sexta-feira, maio 23, 2008














Finalmente férias!
Férias forçadas, obrigatórias. Visita anual aos avós do Felipe. Além do casamento do meu irmão. Não teve jeito. Muito compromisso. Dolorosamente larguei os trabalhos da cia., larguei todos os recursos que deveria entrar para tentar reverter os resultados de alguns editais, e, peguei a estrada.

Essa vida de artista...
Vida dura, trabalho duro e pouca alegria.
É um trabalho como outro qualquer. Antes, havia uma certa aura mística: “artista”. Hoje em dia qualquer garotinha é artista. Vale mais ajudar uma creche. Coisa de carola. As carolas ajudavam asilos, creches e se dizia que para passar o tempo, coisa de velhos. Hoje isso se chama ação comunitária, terceiro setor, quarta via (existe isso? Estou inventando).
Quem falou que o caminho da arte era o caminho da libertação?
Deve haver algum estóico chamado artista que faz a arte pela arte. Não o conheço.
Dos que conheço nenhum é estóico. Todos querem dinheiro. Todos desejam la plata. Mesmo o mal-querer da raposa. –“Estavam verdes...! Verdinhas! Melhor ainda!”
Havia a ética de ser artista. Havia o discurso contra a burguesia. Por mais contraditório que isso fosse, de qualquer forma, havia a aventura, a adrenalina fantasiosa, um motor que preenchia a vida dos envolvidos. Lutar contra a ditadura. Está fácil desmoralizar os movimentos de 68. isso parece papo do cara que não comeu as meninas naquela época, ficou com um copo de cuba libre num canto do bailinho, sozinho e agora mete o pau. Coisa de pau no cú. A tortura foi abominável, mas que foi divertido isso foi. Era criança naquele tempo, e se hoje tenho medo do Sauron, Darth Vader e outro lorde das trevas similar, esse medo vem daqueles dias.

Alguma coisa está errada.
Trata-se de um desvio de rota.

Essa via econômica nas artes contagia todos nós. Nos faz ridicularizar tudo que não seja lucrativo, desmoralizar o seja não-pago. Uma vida e agendas lotadas, projetos rentáveis, projetos sociais rentáveis. E o que o artista-produtor quer fazer com tanto dinheiro? Um centro de pesquisas! Que difunda a arte deste artista! As pessoas iriam até esse centro para assistir os espetáculos, fazer cursos, pagos! Mais dinheiro! Tudo bem, eu gosto de dinheiro, mais dinheiro! Muito dinheiro! Para mostrar para as pessoas que tenho dinheiro! Mostrar aos meus pais, a minha família, ao tio, ao amigo da minha mãe que eu não sou um vagabundo, que tenho dinheiro. Que aquele papo de que eu deveria fazer Direito era conversa fiada. Eu fiz direito!!!!

Não é um defeito de caráter?
Não é uma fragilidade na personalidade?
Aliás é um motor para um personagem trágico, um hubris, prestes a receber o castigo divino. Um raio de Zeus...

Bem, quando o raio de Zeus cair talvez a gente aprenda a lição e se faça mais teatro e menos cenografia, iluminação e fumaça de glicerina.

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