sexta-feira, outubro 31, 2008

ESCRAVIDÃO, PROPRIEDADE E POSSESÃO.

Quando se faz um ranking que elege a bunda e a loira top de preferências sexuais masculinas no Brasil, isso deixa de ser um jogo inocente. Quando se compra uma revista pornô ou um dvd o consumidor está tomando posse daquele corpo, mesmo que o corpo seja uma cópia do corpo original. Se a Gisele Bundchen ficar pelada, milhares de compradores disputarão nas bancas e gôndolas o “clone” da modelo. Na Escravidão, se fazia a mesma coisa com os índios e negros, vendia-se os corpos de povos tribais, “incivilizados”,” incapazes de comungar, confessar e proferir a palavra de Deus”(!); portanto, muito próximo dos animais, portanto comercializáveis. Na antiguidade clássica, gregos, romanos escravizavam artistas, professores, advogados, a classe média atual que consome os clones de modelos nas revistas pornográficas.
Chega a fazer pensar que apropriar-se do outro é um instinto natural!
Deve ser por isso que agora a coisa está dando o que falar: crimes passionais. E quando é um crime passional, perdoa-se? Só se perdoarem crimes de escravidão, cárcere privado.

Por falar em crimes polêmicos de onde sai tanta gente querendo linchar os criminosos? Acho que alguém criou um serviço chamado LINCHENOW ltda. (tecnologia chinesa com a melhor opção de tortura; experimento nosso palitinho de bambu debaixo da unha...)
Uma kombi leva até às delegacias todo o pessoal contratado para fazer aquela pressão sobre o criminoso:
-lincha! Lincha! Lincha!
Eu se fosse um criminosos não ficaria feliz com menos de 1000 pessoas querendo me linchar. Levando em conta que a média de público que aparece nos espetáculos da Fundação seja de 30 pessoas; numa escola 4000 crianças.
Mil linchadores seria a glória!
Quanto será que cobram...????

Estive fora do ar por motivos de levar o pão para casa. Embora na verdade, tenha levado só o trigo. Melhor ainda, nem levado, mas plantado aos quatro ventos. “Jogado” seria a palavra ideal e se plantar, plantou!
Foi um trabalho danado, idealizar e preparar o projeto, escolher as pessoas, envolvê-las, motivá-las e o mais difícil: pegar as assinaturas.
Eu gosto de trabalhar com pessoas. Adoro grupos. Há uma energia incrível (quando há energia) em trabalhar com grupo. Mas ultimamente tenho encontrado muito pouca disposição nas pessoas. Parece que quando envolve dinheiro, quando tudo deveria ser a melhor fase, as pessoas se desanimam, ficam num bode arrastado tremendo!
Por isso e para ganhar dinheiro tenho planejado o desenvolvimento dos projetos de uma forma que haja a menor presença física possível. Parece um paradoxo, mas arte virou comércio.
Palavras impensáveis na década de 70 para a Arte, como: prestação de serviços, produto final, agilidade, custo e benefício são simplesmente o eixo principal das relações entre os “profissionais” da arte.
Uma vez, um bonequeiro amigo disse que a maior conquista pessoal era trabalhar sozinho, sem precisar de grupo. Eu já falei que uma das razoe de preferir trabalhar com bonecos a atores é que, finalmente, posso desenvolver uma idéia de teatro. Com grupo tinha de destruir a idéia inicial, improvisar e negociar todos os aspectos considerados impossíveis de realização com os parceiros.
Com bonecos eu faço e pronto!

terça-feira, outubro 21, 2008

MONDAY´S FURY

Na saudação ao ligar meu celular nada de “oi”, “bom dia” , “você é demais”... nada disso. Programei um “pense bem”.
Para começar um dia “pense bem” antes de fazer, no que vai dar. Claro que não dá para prever tudo. Mas tentar já é um exercício de boa fé.
Ontem , segunda-feira foi um dia de “pensar bem”. E olha, eu pensei.

