segunda-feira, dezembro 29, 2008

FUI AO ORLANDO E FOI BOM!


Cena de Orlando Furioso, Grupo Sobrevento, SP/2008



Fui à última apresentação da temporada 2008 de Orlando Furioso, do Grupo Sobrevento, no CCSP.
Trata-se de uma grande produção (para teatro de bonecos), 4 atores-manipuladores, 4 músicos, o sonoplasta e o iluminador.
Orlando Furioso é uma obra de Ludovico Ariosto, a primeira vez que ouvi sobre ela foi na aula de História, na 6ª série, aula sobre o Renascimento, muito en passant, na verdade não li porque o livro nunca esteve disponível nem em biblioteca, muito menos nas prateleiras. Não havia nada de Aristóteles (grego clássico, muito lido na renascença), Maquiavel (20 anos depois li O Príncipe), Gargantua e Pantagruel (Li os dois mas esqueci o autor, antecipou Macunaíma ou talvez fosse descaradamente plagiado pelo Mário de Andrade), Moliére... e por ai
Mas sobre o Orlando do Sobrevento, para mim, essa produção será um marco no teatro de bonecos brasileira, pois trata-se de um legítimo épico. Da mesma forma que há um Bunraku-Zá em Osaka- Japão, um símbolo para os japoneses, o Sobrevento aponta para uma maturidade a ser seguida por outros grupos nacionais na montagem de obras robustas ou os chamados “clássicos” objeto de desejo de todos os atores para alcançar a fase adulta em sua carreira. Resta esperar para ver se é vontade do Sobrevento em tornar-se símbolo nacional, tesouro imaterial e todo esse tipo de coisa.
No entanto há o notório desequilíbrio técnico entre os componentes do elenco, que, resolvi, em minha companhia tornando-se solista. Este desnivelamento das capacidades , fruto, talvez, da diferença etária ou da bagagem de experiências e aprendizados. Luiz André e Sandra Vargas apresentam performance segura nos momentos solos; Luiz André canta uma canção á Orlando Silva com inesperado controle físico e domínio da voz; os meninos ainda estão inseguros: ainda tem medo de errar, ainda não “atiraram-se”, precisam apropriar a parte que lhes cabem neste minifúndio (tratando-se por teatro de bonecos) . Entretanto a melhor manipulação é de Maurício Santana, que manobra o Rei Carlo Magno. Há uma bem equilibrada distribuição de ímpeto e sutileza em sua manipulação. Embora, a direção de Luiz André defenda que o puppi siciliano (ou napolitano) peça o emprego de força, para não entediar o público,Maurício aplicou fúria, ímpeto, pausa e sutileza quando necessários sem causar tédio e brilhando com dignidade.
Tédio é uma sensação impossível em Orlando. Não há cenas contemplativas, tão caras a um pesquisador teatral como eu, leitor de Kierkegaard (mentirinha!). Fúria e ímpeto estão presentes em todo espetáculo. É o motor de todos os atores. A trilha sonora executada por quatro “ciganos” embalam tudo num louco frenesi, numa urgência, arrebatadora e implacável, sem permitir reflexões e titubeios. Esse furor impetuoso, desencadeia uma poderosa energia nos atores, empregada desde em segurar os pesados bonecos de ferro e madeira, até na correria dentro do “submarino” do cenário principal, uma imensa caixa de compensando, que é deslocada, para apresentar a face onde ocorrerá a cena. Os atores a fazem girar em si, de um lado a outro, em seguida, desaparecem em seu interior, para a manipulação dos bonecos, retornam para a cena de atores vivos, giram a caixa-cenário e desaparecem, e reaparecem...
Não fiquei com vontade de fazer um espetáculo de puppi, com varas de aço, o fantoche continua a minha técnica predileta, mas continuo a afirmar, este espetáculo é um divisor de águas para todos nós, atores-bonequeiros.

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