quinta-feira, agosto 14, 2008

AU GOSTO, EM ALCACU!

No mês do desgosto, tenho de admitir ser o melhor dos meses. Pois trata-se da efeméride niversariante de todas as leoninas e principalmente da minha esposa fascinante, adorável e pacienciosa de todas as minhas lunações.

AU GOSTO ocorre por aqui a afamada Corrida dos Garçons. A prefeitura fecha a Av. Manoel Ribas, em seu trecho mais bucólico, em frente à Casa dos Arcos, na Santa Felicidade, este sítio, ápice do triângulo de Alcacu.
E como um evento local, a corrida dos garçons é um retrato da corrida desses profissionais de um restaurante a outro, de um boteco a outra lanchonete. É assim a vida por aqui. Gente servindo comida fria, fora do ponto, sem variedade, temperada em excesso.
Os estabelecimentos daqui, apesar de sempre lotados. Estão sempre no vermelho. Dão calote nos fornecedores, algumas vezes nos empregados e não pagam o aluguel ou outras contas. Pertencem ou pertenceram às famílias pioneiras daqui.

Os garçons orbitam entre a Casa dos Arcos até um café em frente da única banca de jornais da região. Ali encontram os colegas, azaram as colegas ou quando estão desempregados esperam uma oportunidade no próximo restaurante.

O dono do Pic Nic se candidatou a vereador. De vez em quando bebemos eu e Del Giorno, umas serramaltes por ali. Pensei que talvez fosse uma chance de bater um papo com o futuro vereador para que acrescentasse em seu projeto político a inclusão de equipamentos culturais na Santa Felicidade. Talvez um acordo com a Fundação Cultural em viabilizar algum espaço da prefeitura, sei lá. Afinal, até quando o curitibano vai perceber que pode exigir algo melhor para seu estômago, além de polenta e frango frito?

Essa é a questão. Será que o curitibano não precisa de polenta e frango frito? Aqui se briga até quando muda-se o canteiro de uma praça. Tudo bem brigar contra o abate de um ipê histórico, mas hora que o povo exagera. Daí que inventam de fazer alta cozinha à preço módico na Vila Hauer, o novo Bairro da Alta Gastronomia mediterrânea da Itália. Não pega. Porque vai aparecer uns caras gritando que “querem destruir a tradição do verdadeiro bairro italiano- a Santa Felicidade”. Vai aparecer algum registro de marca onde: bairro italiano só ode ser da Santa.

Curitibano tem medo de experimentar, medo do novo. E o parâmetro de qualidade por aqui é a permanência. Durante um tempo os botecos inaugurados no fim dos anos 90, ostentanvam sobre as fachadas “Desde 1999”!!! Casas inauguradas há um ano, seis meses, cronometrando a sua “tradição”.

Talvez por ser um estado caçula na Federação, sinta-se diminuído.

A Chevrolet, em sua campanha bolou um hino ao paranaense que sai com um chevrolet! Tempo atrás a Telecom fez a a campanha do “você não é daqui...é?”
E parece que pegam. Em São Paulo seria ridículo um tema assim. O paranaense homenageia a si mesmo, já que não tem grandes indústrias, um Pão da Açúcar ou um litoral fantástico. Já que ninguém fala do paranaense ele se explica sozinho.

É melhor deixar a Santa Felicidade como o bairro da polenta e do frango frito. Conhecido nacionalmente. Só é bom lembrar que, em 70 para 80, São Bernardo-SP, era a cidade do frango com polenta, paulistanos lotavam os salões do Grupo Sérgio e outros. Hoje...

Curitiba é muito estranha.
Eu ouço o sotaque daqui e até agora não consegui reproduzir a musicalidade. As mulheres tem o sotaque incrível, principalmente as da classe média.

Curitibano não gosta de arte.
Detesta a interpretação.
Odeia reflexão, debate, opinião; onde tudo isso não passa de uma oportunidade para quebra o pau. Quando ouvem alguma opinião tomam como insulto e sua reação é calar-se ou reagir violentamente. O que era para ser um esclarecimento torna-se um confronto explosivo, e as pessoas aprendem que é melhor ficar quieto e evitar a loucura, com toda a razão.

E por isso sua experiência na arte é superficial.
A compreensão nunca é máxima, profunda.
A platéia jamais questiona o ator ou o diretor, mesmo quando há o famosos debate após o espetáculo. Alguns amigos ou pessoas educadas permanecem na sala e fazem perguntas frívolas, pouco desafiadoras. É certo que o mediador vai logo cortando o barato do público dizendo que a ”parte aberta” será restrita a 5 perguntas etc. Porque , talvez, haja algum antecedente traumático. Mas aí está a grande arte de esgrimir verbalmente, de contrapor a frase elegante ao ataque despropositado.
Mas em 15 anos de teatro em Curitiba recebi apenas: muito ruim, ruim, bom, legal, muito bom e demais; como feedback de público pelos meus espetáculos.
Perguntando o que foi “demais” na peça, não souberam responder. Perguntando o que foi “ruim” e “muito ruim” a pessoa se irritou.

Em São Paulo, Belo horizonte, Porto Alegre e até mesmo na pacata Bauru as manifestações foram muito mais calorosas e superlativas. Principalmente em apresentações dentro das universidades.
Por aqui. é engraçado ver os estudantes de artes, já travestidos de fleuma doutoral, sair da sala como se nada tivesse acontecido. Não se impressionam por nada, a não ser é claro quando presenciam uma super produção. Não se admira a pesquisa e o resultado de alguém. Não a curiosidade pelo processo alheio. Quem pesquisa não ouve. O pesquisado não fala.
Estudantes, artistas locais não se identificam com ninguém. Não formam pares. São proto-celebridades e acabam sendo paranaenses.
Como ninguém fala dele, monologa solitário.

Fazer teatro por aqui é onanismo.

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