quarta-feira, dezembro 17, 2008

CONFERÊNCIA INTERNACIONAL MOSCOU 2008

Traduzi esta fala de uma conferencista em Moscou, que rolou em outubro deste ano. É sobre um assunto que já discuti por aqui. Bom divertimento!


TEATRO DE BONECOS PARA ADULTOS: NÃO EXISTE ALGO ASSIM.

Por ANNA IVANOVA-BRASHINSKAYA

Para todos os bonequeiros ao redor do mundo um show para crescidos é sinal de extrema audácia e dissabor profissional ao mesmo tempo.
Ambos sentimentos é resultado de um disseminado, talvez o mais disseminado de todos os equívocos de que o teatro de bonecos é um meio exclusivamente para crianças .
Mesmo na Polônia onde havia Tadeusz Kantor, mesmo na França onde há Philippe Genty, e nos USA onde há Peter Schumann e Julie Taymor – existe uma arte contemporânea que pode ser (mas não tem que ser) enriquecido pelo uso criativo, moderno e desafiador de bonecos, e, então se torna um teatro de bonecos em que a presença do boneco, especificamente, torna-o não-moderno, não-excitante, não-adulto, programa infantil.
Aquele ator bonequeiro que trabalha exclusivamente com público adulto, chama seu teatro de qualquer coisa, menos de bonecos. Teatro de figuras, ou de objeto,ou metamorphose, ou phantasmagoria, visual, experimental,mecânico, ou apenas outro - qualquer coisa que evite a palavra bonec que carrega o danoso estigma da infantilidade.
Na realidade, não há tal questão simplesmente por que não existe tal coisa como de criança, ou teatro de bonecos para adultos. Existe somente teatro de bonecos e não-teatro de bonecos, equivocadamente (incompreensivelmente) entendidos por alguns como para crianças
Incompreensivelmente, porque o não-teatro, disfarçado como para crianças é uma prática dominante no mundo dos bonecos. Em muitos casos é um teatro feito sem preocupações com a experiência psicológica existencial das crianças e suas carências, mas com o perverso, forçado, e o repugnantemente falso desejo de ser próximo a elas e, não obstante, mesmo com bonecos, em ser como elas.
Este é o pior cenário: quando o boneco é usado essencialmente como brinquedo – como o objeto de um jogo, não como a ferramenta do ator. O quê pode ser mais patético que adultos com a fala defeituosa, fingindo ser garotos.
Aparentemente, a presença de bonecos permite aos produtores classificar como teatro de bonecos, mas é um pensamento raso, e não corresponde ao significado de uma das palavras da expressão composta.
É claro, deve haver muita diferença entre um show destinado a garotos e outro para adultos, no sentido de que adultos são diferentes das crianças.
Mas essas diferenças não são relevantes na linguagem cênica (crianças, por exemplo, necessitam muito menos de inovação, porque elas, diferente dos adultos, apreendem o mundo pela repetição, não pela novidade) mas, nas singularidades da percepção de adultos e crianças. Crianças percebem as coisas como ganho; não há necessidade de justificar a presença da empanada para elas, enquanto os adultos não aceitam este necessário grau de convenção teatral, eles precisam de justificativa. Esta justificativa, se olharmos pelo nível básico das coisas, deve ser simples e singular: para os adultos, o boneco é aceitável plenamente quando ele atua em coisas que o ator vivo não poderia fazer. Isto é, quando transporta o assistente adulto para a região da impossibilidade, para o reino do conto de fadas, do mito. Isto não é, imagino, o mesmo que transporta as crianças? O fato de que para a criança o conto de fadas não é impossível, mas, pelo contrário, algo realmente possível, bem conhecido e sabido, não altera a natureza das coisas: o teatro de bonecos tanto para crianças como para adultos é a chave (ou talvez a fechadura) para o mundo mitológico, com o qual, nós todos lembramos dos textos dos livros escolares, a humanidade tentando explicar o inexplicável a partir dos primeiros passos. São somente crianças e adultos olhando através do buraco da fechadura por lados opostos da porta: crianças pelo lado de dentro e adultos pelo lado de fora- mas esta é a única diferença que há.

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