Começou quando liguei pro Sergião (no mesmo celular do “pense bem”) para cobrar uma cervejada durante o previsível empate de São Paulo e Palmeiras, e meu comparsa comunica que está quebrando o pau com a esposa! Tudo bem que era um Sunday´s fury. Mas nada como um bom quebra-quebra de domingo para começar uma péssima segunda-feira. Ó sim!
Tomei um ligeirinho, segunda-feira, 14:00h, lotado, para uma reunião na Fundação Cultural. Em pé, escuto um imperativo: “alguém, aí, dá lugar para o homem com o bebê no colo!” Esse foi o toque da alvorada para a segunda braveira que se descortinava a minha frente. Uns bons 5 segundos e ninguém mexe a bunda. Um passageiro então cede lugar. Perfeito, não fosse a forma deseducada da mulher que mandou alguém ceder o lugar: um por favor não ia fazer mal, né?
Toca o celular (...) e a reunião está cancelada devido a falecimento de colega... e agora? Desligo e a idosa sentada cede lugar a um senhor, bem vestido, cheiroso, pacífico e com visível sinais de distúrbio mental. O senhor dá um escarro sem cuspir e introduz dois dedos na boca para verificar a consistência do muco, em seguida devolve para aboca. Tudo higiênico (não tocou em nada, em ninguém!). Estava num lugar em que as cadeiras são voltadas uma para outra e o garotinho sentado a sua frente ficou perplexo. A mãe deve ter luxado as costas porque ficou virada o tempo todo para outro lado, asco impresso na cara. O homem, por sua vez, ficou intimidado, mas ele tinha a incompreensão dos seus atos e continuou escarrando alto e verificando o muco.
Da minha parte refletia sobre aquela situação, na situação do homem. Já vi muita secreção corpórea e é preciso uma quantidade razoável para virar meu estômago.
Não para os manos atrás de mim que decepcionados ou satisfeitos com algum jogo entre o grêmio e o Coxa no fim-de-semana, pararam a conversa para se indignar com o homem:
-“Mas esse cara deve estar limpando o intestino!”
-“Porco sem-educação!”
-“...É e se achou ruim, pode levantar. Minha profissão é perreio (?!)”.

Pronto era tudo que precisava, ficar na linha de tiro do “perreio” entre uns manos e um deficiente mental!
E foi.
Os manos provocando entre a praça 29 de Março até a Matriz.
Quando estava chegando na Matriz eu me viro para sair e vejo quem era os “mano”: um gordinho todo fofo, risonho e um bravinho de cabelo espetado, o que mais provocava. O bravinho era baixinho devia ter uns 15 anos, as mãos eram mais finas, brancas e lisas que daminha esposa! O bíceps do menino era meu pulso. Nooooossa, que vontade de dar naqueles moleques (pense bem!!!!). Fiquei na vontade e sai.
Bom no saldo geral do dia, posso dizer que saí vivo, do pai que me encochou e não se desculpou, do desmemoriado que ajudei a lembrar que o filme que ele queria era o do Michael Douglas e não agradeceu.
Ah, e tudo isso que antes amargava minha boca, hoje serve apenas de pretexto para postar esse blog.
Afinal, estou em Curitiba!

quinta-feira, outubro 16, 2008

OS SINAIS DA AUTORIA

Estou dando minhas cinzeladas (usa-se cinzel na madeira?) na segunda cabeça de boneco, na deliciosa caixeta, madeira boa para esculpir que o índio sabedor ensinou ao branco e por sua vez, ao amarelo...
Corta aqui, talha ali... faz a bochechinha, bem gordinha; faz a orelhinha um pouco acima do nível humano (tudo bem, será uma caricatura...) arredonda o topo da cabeça e... um macaco! É terceiro macaco. E fiz sem perceber. Inconsciente. Mais um macaco num espetáculo meu! Estou transtornado. Já ouço as vozes críticas: mas só faz macaco!
O que fazer?
Martelar a escultura?
Está taaaaaaaaaão linda!

O que se pode fazer?
Mesmo quem cria, é vítima da matriz, de sua identidade cultural. Por mais cosmopolita que seja. O autor sempre vai produzir dentro de um sinal pessoal. Fazer algo novo? Um produto original? Não acredito que consiga. Se fizer , pode procurar, que é cópia.
Assim, nesse mundo de crise econômica, quem fornece originalidade copiosa é o produtor, aquele que contrata criadores, autores, financia a produção (não direi :suga, explora, avilta; esse inaudito jargão de esquerda), e quando o finaciamento acaba procura outro autor para alimentar a avidez da crítica, sempre voraz para o novo.

