratuito.

Agora, nem todos agem assim.
Cultura com apoio do governo é um bom negócio.
Vejam os pontos de cultura. Em princípio, o edital é louvável. No entanto, somente associações sem-fins-lucrativos com mais de três anos em atividade, podem concorrer. Justo, não é? Entretanto, esse recurso de fundar uma associação é uma forma de burlar a Receita Federal. E o governo burlando a si mesmo, burla quem tenta andar conforme o manual do bom cidadão. Eu que tenho uma empresa, cnpj, um projeto de difusão e formação de novos titeriteiros, não posso concorrer. Porque minha empresa “visa lucro”. E os colegas associados, cooperativados, não!!?!
Vai ser interessante saber o quem vencerá o edital dos pontos de cultura.
Tem uma associação na Saint Felicity , área nobre do frango frito à frio e da polenta veia, que montou peças da literatura teatral mundial, como O Rei leão, A Bela e a Fera, Menino Maluquinho e outras preciosidades necessárias para o bom desenvolvimento infantil e monetário do dono do espaço. Agora reinaugurou o espaço com ampliação de salas, homenageando com nomes ilustres da política e das artes, numa das regiões com grande valorização imobiliária, cercada de mansões e condomínios fechados, e que agora pretende “discutir ou debater” a cultura na região da polenta e do frango frito. Aguardem o próximo ponto de cultura...

Por isso, aqui está. Preciso do governo para trabalhar. Cerca de 50% do meu ganho vem do governo. Porque as pessoas compram o cd da Madonna, pagam para assistir o Harry Potter, mas o teatro tem que ser de graça. A não ser que tenha o marombado da novela. E se algum elemento que exija o cálculo de um quadradinho de sudoku, o público sai da sala acusando este trabalhador braçal de experimental. Mas o dinheiro que recebo do governo é o dinheirinho, não é o dinheirão. dinheirinho que é reinvestido na empresa para produzir outro espetáculo. Não sobra para aplicar em imóveis e carros.A partir de agora vou defender essa diferença.

É por isso que mesmo com terroristas paquistaneses, estou tentando ir para Índia. Mesmo com uma Geórgia e uma Ucrânia prestes a levar uma bateria de ogivas de cobalto por perto, estou tentando ir para a República Tcheka. E mesmo com recessão eu topo ir para os USA!
Esperança por aqui, nem no verde desbotado do pavilhão nacional...