domingo, setembro 14, 2008

O INDISCUTÍVEL GOSTO, OU O DOCE QUE AMARGA

Numa oficina de fundo de quintal, entre prateleiras velhas, ferramentas enferrujadas, burilando a madeira e iluminado pela luz sépia do fim de tarde. É assim que quero terminar meus dias.
E quando morrer havia pedido a minha esposa para tocar Slave To Love, do Brian Ferry. Isso foi há uma década atrás. Essa música já foi tema de alguns casamentos, não sei por que traz alguma boa lembrança. Aliás, esqueci que boa lembrança era...
Com o tempo, o inglês da gente melhora, a audição ensurdece e fica mais seletiva; o pouco que se ouve se ouve com mais rigor. E percebo como nunca percebi que o Brian Ferry tem língua presa. Sem falar que nunca dá crédito aos extraordinários músicos que o acompanha e encobrem suas tremendas limitações musicais. O cara é cheio de bossa e estilo. Se veste bem, devia ser modelo e só.
Resultado é que estou sem trilha sonora para meu funeral, a menos que minha esposa me falhe e esqueça que risquei essa música do meu testamento e me faça pagar um mico: ser um porre até depois de morto...

Uma que está durando é Bizarre Love Triangle, do New Order. Tinha uma tecladista superclean, caladinha, boquinha, timidinha, um amor. O vocalista tinha uma impostação indefinida,que um monte de gente daquela época fazia, meio Jerry Lewis com Donald Duck. Dava ênfase nas últimas vogais. Mesmo assim consigo achar bonito... são temas que marcaram época. Pode acreditar quando digo que ouvi essa música ad nausean, num cruzeiro nas Bahamas. Estava em Miami onde comprei meu primeiro e único walkman e três fitas k7. duas do Cocteou Twins e o do New Order. Conhei duas irmãs gregas de São Paulo, a Sofia e a Ana. Parece óbvio, mas foram duas musas que tocaram meus centros de prazer e deleite.

Daí aparecem os doutores. Cheios de opinião e palpites a dar.
Funciona assim. Tem um carinha cheio de idéias, mocinho. Os doutores batem o olho no cara e se apaixonam, logo elegendo-o pilar central da cultura mundial. Falam coisas do tipo, “... e o Brasil com tantas cabeças como essa não tem o devido reconhecimento”. E o carinha acredita que está armado e municiado para encarar o duro batente de limpar a latrina cultural do mundo e oferecer seu vantajoso produto cultural. Crítica é paixão, tesão e viadagem enrrustida.
Doutor é que nem padre. Uma relação que tem um preço.

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