A massa, não. A massa quer o de sempre, o arroz com feijão. Por isso, quem cria e agradou uma vez, fica sempre com aquilo, agradando sempre. Foi o que aconteceu com a música. É o que acontece com o teatro. E não adianta reclamar.


ANEDOTÁRIO


Na Santa Felicidade, bairro onde moro, tem um açougue onde sempre compro bistequinha de porco. Lá tem a bisteca branca, que dizem ser de porco. Quando a bisteca é escura, dizem ser de porca e é dura. Para mim a carne escura é carne velha, enfim, é o que o açogueiro, muito simpático, diz:
- “Bom dia!” diz.
- “Bom dia! Tudo na santa paz?” digo.
- “Aqui, tudo na Santa Felicidade!”

Lembrei dessa somente hoje, dia seguinte:
Andava eu, o anderson Gangla e o Luiz André pela Santa Ifigênia. Luiz André cheio de remorso quiz dar um mimo em retribuição às chaves de fenda e um martelo que comprei para o barracão deles.
-"Olha Jorge! Essa moeda comemorativa dos 100 anos da Imigração japonesa. Acho que tem tudo a ver contigo, com os teus ancestrais, aqueles que vieram naquele navio... olha o navio aqui na moeda, o Tupac Amaru!"
Sempre achei, e agora tenho certeza, que pro carioca japones, chines e inca era tudo igual.


Um pouco humor sórdido:

Sabe um processo para tornar a arte de uns velhinhos, patrimônio imaterial? É uma batalha longa que sendo travada desde a década de setenta.
Enfim.
Um cara aqui em Curitiba, recebeu R$2.700,00 para fazer “pesquiza (sic) teatral sobre mamu... para o governo do estado de Pern...; e ainda recebeu mais R$3.000,00 para: “custeio de alimentação teatral”. O detalhe é que o distinto indigesto mal terminou o “gimnnázio”.
Desculpem. Dessa quem rirá sou eu: ahahahahahahah!

segunda-feira, outubro 13, 2008

ORLANDO FURIOSO SAI DO BARRACÃO!

O SOBREVENTO MANDA ESSA MSG.:




O GRUPO SOBREVENTO estréia ORLANDO FURIOSO no próximo dia 17 de outubro, sexta-feira, às 21h, no Centro Cultural São Paulo - Espaço Cênico Ademar Guerra. A montagem fica em cartaz de sexta a domingo – sextas e sábados, às 21h, e domingos, às 20h –, de 17 de outubro a 21 de dezembro (no dia 9/11 não haverá apresentação). O preço dos ingressos será de R$5,00 – de 17/10 a 19/10 – e de R$ 12,00, a partir de 24/10. Imprima o convite em anexo e troque por 1 ingresso na estréia (sujeito à lotação da sala). O Centro Cultural São Paulo fica na Rua Vergueiro, 1000, ao lado da Estação Vergueiro do Metrô. Maiores informações podem ser obtidas pelo telefone (11) 3383-3402 (CCSP) e (11) 3399-3589 (GRUPO SOBREVENTO).

ORLANDO FURIOSO é um espetáculo teatral para adultos baseado no texto homônimo de Ludovico Ariosto, com bonecos movimentados por vergalhões de ferro. Com 90 cm e pesando 3,5 Kg, estes bonecos são construídos conforme uma técnica siciliana tradicional e fazem movimentos vigorosos, como nenhum outro tipo de boneco é capaz de fazer. Conhecidos como pupi, estes bonecos são ideais para a encenação de combates armados, paixões arrebatadoras, loucura, ingredientes deste poema épico, baseado em canções de gesta que remontam ao século XI. A montagem narra a história do amor que levou Orlando, o maior paladino da França à loucura, pondo em risco o exército de Carlos Magno e o domínio cristão na Europa. Com quatro atores-manipuladores e música ao vivo executada por três músicos (violão, canto e viola caipira; acordeão e percussão), ORLANDO FURIOSO foi realizado com o apoio do PAC – Programa de Ação Cultural – da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo.


