terça-feira, setembro 30, 2008

O TEATRO NÃO É A SALVAÇÃO DOS TÍMIDOS



Visitantes Incomuns, no Teatro do Piá, 05/10 11h.





Estou em São Paulo, em um laptop que não é meu, por isso...
As pessoas falam, o Sérgião e Vanda disseram, mas até agora não peguei um, nenhum metrô cheio!
Ontem 19hs., estação da Sé: vazio! Viajei sentado. Por isso, o tal colapso dos transportes na capital paulista é pura neurose de paulistano. Coisa da mídia, para vender mais jornal e revista. Para dar lucro aos promotores de evento que patrocinam os debates nas centenas de espaços e auditórios espalhados nessa mancha urbana e sem fim provocada por 90 milhões de seres humanos...afe...

Ontem, também, almocei no Instituto do Princípio Único, onde se serve a melhor comida macrobiótica daqui. Lá na pç. Carlos Gomes, na Liberdade. Cara de cantina familiar, as moças e muitos dos freqüentadores aparentam estar no último nível da força. Parecem doentes, e podem estar . A macrobiótica promete cura para o câncer e qualquer doença crônica e aguda, desde que se siga á risca, suas orientações dietéticas. Por outro lado, a comida, aparentemente simples, tem o preparo extremamente requintado. É saborosa.

Tá.
Na cozinha, havia umas velhinhas lépidas, espertas e com cara satisfeita. Uma moça, como sempre (vou lá desde 1980), tinha a cara desanimada e cansada. Era indecisa.Uma velhinha montava os pratinhos de legumes que acompanham o fabuloso arroz integral, mas teve de largar o serviço. A moça assumiu , pegou uma panela e desistiu, enquanto a fila acumulava. Preferiu mandar todo mundo para as mesas, começando beber a sopa e comer o arroz, prometendo levar os legumes depois.

Mastigando 50 vezes cada bocado do meu arroz, formulei a seguinte questão e a posterior conclusão:

Nas aulas de teatro, deparo constantemente com gente que declara ser tímida. É preciso seduzir essas pessoas, existe um ritual longo que antecede sua participação efetiva nas aulas.
O que em resumo, consome 60% das aulas. Tempo que seria aproveitado para mais exercícios, mais informação. Os tímidos prejudicam até quem é mais voluntarioso, porque não se pode abandonar ninguém, só por ser tímido. É a lei do pelotão: ninguém será deixado para trás!!!!!
Há aqueles que se dizem tímidos, só para fazer charme, quando na verdade estão loucos para se atirar. Vejo muito isso. E perdeu-se uns bons 10 minutos nessa frivolidade, numa aula que dura 2 horas.

Que energia é essa que trava o mergulho das pessoas?!

Ainda havendo o debate interno, o titubear, o vai-não-vai, é muito bem-vindo. Mas imobilizar-se completamente!

O artista não é destravado.
O ator não se lança completamente.
Há um limite. Existe a dor inconsolável. O território obscuro onde jamais se deve voltar. Ali, o explorador sem-medo e incauto, palmilhou em alguns segundos de curiosidade e foi terrivelmente magoado.

Sim. O artista tem limite, senão produziria uma obra caudalosa e diária.

Semana passada estive numa cidade do interior do Paraná e conheci uma menina de 20 anos que cuidava de uma senhora enferma. Passava o dia inteiro sentada, assistindo TV ao lado da senhora. Saía do quarto da TV para levar a paciente num lugar a outro da casa onde só se ouvia o monólogo da mulher enferma.
Não é um destino terrível cuidar de pessoas doentes. Mas assistir TV o dia inteiro ouvindo monólogos, é. Disseram que essa menina queria ser freira e veio até São Paulo para ser admitida num convento. Foi rejeitada pela compleição inerte. Digo que sua aparência é passiva na possibilidade de que suas entranhas devem se revolver.

segunda-feira, setembro 22, 2008

CARACTERIZAÇÃO DO PERSONAGEM

Desculpem!
Eu falei que o Brian Ferry tinha língua presa.
E que ele, por causa disso deveria ser modelo, posar para fotografia.
Nunca gravar disco etc.
Pura maldade, claro!
Se ele acha que pode gravar discos e se eles vendem pra caraco, quem sou eu para dizer o contrário? Aliás que valor tem o comentário de um nipo-brasileiro dizer se ele deve ou não mudar de profissão?
Aliás estou ouvindo agora o Brian Ferry no mp3 enquanto escrevo isso aqui...
Ouvindo as deliciosas músicas da minha juventude... cantadas com a língua presa que eu pensava ser sotaque...

