quinta-feira, dezembro 04, 2008

ORLANDO FURIOSO

O Grupo Sobrevento enviou essa merecida reprodução da crítica publicada no blog Cacilda!, pelo Nelson de Sá.
Como já escrevi, tive a oportunidade de ver alguns preparativos e um oitavo de ensaio da peça orlando Furioso. Em breve espero assistir.
Enquanto isso, o sucesso permeia mais uma produção deste fantástico grupo, a quem tenho a honra de ser amigo.


A temporada de nosso novo espetáculo, Orlando Furioso, vai até 21/12/2008. Estamos em cartaz no Centro Cultural São Paulo, às sextas e sábados, 21h, e aos domingos, 20h.
Aproveitamos para divulgar o comentário de Nelson de Sá, publicado no blog Cacilda, da Folha de São Paulo.

02/12/2008

Orlando Furioso

Até o Sobrevento, a única imagem que eu guardava de "pupi", os desajeitados bonecos sicilianos, vinha da segunda parte de "O Poderoso Chefão" _quando o vilão don Fanucci vê uma apresentação na rua, comenta que é "muito violenta" e caminha pela festa católica até seu prédio, onde é assassinado por Vito Corleone ou Robert de Niro.

No dia em que fui ver "Orlando Furioso", encerrada a apresentação, o diretor, intérprete e manipulador Luiz André Cherubini não só convidou o público a conhecer e manipular ele mesmo os bonecos, mas explicou como funcionam e são feitos, um pouco de sua história, seus limites em relação aos bonecos modernos.

Foi uma breve aula prática, que fez com que me envolvesse no assunto, depois, até compreender que "Orlando Furioso" e os "pupi" são bem mais ligados do que parecia. Se juntei bem os pontos, a violência de Orlando e dos paladinos cristãos de Carlos Magno são a própria razão da rusticidade e dos movimentos bruscos dos bonecos sicilianos.

Mas não fui ao Centro Cultural pelos "pupi". Estava em outra fila, uma semana antes, quando vislumbrei na porta de entrada para o Sobrevento, também na fila, três monges. Vestiam batina preta, sandálias, um era mais gorducho, outro jovem. Estavam lá por Ariosto, pela Idade Média, a Igreja Católica, algo assim.

E eu vinha de assistir à "Mandrágora" de Maquiavel, pelo Tapa, no teatro de Wolf Maya. E era naquilo que queria continuar.

(Acabei vendo mesmo a outra peça do Centro Cultural, já havia comprado ingresso. Mas foi bem pouco estimulante, algo que selecionei por ser de algum lugar do Nordeste e se inspirar em Brecht. É o vício por diversidade, que já passou dos limites.)

Precisei esperar o outro fim de semana para encontrar Ariosto e sua crítica relativamente amena, se comparado a Maquiavel, à hipocrisia cristã. Mas ela está lá, no Orlando que rejeita covardemente seu grande amor para atender ao imperativo da fé cristã e do rei sacro, mas não suporta, deixa tudo e corre pelo mundo, até se ver "furioso", louco.

Além da paixão frustrada de Orlando e Angélica, que é também o coração do poema original, a encenação sublinha o conflito de cristãos e "sarracenos", aparentemente para criar pontes com o contemporâneo choque de civilizações, Iraque, Palestina etc. Mas nem era preciso carregar tanto.

Na própria história de amor, criada na Idade Média já a caminho da Reforma e da Contra-Reforma, está o questionamento de Ariosto não só às ordens do sacro império franco, mas a Deus e Roma _ainda que o poema tenha sido dedicado a um bispo, que pouco se deixou tocar.

O que mais permaneceu do espetáculo, por outro lado, foi a impressão deixada pelo rigor e pela riqueza do Sobrevento. Eu já devia saber que não tenho mais paciência para a diversidade em si _e que é a amplitude generosa de trabalhos como "Orlando Furioso" que mais instiga, que estimula a seguir novos ou até rever caminhos esquecidos.

Da música que dinamiza a cena ao cenário engenhoso de André Cortez, que ajuda a trazer para o presente o que poderia ser excessivamente respeitoso, até museológico, a peça vence as limitações eternas do porão do Centro Cultural _e ultimamente a falta de funcionários, o abandono das salas etc. É um espetáculo nada nada século 16, como o poema, ou 19, como seus bonecos.

Também importante, para tanto, é que Sandra Vargas, o próprio Luiz André, Maurício Santana e Anderson Gangla preenchem com veia cômica bem desenvolvida quase toda a apresentação. Para não falar da habilidade na manipulação de objetos tão pesados, com seus duelos de espada, suas cabeças cortadas.

Escrito por Nelson de Sá às 23h30

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