A técnica dos pupi

Feitos de madeira, com armaduras de bronze, cobre e alumínio, os 19 bonecos do espetáculo foram confeccionados ao longo de seis meses, em um trabalho de oito horas diárias. O acabamento meticuloso das armaduras, em metal repuxado, e dos figurinos dos bonecos chama particularmente a atenção e revela o caráter artesanal e delicado de sua elaboração. O elemento definidor da técnica de animação destes bonecos é a utilização de varões pesados de ferro presos à cabeça e ao braço direito das figuras. Muito pesados, estes bonecos são manipulados por cima e adquirem movimentos de grande vigor e vivacidade, demandando muito esforço físico dos bonequeiros. Os pupi, bonecos de varão característicos da Sicília, semelhantes aos usados na montagem do SOBREVENTO, são considerados patrimônio imaterial da humanidade pela Unesco. Variantes da técnica de varões podem ser encontrados, particularmente, em Évora (Portugal) e em Liège e Bruxelas (Bélgica).


Os pupi no Brasil

O SOBREVENTO é, hoje, o único grupo em atividade no Brasil que domina a técnica dos pupi e dos bonecos de varão. Sabe-se, por documentos argentinos, da passagem de alguns pupari (marionetistas italianos) pelo Brasil, provenientes da Sicília e de Nápolis, no início do século XX. Não há, porém, documentos de conhecimento público que registrem suas apresentações por aqui. O único registro da atividade de um puparo no Brasil refere-se às atividades de Dante Santaguida (1924-1983), natural de Lecce, no sul da Itália, que mantinha um restaurante na cidade de Londrina (PR), onde realizava apresentações freqüentes com seus bonecos. Em sua variante portuguesa, os títeres de varão tiveram presença importante no Brasil, até o século XIX. Para o SOBREVENTO, a importância de se recuperar esta técnica no país está no quanto ela traduz a nossa Cultura.


Orlando Furioso e Ludovico Ariosto

Ludovico Ariosto nasceu em Reggio Emilia, em 1474, e morreu em Ferrara, em 1533. Filho de um membro do tribunal de Ferrara, estudou Direito, abandonando a carreira para dedicar-se à Poesia. A obra de Ariosto é vasta: Poesias líricas latinas (1493/1503), sátiras, peças de teatro, etc. Sua obra mais famosa é o poema Orlando Furioso, continuação de uma obra anterior de Matteo Maria Boiardo entitulada Orlando Enamorado. O poema, composto de 46 cantos em sua versão final, alcançou grande sucesso, por ocasião de sua publicação. Nele, o poeta ridiculariza a nobreza feudal em decadência, ao mesmo tempo em que prenuncia o novo homem da Renascença. Além de seus aspectos sociais, a obra consegue unir um enredo fantástico a uma versificação harmoniosa.

Orlando Furioso foi traduzido em quase todas as línguas e no próprio século XVI foram feitas mais de 60 edições do poema. Narra uma série de episódios que derivam de épicos, romances e poesia heróica da Idade Média e início do Renascimento, destacando-se três histórias nucleares à volta das quais as outras se formam: o amor de Orlando por Angélica - a de maior importância; a guerra entre cristãos (liderados por Carlos Magno) e mouros (liderados por Agramante) perto de Paris - que constitui o cenário épico para toda a narrativa; e o amor entre Ruggiero e Bradamante. Ariosto ainda deixou o poema inacabado Rinaldo Ardito.


A equipe

ORLANDO FURIOSO conta com cenários e figurinos de André Cortez e música original de João Poleto. O SOBREVENTO é formado por Luiz André Cherubini, Sandra Vargas, Maurício Santana e Anderson Gangla. A estrutura, mecanismos, adereçaria e confecção de armaduras dos bonecos é de Luiz André Cherubini, Anderson Gangla, Maurício Santana e Marcelo Amaral, com a colaboração de Paulo Caverna e Elza Martins. A escultura de mãos e cabeças é de Agnaldo Souza, a pintura é de Léia Izumi, os figurinos dos bonecos são de Sandra Vargas. Para dar início à pesquisa dos pupi, o SOBREVENTO recorreu a Luciano Padilla, argentino, especialista da técnica, trazendo-o ao Brasil para orientar os estudos e confecção. O processo de confecção dos bonecos teve início com um estágio aberto pelo Grupo, ao qual candidataram-se mais de 40 bonequeiros de cinco estados brasileiros para as 10 vagas oferecidas.