Qual o problema do cara ser fanho e fazer teatro?
Nada, desde que faça papel de fanho em comédia, ora!

Qual o problema se ele for anão fé quiser fazer o papel de um líder histórico?

Se ele não estiver preso ao próprio clichê do seu nanismo físico, pode, não pode? Sem metafísica alguma.
Quem disse que os líderes eram gigantes? Hitler era um anão. Santos Dumont, Ho Chi Mi, Lênin, César devia ser um hobbit; Kublai Khan era. Todos os samurais eram pequenos... Como sempre, depende. E dependendo, sempre pende para a limitação de talento, do cara. Ou seja querer nem sempre é poder.

Que posso fazer?
Preconceito estético, limitado senso se avaliação. Mas a verdade é que certas posições, decisões, são intoleráveis.
Eu por exemplo. Jamais faria o papel de Júlio César. Acho que Aníbal até não sairia feio. Mas como ficaria Jorge Miyashiro de Oscar Wilde?

Foi assistindo Mahabharata do Peter Brook, e testemunhando Vitório Mezzogiorno como Arjuna, que veio a luz de que tudo em teatro é possível! Se um branco latino podria ser um guerreiro hindu, porque o contrário não seria interessante? Jesus negro em Auto da Compadecida, não ficou legal?
Mas nem sempre é assim.
O físico limita e a falta de versatilidade mais ainda.
Já no teatro de bonecos, sinto-me um pouco mais livre.
No TB já fui uma mãe índia Karajá, Heitor Villa-Lobos, Mozart e um macaco azul...!
Já fui monstro, negro, samurai, mestre de kung fu, Dionisos, Lilith...

Mas jamais fui Tarcísio Meira nem Édson Celulari.

O que quero dizer é que posso me transformar em qualquer um e em qualquer coisa na mitologia e no sonho do mundo, mas não posso ser um mítico flagelo diário dentro das casas de milhões...

Isso foi maldade...
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DANDO A MÃO

Por falar em processo criativo estou entrando em um.
Uma estudante de artes plásticas da UNESP mandou-me um email pedindo algumas impressões sobre este estado estético, em que o artista se empenha e emprenha de energia criativa para a realização da obra...

Estou começando pelas mãos.
Mãos de bonecos.
Há dois meses, cortei uns 26 cubos de um grande bloco de isopor, não muito tão adensado, para fazer treze pares de mãos. Um estoque para o espetáculo seguinte ou uma encomenda.
Com estilete dei os primeiros cortes em todos e ficaram até agora parados em um saco plástico, pendurado numa prateleira. Depois disso viajei, tratei de outras coisas, sempre lembrando que queria arrumar uma caixa de papelão para proteger as “mãozinhas”. Nunca lembrei de pegar essa caixa.
Antes de ontem decidi que deveria voltar a trabalhar as mãozinhas. E procura, procura , já estava desencanado quando encontrei o saco. Havia um monte de coisa em cima. Nem sei como não quebraram!

Comecei a trabalhar, detalhando mais as esculturas. Vou fazendo a coisa meio seriada, para manter um padrão mínimo. Vou cortando até um certo ponto. Para não perder a sequ~encia de cortes. Mas estou querendo desistir... Os blocos ficaram grandes. As mãos estão imensas!
É que eu estava pensando numa comédia, mas agora quero fazer algo mais poético. Além do mais vi um dvd do Yuen Fai, irmão do yang Feng e voltei a vibrar pela luva chinesa.

