quinta-feira, abril 24, 2008

O MISTERIOSO TRIÂNGULO DE ALCACU

Desculpe quem veio a esse humilde blog esperando alguma revelação do mundo titeritesco.
É que estou numa entressafra profissional. Meio exilado aqui nas terras curitibocas.
Não que esteja sem trabalhar.
Trabalho tem.
Além disso, poderia postar um monte de informação etc. etc...
Mas tenho que confessar uma extrema vergonha em se promover como fazem os colegas. Mandar spams e convitinhos que não valem a entrada, realmente não é comigo.
Usar o espaço do blog para transcrever as críticas dos principais jornais sobre meus espetáculos é de uma viadagem ilimitada.
Embora nunca tenha tido uma crítica em jornais de circulação nacional. Dane-se!
Ultimamente tenho metido o pau na crítica.
Alguns podem pensar que não posso ouvir crítica.
Ou que, tomado de tal ego inflado, só tenho espaço para o elogio.
Acho oportuno me retratar:

Crítica eu aceito; o que não aceito é insulto. Quem aceita insulto é idiota!

Muito bem. Agora posso falar do mistérioso triângulo de Alcacu.
Para quem não sabe, o bairro onde moro, Santa Felicidade está numa região demarcada chamada triângulo de Alcacu. Alcacu é a abreviação das três cidades que fazem os vértices do lugar: Almirante Tamandaré, Campo Magro e Curitiba.
Nessa região vive um tipo matuto, semi-urbanizado, que sabe pegar na enxada e usar um caixa eletrônico. Uma característica desse hominídio é a completa incapacidade de proferir as palavras por favor, com licença, obrigado, bom dia, boa tarde, boa noite e por aí.
Se você por acaso passar pela Santa, dê uma parada numa padaria chamada Pannicello, olhe para o caixa, se tiver sorte verá um rapaz sem uniforme da empresa. Ele é o proprietário. Nunca falou um obrigado para os clientes. Jamais um cumprimento. Se você o cumprimentá-lo ele não responde. Uma meia dúzia de vêzes me segurei para não pular o balcão do caixa e enchê-lo de pancada!
Há uma lotérica em frente ao Colégio Sagrado Coração, onde foi baleado o motoqueiro que minutos antes havia atropelado uma mulher. Lugarzinho bucólico, bem no coraçãozinho de ouro da Santa. Naquela loteria há um outro rapaz. Ele também jamais cumprimenta os clientes. Jamais respondeu um cumprimento.
Foi então que descobri, após um luminar estalo da intuição, que isso acontece graças aos costumes de Alcacu.
Numa manhã precisei comprar pão. Embora sob juramento de nunca mais pisar na padaria do Panicello, pisei. Espio o caixa e lá estava o magricelo do Panicello, o dono mudo. Ele retribui a espiada e me volto, frio, para as adoráveis atendentes da padaria (sem ironia, elas são muito gentis). Foi então que tive a idéia de encurralá-lo. A padaria estava vazia, era uma manhã fria e ensolarada. Uma manhã no campo!... Cheguei no caixa e bati a mão no tampo. Gritei:
- BOM DIA!!
O panicello respondeu:

- Hum!

E continuei:
- Está feliz ou triste!
Ele não entendeu.
-Você é palmeirense ou são paulino?
E o carrancudo panicello abaixou a cabeça dando um meigo sorriso!!!!

Então era isso! No campo, fale alto, gesticule, seja extravagante. Porque os espaços são maiores e a gente de Alcacu morava nesses espaços, embora hoje não seja mais assim.
Fala mansa, civilizada de espaços urbanos contidos, a voz baixa, educada, isso não funciona em Alcacu...


Estou preocupado com a futuro do meu filho aqui!!

4 comentários:

Anônimo disse...

Em Alcacu existe um cego cantor.
Ele canta tudo o que vê. Não canta nada por que é cego e nada vê. Assim, ficou também mudo!

extraído do fabuloso livro "Fábulas de Alcacu", autor anônimo, como todos os alcacuenses o são...

Edward Jr, o correspondente não correspondido.

Sergio disse...

Trabalho tem...
Como diz meu tio Beto Pinduca, ex-estiva, alguns balaços atravessados nas carnes em noitadas no cais de Santos: eu tava procurando emprego, mas só queriam me dar trabalho...

http://cronicasterraqueas.blogspot.com

Sergio disse...

Ahahahahahahah! Um primor de crônica! Uma análise afiada das relações inumanas.

Tu deverias ter seguido carreira de semiótico. Taria fudido como agora, mas pelo menos teria mais admiradores (vide a Carmem pela Vânia e pela Bia, lembra?)

http://cronicasterraqueas.blogspot.com

Jorge Miyashiro disse...

Putz!
É mesmo, né!
Mas eu tenho sempre que fazer as piores escolhas, com a finalidade de produzir material para crônicas. Hehehehehe!