O SOBREVENTO é um núcleo da Cooperativa Paulista de Teatro

Visite nossa página em http://www.sobrevento.com.br

sexta-feira, outubro 10, 2008

TO BE A PUPPETEER OR NOT

Estava dando minhas braçadas no oceano da rede mundial, quando uma marola jogou-me essa frase aí de baixo;

"...one phrase Betsy used frequently in her puppet courses, was "anyone can be a puppeteer". My brain would say to itself, "anyone can be a brain surgeon too, but I would be careful which one I picked."
- Alan Cook

Numa tradução malemal:

uma frase que Betsy (???) frequentemente usava em suas aulas de bonecos era “qualquer um pode ser titeriteiro”. Meu cérebro poderia responder a isso, “qualquer um também pode ser neurocirurgião, mas seria cuidadoso com quem escolheria.”

Bem, não sei quem é esse Alan Cook... but, but, but...

Tem um lado social que abre meu coração e quando me perguntam se a pessoa pode um dia ser titeriteiro, ator-bonequeiro, marionetista...ator! Eu, também, digo que sim, pode.
Digo isso, pensando nas tarefas que essa pessoa deveria realizar e assim adquirir a aptidão para fazer o teatro de bonecos.
No entanto, mesmo que se dê todos os segredos da arte, se é que existe algum, a pessoa não vê aquilo que está a frente dos seus olhos.
Parece que está bloqueada. Parece má vontade. É cansativo para quem ensina e para quem tenta aprender. E olha que sou incansável para ensinar. Resultado: quem quer aprender fica de saco cheio e desiste.

Tenho 20 anos de teatro e de administração de aulas e oficinas. Se tem alguém que pode dizer que é cria minha, que sacou a essência da minha disciplina... Umas duas pessoas. Só. O resto passou uns bons momentos ou talvez nem isso.

Que posso fazer?
Não dou emprego na Globo.


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NOTA EXPLICATIVA:

Detesto dar explicação sobre o meu trabalho, mas uma frase está sendo mal interpretada.

“Visitantes Incomuns” meu mais recente espetáculo, tem no release a informação de que levei três anos para produzi-lo.

Isso é verdade.
Da seguinte forma:

Teve um edital da Fundação Cultural que se chamava Arte e Meio Ambiente, a proposta era levar uns “bananas de pijama” que seriam os personagens da campanha municipal para estimular a reciclagem do lixo. Como trabalho sozinho em cena, produzi um espetáculo com os mesmos quatro personagens-recicláveis, comprei uma trilha sonora, fiz um dvd e mandei o projeto. Claro, foi rejeitado, por não se adequar a proposta “banana de pijama” inicial.
Este espetáculo além dos personagens recicláveis da Secretaria do Meio Ambiente, tinha dois mestres de cerimônia fantoches: um menino e um bugio.

No ano seguinte, sim. Peguei os dois fantoches e preparei um projeto que seria um espetáculo sem palavras, mas dirigido ao público adulto. Seriam cenas metafísicas, um circo do absurdo, um passeio onírico:
Um homem que vivia ouvindo o som do universo, uma miríade tão infindável, ao mesmo tempo tão sutil que ele estaria impossibilitado de expressar o que ouvia. Ao mesmo tempo que um verborrágico teórico tentaria debater o conteúdo da audição deste homem... Coisas assim.
Passei o ano elaborando essas idéias, mas então a água bateu na retaguarda e parei de divagar.
Comecei a desenhar a idéia do condomínio, onde haveria o escracho de uma comédia de costumes.
Achava que jamais faria uma peça sem palavras, já que a palavra para o fantoche é um recurso que casa muito bem com esse tipo de boneco. O fantoche é loquaz por tradição.

Outra insatisfação criativa é quanto a trilha sonora.
Não é que não goste de música. Gosto!
O que indigna é que o músico não precise de mim para fazer o show, mas eu preciso dele para fazer o meu!!!!
Por quê não posso fazer um espetáculo sem trilha?

SEM PALAVRA E SEM TRILHA SONORA!!!