Fazer mãos é um saco.
Fazer cabeça não. É mais legal. Esculpir as expressões. Cabeça é tudo no boneco.
As mãos dão um trabalho fazer dedinhos, cobrir de tela e cola, lixar os cantinhos. Nunca fica bom. E depois, no boneco as mãos nunca ficam naturais. Fica aquela coisa espichada. A gente queria que fosse expressiva , mas ela fica parecendo uma alfineteira.

Sempre tive trabalho com as mãos.

Sempre estou refazendo o conjunto de mãos.
Eram fechadas, em punho, mãos de fantoche chinês.
Depois abri um pouco mais. Ficavam entreabertas.
Hoje estão espalmadas. O problema é quando o boneco tem que pegar alguma coisa. Vai sempre pegar com o pulso. É muito difícil encaixar uma mão esculpida em algum objeto. Não sou tão organizado assim. Faço o boneco, e depois faço os adereços, sem medir, nem calcular nada. Se encaixar , encaixou. Para pegar pega com os pulsos mesmo, dane-se!!!

sábado, setembro 20, 2008

JIU-JITSU, FAMA E DECEPÇÃO

Terminando de ler a biografia de Carlos Gracie, o patriarca da família que desenvolveu a renomada e controvertida escola de Jiu –Jitsu brasileira. Nenhuma boa recepção é boa para o que é novidade. Só se for aumento de salário. Quanto mais uma idéia que aprimore uma arte. E se o “mestre” apoiar-se sobre rigorosos princípios, aí a grita é geral... E se o cara envergar uns pecadilhos curriculares, vixe!!! Fogo do capeta!
Minhas impressão ao ler o livro:
- não fiquei com vontade de aprender Jiu-Jitsu;
- o Carlos Gracie foi da pá virada;
- o Carlos Gracie sabia agarrar uma oportunidade;
- respeitava e agora respeito mais o Carlos Gracie;
- o livro é um toco de grosso e quando está cansando, aparece uma passagem interessante.

Sou contra a pirataria dos dvds de filmes, cd etc... mas...
É certo quando você quer assistir Vestígios de um Crime, com Samuel L. Jackson; comprada pela locadora há 2 meses, você não consegue achar o filme na prateleira?
É certo que o Brasil seja um dos últimos países a receber o lançamento em dvd, mas é um dos primeiros a receber o lançamento em cinema?
É certo pagar R$60,00 por um lançamento em dvd, sendo que depois de 1 ano o preço cai para R$12,00?
E que na banca do pirata você pague pela cópia R$5,00?
E que todos esses truques da indústria é chamado estratégias de venda e o truque do pirata seja chamado crime?

Ainda bem que vivo numa democracia , e posso filosofar!

Falando em demo...
Estou adorando o atual pleito para prefeito no país.
Que limpeza (nas ruas)!
Que silêncio (bem mais que no passado)!
Agora não poder declinar sua preferência por tal e tal candidato no blog?!
Pô, o blog é que nem muro da própria casa, muro no quintal, nos fundos da casa.
Para ler é preciso subir no muro, espiar... Ninguém “passa” pelo blog. Vai e lê quem está imbuído (não tenho outra palavra) pela própria vontade. Agora postar num portal do Ig, Hotmail, Uol, aí acho que é outra coisa.

Juízo juiz...

Estava lá no começo da rodovia 277, apresentando pela Rede Sol na Escola Ecumênica, onde conheci a Musse. Uma simpática professora que de cara veio falando que lia este blog e era minha fã!!!!
Isto é espantoso, porque quem está acostumado a levar a vida e os títeres pelas trilhas e estradas inóspitas deste mundo afora, não escuta muita louvação e elogio admirado. Um “legal” bem sem-graça já é um diploma de qualidade! “Sou seu fã” dá medo. Parece que a pessoa vai ficar ligando todos os dias e por fim, frustrada, aparece do nada com um punhal na mão... Claro, que não a Musse! A Musse é um doce de pessoa. Uma sobremesa de chocolate!!!