Daí cheguei ao esboço que resultaria no Visitantes Incomuns atual.
Um passo de cada vez. Um espetáculo sem palavra, mas com trilha o tempo todo.


DERIVANDO NO ABSOLUTO

É engraçado como são as coisas.

Vi uma foto do Ópera de Carvão e Flor, do Renato Perré, que está sendo apresentado neste mesmo período, dentro do mesmo edital de formas animadas. Não assisti ainda, mas vou. Pelo que parece a peça ocorre num ambiente rural, entre agricultores de baixa renda, e com grande apoio na trilha sonora, ao vivo.
E Visitantes Incomuns é uma fábula urbana, uma fantasia classe média (sem querer ser pejorativo), com total apoio na trilha sonora, gravada, claro!
Aliás, as trilhas: Da Ópera deve ser um misto cantigas paulistas com modas nordestinas, já o Visitantes é um jazz fusion plus rock.

Trata-se de um debate de paradigmas opostos.
Não deixa de ser uma batalha ideológica sobre o que somos e o que gostaríamos de ser.
Por meu lado, meu discurso preferido é o silêncio solitário, mas procurando a eloqüência dos gestos. Em que o conflito se estabelece no grau das relações.
O Ópera busca saturar com a linguagem do circo e a fala do oprimido tentando superar o opressor (acho que deve ser isso...).
Se for isso. Se assim for este meu vizinho de teatro, então o público deveria ficar gratificado!
Não?

quinta-feira, outubro 09, 2008

O SONHO DO ESCULTOR


Que tal?
Bem melhor que ontem?
Criei coragem e retalhei o pau!
Usei tanto a serra que achei que ia fazer a escultura à base de serra. Usei serra de arco mas os dentinhos comiam a serragem, ficava horas no serra, serra.
Ia comprar um serrote. Resisti a tentação e usei a serra de esquadrilha que já tenho. Usei a serra solta, aquele trambolho todo. Precisei prender as presilhas da serra com um elástico. Parecia uma metralhadora ponto 8!!! Rambo!

Usei formão reto para arrancar os pedaços diagonais do bloco, por isso ficou com aparência mastigada. Fiquei achando que ia perder o blocomas usei a grosa e quando ficou mais liso, vi que estava bom. Deixei as paredes do boneco bem finas, um capricho, um risco, brincando com o perigo.
A cozinha, claro, ficou cheia de pó de serra. A esposa não diz, mas está louca para me matar. Caso desapareça, vocês já sabem que é a culpada!

Depois usei os formãzinhos da Tombo.
Eram da minha mãe, que comprou-os para não sei para quê. Para esculpir barro, sei lá.
Só sei que roubei dela e fiquei com aquilo, anos, sem saber o que fazer também.
Quase joguei fora.
Hoje usei os Tombos, que são umas maravilhazinhas para esculpir detalhes em madeira.

A caixeta é difícil: tem hora que parece balsa, tem hora que parece pinus. Uma hora é mole demais, outra, muito dura. Ás vezes, se vai contra o sentido da fibra ela esmaga, mesmo.
Com os tombos, afiadíssimos, é mais fácil. Usei uma toco para bater os tombos, mas depois estava cortando que nem isopor. Um isopor mais duro, claro!
Agora preciso saber como dar o acabamento.

Vou atrás de lixa de madeira. O que tenho aqui é lixa de ferro.

As cabeças dos ningyos de Bunraku, depois de esculpidas recebem uma camada de papel de arroz, cola e um verniz à base de conchas trituradas. O resultado é o acabamento liso e aveludado. Estou pensando em usar papel e cola para deicar mais liso.
A cabeça está sem nariz. É porque vou fazer depois, usando durepóxi. Se fosse esculpir direto na madeira ia desperdiçar muito. Preciosismo desnecessário.

quarta-feira, outubro 08, 2008

O SONHO DO TITERITEIRO





Qual é teu maior desejo?
A sedutora questão que por si, catapulta-nos ao mundo imaginado. Qual seria meu maior desejo?
O meu, hoje, além de ganhar na mega-sena, claro, é ter uma marcenaria para fabricar bonecos. Se for de tábuas velhas melhor. Se for cheia de vãos e buracos, melhor ainda. Se o sol do fim de tarde atravessar esses buracos e a luz transfigurar no p´[os de serra em suspensão... aí é poesia, né!

Deixa a viadagem de lado!
Comecei a trabalhar na madeira.
Comprei a caixeta em São Paulo, depois de muitas horas na internet, depois de muita investigação em Sampa, depois de procurar por horas na rua do Gasômetro. Depois de carregar uns dois kilômetros três metros de uma viga de caixeta, e, por fim trazer tudo para Curitiba, então...
Então, nada!
Tive de serrar as vigas, cara!
Três horas para fazer os blocos, serrando, serrando, braço doendo, suando, suando.
E hoje chegamos a isto ali, em cima:



Fala se não é uma belezura?
Não é minha primeira escultura em madeira.
Mas, na outra vez usei um emeril.
Agora estou usando formão e grosa.
Como deve ser feita uma cabeça de boneco.

Uma vez dei uma palestra para o pessoal do Centro do Truks.
Falei do meus processos de fabricação de boneco.
Das torturantes sessões de lixa sobre a cola e a intertela.
O Henrique tirou o sarro: disse que comprou uma lixadeira, e que eu poderia comprar uma também.
“Ora et labora”.
Uma máxima alquimista. De trabalho incessante para transmutar a matéria.
Como explicar uma coisa dessa?
Hoje faz 26 anos que pratico meditação. Tive vários mestres, de várias escolas.
Hoje percebi como se pode fazer de tudo dentro da meditação.
Trabalhar, planejar, viajar, sexo, refletir, descobrir, entorpecer, estimular, descansar, esgotar-se, passar o tempo...despertar poderes paranormais.
Hoje estou só praticando meditação.
Tento não pensar, tento não procurar por nada.
Só manter o pensamento fixo numa unidade qualquer.
Se a mente sair disso, faço voltar.
Foi um ensinamento que nunca tinha dado valor. Preferia procurar por alguma coisa... poderes paranormais.

É como tomar chá.

Os mestres zen, ensinam que tomar chá é uma meditação.
Pois bem. Deve-se tomar o chá e além disso só tomar o chá. Não é para conversar, relaxar, pensar na vida... é apenas tomar chá. Focalizar todos os sentidos na experimentação do chá.
Engraçado que a cozinha molecular desde a nouvelle cousine tem essa premissa de focalizar a experimentação nos pratos. Todo o ser do comensal é voltado para a deglutição comedida, mas intensa de sabores. Por isso, não há aquela saciedade pela saturação da gordura e do açúcar, mas um bem-estar de quem passou por um diálogo com algum mestre zen culinário.

sexta-feira, outubro 03, 2008

EPOPÉIA FAMILIAR


Duda e o batmóvel... papamóvel, papamóvel.



Estamos em Bauru na casa do meu pai. Ontem estávamos em Botucatu, onde passamos 12 horas com os pais da Lu. Felipe ganhou uma pista de Hot Wheels do tio dele. Aqui em Bauru tomou sol, comeu amora do pé, um pé carregado de amoras dulcíssimas que ele no início recusou mas depois se empanturrou. Brincou na piscina e o papai aproveitou e deu umas braçadas.
Daqui a pouco pegaremos um ônibus e às 22:00h estaremos em um apartamento em São Paulo. Amanhã às 18hs. estaremos em Curitiba para no domingo, dia de eleger o prefeito, estarei apresentando o Visitantes Incomuns no Piá.

Procurava por caixeta, a madeira mole, boa de esculpir que o índio do litoral usa para fazer uns bichinhos para vender. E os caiçaras, as violas e rabecas brancas do fandango.
Procurei pela internet, no google, e a busca só dava na família Caixeta e na caixa preta dela própria, como soi repetidamente um candidato a prefeitura de Curitiba.