Certa vez, estava em Canela-RS. No festival de lá em 1997. Apresentei “Surpresa” com o Manoel Kobachuk. Foi uma apresentação conturbada. No Rio Grande, os técnicos não tem muito cuidado com quem sobe ao palco. O pessoal técnico de lá, dá umas pisadas na bola, tem a mão meio grossa... e eu que sou meio ressabiado, fico pensando o que é que eu fiz de errado para aquela pessoa.
Enfim.
No dia que apresentamos no festival, havia umas 20 a 30 pessoas no palco, mexendo sei lá o que e passando fio para tudo que é lado. Perguntamos onde era a fonte de força e indicaram uma tomada.
Pluguei.
Na hora do espetáculo, vou dar o clique no som, cadê a força????
Nunca havia visto aquilo.
Num festival!!!
Gente do Brasil inteiro, do mundo inteiro! David Sirotiak, Augusto Bonequeiro, Magda Modesto, Hugo Soares, Jesus Cristo, Buda, Yang Feng, o presidente da república e o financiador que pagaria o cachet... todos viram que meu clic não deu clic.
Manoel no palco improvisa, vê que não viria o som e foi para trás, procuramos outra tomada e veio a luz, ou melhor o som.
Óbvio que fiquei abalado e que errei outras cenas.
No final recebemos os aplausos, fui direto para o fundo da empanada. Alguns amigos vieram me cumprimentar e me encontraram convulsionado de choro, que nem um piá de 6 anos perdido no supermercado.
Putz, não desejo isso pra ninguém.
Isso para contar que a vida prossegue e fomos assistir um espetáculos do festival. Entramos eu, o Manoel, O Evaldo Barros e o Márcio na sala e sentamos. Daí veio um cara pedindo autógrafo, um colega de lá de Porto Alegre. Achei que o cara estava tirando uma, devia estar. Mesmo assim dediquei uma assinatura.
Ele pegara gosto pelo clown que eu fazia no Surpresa. Tinha umas técnicas de mímica e por sinal, o espetáculo que fizera mais sucesso em Canela, naquele ano, foi o “Cuentos Pequeños” do Hugo & Inês, mímicos.
Mas o cara devia estar chapado, só podia estar...

MINHA AGENDA FEÉRICA

Semana que vem estarei em Rolândia-PR, norte do estado para uma série de apresentações do LUVAZINE destinadas às crianças de uma creche de um bairro carente. Dias 25 e 26 de setembro. A convite da Maçonaria local.
Não vou receber cachet algum, apenas pedi duas passagens extra para a Luciana e pro Felipe. Com dois anos esta será a primeira viagem aérea do meu filhote. Vai voar de avião que ele diz ser “gioooo, gioooo, gioooo....”. Todo onomatopéico, giooo é o motor do avião!

domingo, setembro 14, 2008

ORLANDO FURIOSO

O Grupo Sobrevento prepara a estréia paulistana de Orlando Furioso. Por enquanto faz apresentações na região metropolitana de São Paulo, para fazer ajustes no espetáculo.
Sobre a obra de Ariosto, o Sobrevento recebeu das mãos de Eduardo Amos (o obscuro mestre do Truks e Cidade Muda) um texto incompleto. Pesquisando, descobriram um épico sobre as Cruzadas, “uma novela inteira!”, como disse Sandra Vargas.
Escolheram o puppi siciliano, pesados bonecos tradicionais da Sicília para encarar o Orlando Furioso.
Na sede da companhia, um pequeno galpão no Brás, pude ver esses bonecos. Esculpidos em madeira caixeta, haste de aço presos na cabeça, um fio ou dois atados na mão. Alguns bonecos preparados para a guerra ostentam armadura, escudo e espada, e são preparados para o choque de uma escaramuça.
Durante o ensaio, tentei dar um “palpite” sobre a manipulação de algum boneco. Achei que deveriam, somente por um momento, suavizar o gesto, dar um tempo para digerir o texto. O “palpite” foi rechaçado! Não querem arriscar fazer um espetáculo parado e chato.
Informe-se em www.sobrevento.com.br

Infelizmente, saí no meio do ensaio para um jantar grego, num restô do Bom Retiro, o Acrópole. Na verdade é um boteco, ou aqueles restaurantinhos portugueses, em que o dono é um velhinho. E o dono do Arcádia é também um velhinho. A entrada foi uma salada mediterrânea, simples, mas com um pãozinho, uma lula e uma azeitona digna de um jantar olímpico! O carneiro estava passável...