O pessoal do Sobrevento deu a dica de procurar na Rua do Gasômetro, onde assenta uma dezena de lojas de artefatos de madeira e madeira em geral. O que encontrei por lá foi só a madeira genérica para construção.
Havia passado a manhã com o Luiz André na Santa Efigênia. Só bisbilhotando. Vendo os caras procurando caixas de som, fiquei louco de vontade de trocar a minha velha Staner. Almoçamos buchada, costela cozida e uns bifes de contra-filé mergulhados em alho crú. Meio lesado, fui à pé até a rua do Gasômetro. No caminho comprei uma serra, chaves de fenda e uns 20 metros de pano para fazer boneco e uma agulha de disco para vinil... Daí fui procurar a caixeta com todo o peso das compras dentro de uma mochila, nas costas. Andei, andei, andei, curitiboca que agora sou, debaixo do sol das 15h. sobre a capota, e nada. Ninguém tinha e mandavam para outra loja que também não tinha. Enquanto andava, cheio de esperança, pensei que deveria comprar uns metros de corda para prender os epdaços de madeira, facilitando o transporte. Mas o quê? Mais peso na mochila?

Já estava ficando meio puto. Decidi sair da Rua do Gasômetro e peguei uma transversal. Ví uma marcenaria e perguntei para uma moça sobre a caixeta. Orientação profissional! Ela indicou uma madereira rua abaixo. A primeira, a segunda e acertei!
O seu Francisco vendia a caixeta, mas só a viga inteira. Havia uma viga de 3 metros. A menor. R$30,00. Três metros de viga até Curitiba...!!!...?.?.? Será? mas quando vou voltar alí. Melhor comprar.... Será? Comprei.
Serraram a viga em três pedaços. Pedi para fazer um fardo e o cara amarrou uma fitinha de plástico. Fez uma alcinha e andei com aquilo 2 km. até a sede do Sobrevento, debaixo do sol das 15:40h. No cominho, procurei por uma corda e nada.
Quando cheguei na sede vi um supermercado e uma loja de ferragens. Nem entrei, fui direto para a sede. Larguei tudo por lá, voltei comprei um litro de água e 4 metros de corda. Deixei um pedaço de caixeta com os Sobreventinos e fiz um amarrado com meus dois pedaços, que ficou tão bom que nem peguei um táxi. Voltei de metrô...

E para variar...

Não, deixe-me contar do início.

Chegando na estação metrô D. Pedro II (ou seria o I?), com a mochila cheia e os pedaços de caixeta, ví aquela multidão entrando pela boca da estação. Um regurgito inverso. Chiii, pensei, a maldição dos Del Giorno vigorando... passando a catraca, cadê o povo? Desapareciam para sei lá onde?! Desci as escadas, seguindo os gatos pingados. Trem normal e eu com a mochila cheia e os tocos do lado. o pessoal saia de perto, dando mais espaço ainda.
Na estação Sé é que o bicho vai pegar, pensei.
Que nada!
Não estava vazio, vazio, mas no meio do caminho fui sentado segurando aquelas toras de caixeta. 17:30h!!!!!!!!!!
Muvuca mesmo peguei no lotação, o microônibus até o apartamento. No lotação uma garota gentil ofereceu-se, insistentemente, para segurar a pesada mochila com parte da carga. Declinei. Ela gentilíssima insistiu. Falei que ela ia "se machucar" porque estava carregando ferramentas e tudo mais. precisava ver o rostinho frustrado da moça!!!
Daí um homenzarrão dá uma encochada em mim, para falar com o colega que estava sentado no fundo do lotação.
Acho que não havia cunho sexual, apenas a ansiedade para comversar com o amigo, fazia o homenzarrão se jogar sobre mim... enfim. Inspirado pelos mais puro desejo de harmonia cidadã, perguntei: vamos trocar de posição? Putz, foi constrangedor, mais foi bom para todos os envolvidos. Trocamos e o cara agradeceu! Tres gentilezas num mesmo percurso!! Estou no céu do bom convívio.
O amigo do homenzarrão saiu do carro e o homenzarrão ofereceu o lugar vago!
Quatro gentilezas!
Ah, vou elogiar...claro que vou.
Tudo bem que o emo do lado continua a pisar o meu pé e virar a bundinha anorética contra minha mão...irghh!
Tudo bem que uma mulher parou atrás de mim bem na hora que eu ia sair e iria fazer meu memorável discurso sobre a abundante civilidade nos grandes centros...
Bom, tento de um lado tem o emo, tento de outro, as cadeiras. Sair de ré? Tem amulher...ah, virei meus tocos pro lado e sai da frente, galera, que eu quero é sair!!!!
Tchau, gente até nunca mais!!! Seus pobres! Porque não compram carro?