No dia seguinte visitei a Cooperativa Paulista de Teatro.
Em 92, conheci a sala da CPT na Major Furtado (acho...). Parecia banca de despachante fim de carreira. Hoje, tem recepcionista, baias de tele- atendimento, um monte de funcionários. Eles compraram um andar inteiro num prédio perto da pç. da República. Virou potência.
O Luiz André falou que ali em Sampa, os artistas conseguiram se unir e dialogar pensando num projeto futuro. Abdicaram de magoarem mutuamente, coisa que ainda é corriqueira aqui em Curitiba. Portanto está longe, muito longe, a chance de alguma coisa funcionar direito no coletivo paranaense.

Voltei ao galpão do Sobrevento, e estavam arrematando um projeto de apresentações nos parques da Zona Leste. Tentei me enfiar, mas não deu. Eles estavam trazendo gente do interior de São Paulo, Belém e de outros lugares. Trabalho, trabalho e mais trabalho.
O Anderson Gangla, mostrou-me uma cabeça de puppi esculpida em caixeta in natura. Fiquei louco de vontade de experimentar trabalhar caixeta. Achava que era muito mole, como balsa, mas não. Bastaria dar uma cobertura firme de cola e intertela que ficaria um aço!
No entanto, como é madeira protegida, não consegui achar a menor pista de onde conseguir uns cortes de caixeta. No google, só dá uns tais de Caixetas, que fizeram de tudo nessa vida e não os quereria como amigo...

São Paulo é tão São Paulo, que até os produtos da pirataria são de melhor qualidade. Achei Kung Fu Panda, Homem de Ferro, O Cinturão Vermelho (David Mamet) com menu , assistíveis e impressão na face do dvd, com o mesmo preço do terminal da Santa Felicidade. Coisa de São Paulo.
Ah, você é a favor da pirataria? Não! Mas também não sou a favor dos lucrativos golpes industriais que restringem o consumo justo.

São Paulo continua a ser aquela nau que deveria ter naufragado na virada do milênio. Onde se tem o pior da vida, e onde se pode conseguir tudo que uma vida tem de melhor.

O INDISCUTÍVEL GOSTO, OU O DOCE QUE AMARGA

Numa oficina de fundo de quintal, entre prateleiras velhas, ferramentas enferrujadas, burilando a madeira e iluminado pela luz sépia do fim de tarde. É assim que quero terminar meus dias.
E quando morrer havia pedido a minha esposa para tocar Slave To Love, do Brian Ferry. Isso foi há uma década atrás. Essa música já foi tema de alguns casamentos, não sei por que traz alguma boa lembrança. Aliás, esqueci que boa lembrança era...
Com o tempo, o inglês da gente melhora, a audição ensurdece e fica mais seletiva; o pouco que se ouve se ouve com mais rigor. E percebo como nunca percebi que o Brian Ferry tem língua presa. Sem falar que nunca dá crédito aos extraordinários músicos que o acompanha e encobrem suas tremendas limitações musicais. O cara é cheio de bossa e estilo. Se veste bem, devia ser modelo e só.
Resultado é que estou sem trilha sonora para meu funeral, a menos que minha esposa me falhe e esqueça que risquei essa música do meu testamento e me faça pagar um mico: ser um porre até depois de morto...

Uma que está durando é Bizarre Love Triangle, do New Order. Tinha uma tecladista superclean, caladinha, boquinha, timidinha, um amor. O vocalista tinha uma impostação indefinida,que um monte de gente daquela época fazia, meio Jerry Lewis com Donald Duck. Dava ênfase nas últimas vogais. Mesmo assim consigo achar bonito... são temas que marcaram época. Pode acreditar quando digo que ouvi essa música ad nausean, num cruzeiro nas Bahamas. Estava em Miami onde comprei meu primeiro e único walkman e três fitas k7. duas do Cocteou Twins e o do New Order. Conhei duas irmãs gregas de São Paulo, a Sofia e a Ana. Parece óbvio, mas foram duas musas que tocaram meus centros de prazer e deleite.

Daí aparecem os doutores. Cheios de opinião e palpites a dar.
Funciona assim. Tem um carinha cheio de idéias, mocinho. Os doutores batem o olho no cara e se apaixonam, logo elegendo-o pilar central da cultura mundial. Falam coisas do tipo, “... e o Brasil com tantas cabeças como essa não tem o devido reconhecimento”. E o carinha acredita que está armado e municiado para encarar o duro batente de limpar a latrina cultural do mundo e oferecer seu vantajoso produto cultural. Crítica é paixão, tesão e viadagem enrrustida.
Doutor é que nem padre. Uma relação que tem um preço.

quinta-feira, setembro 04, 2008

VISITANTES INCOMUNS



Acervo da Fundação Cultural de Curitiba

FOME DA PEQUENA FAMA

Tenho um sobrinho de 11 anos, em São Paulo, que vira para os colegas diz, "meu tio é famoso!" Claro que apesar de famoso os coleguinhas do meu sobrinho não foram tocados pela iformação da minha fama. Isso aconteceu porque a TV Sesc deu-me o privilégio de registrar imagens e algumas opiniões no programa Balaio Brasil, em 2003, acho. Por mais inacreditável que seja, meu sobrinho fez parte da audiência desse programa e para ele tornei-me digno de configurar no panteão da fama.
Pode-se escreveu um tomo partindo dessa premissa de que a fama é relativa.
Numa longa viagem de São Paulo a Bauru, passei cinco horas ao lado de um marceneiro, radialista pirata e locutor de festival de rock´n roll indy. O cara se disse famoso, pois, apareceu no canal 48!!! Um canal da vhf paulistana. Desculpe, mas eu não o conheço; e virei de lado, forçando um fio de baba no canto da boca, fingindo dormir...
Claro que eu gostaria de ser mais reconhecido. Não muito. Não a ponto de, sentando na mesa do boteco, parar de contar uma piada porque tenho de dar autógrafo, ou ouvir que fulano tem um projeto que é minha cara. Na verdade acho que só queria o dinheiro que a fama trás. A fama eu daria para outra pessoa.

Estreei o VISITANTES INCOMUNS em Curitiba, no Teatro da Maria.
Foi uma ótima primeira apresentação. Poucos erros. Preciso aumentar o repertório de coreografias de manipulação dos bonecos e refazer alguns defeitos na trilha.
O público.
Comecei com sala cheia. Metade da platéia ficou. Outra saiu no meio da peça. alguém disse: - ...tão conceitual que nem as crianças entendem."
Da minha parte nem eu quero entender. Mas fico imaginando o que pessoas desse tipo vem fazer num teatro gratuito na periferia da cidade?!
O que desejam está nas grandes salas cujo ingresso é R$20 ou R$30,00!
Alí, temos a oportunidade de pesquisar ou experimentar novas formas de linguagem bonequeira, pagos pelo edital da Fundação Cultural, cujo resultado é oferecido à população sem custo direto. E foi o que fiz.
VISITANTES INCOMUNS é a obra máxima da Miyashiro Teatro de Bonecos. Foi o melhor que pude fazer até hoje. O espetáculo é franco, direto e sincero. Não há excessos, gordura e hipocrisia. O tempo de duração de 40 minutos é onde consegui chegar.
A trilha composta por Rodrigo Grigoletti é um jazz inspirado, construido para dar suporte e não competir com o espetáculo. Justo, métrico e belo!
Sem palavras, cada gesto dos bonecos exprime um sentido.
É uma peça sem arroubos, gritos e artistas desesperados em não perder a atenção das crianças e acompanhantes.
Nele há elegância, discrição e delicadeza.
Não me interessa esse público muquirana que se entedia com cenas elaboradas.
Afasta de mim essa gente!


Hoje não tenho frase de efeito