segunda-feira, setembro 24, 2007

INTOLERÂNCIA À FRENTE, CUIDADO!

Já disse que quando me pedem para cortar determinada cena para não ir de encontro a crenças ou convicções, não discuto, CORTO!
Mas quando falam na minha cara que tal cena é “apelativa”, “desperta a sensualidade” (!?), isso já é mais complicado.
Quando algum diretor de escola pública, recebendo um espetáculo pago com verba pública, ultrapassa a linha que separa a estética teatral do teatro pedagógico-rei-leão-bela-e-a-fera para reclamar de indecência e pouca vergonha, então algo de grave está acontecendo.
Escola Municipal Enéas Faria, cuidado artistas! Ali reina a disciplina cristã e a intolerância aos questionamentos e a mínima fruição do livre pensamento. - São crianças! Argumenta a diretora.
Sim, diretora, e as crianças gostaram da peça em que um fantoche em trajes em estilo turco, desenvolvia uma dança do ventre com um par de bolas de pano à modo de tetas... Isso, segundo a percepção da diretora, despertou a libido da criançada.
Deus me livre de in-to-le-rân-ci-a, madre superiora!

quarta-feira, setembro 19, 2007

HUMOR, PODER E FRICÇÃO RACIAL

Calma! Deixei Câmara Cascudo ficou na prateleira.

Nos tempos adolescentes queria ser um guerreiro-asceta. No Japão existem os “yamabushi”, embrenham-se nas montanhas geladas e exercitam-se sob o jorro de quedas d´água, por horas, aquecidos apenas pelos sutras budistas. Talvez algo mais light como permanecer por semanas sentado de pernas cruzadas, sem comer, nem beber; focalizado num único som primordial: ooommmm!
O mais admiravel nestes indivíduos é a ilustração restrita o suficiente para a ascese. Leitura mínima, porém intensa, ardentemente refletida dos textos religiosos.
Queria este tipo de formação, devo confessar.
Quando se cresce, vamos necessitando de um alto volume de informações. Anseia-se por um acumulado de dados, sistematizado para uma resposta rápida, e basta.

Meu modo de vida exige outra configuração.
Hoje o humor é uma ferramenta importante no trabalho.
Meu treinamento disciplina a uma resposta rápida e contextualizada contra uma provocação.
É uma arma!
Acumulo informações e lido com elas em duelos imprevisíveis, sem ritos, avisos, covardes, gratuitos que ameaçam meu bem-estar.
Por ex.:
Fui visitar uma amiga com um bebê recém-nascido. Havia uma festa em que o marido recebia ex-colegas de trabalho. Achei que seria inconveniente, mas ela insistiu. Tentando enturmar, um dos colegas me interpela bruscamente:
- Quem é você?!?
Fiquei pasmo, mas como estava com um chopp na mão, disse:
- Sou o primo do Ricardão e vim para te dar o recado que está tudo bem em sua casa, não se preocupe.
Risadas gerais, mesmo assim não consegui me enturmar. Terminei rápido minha visita.

Outro dia estava com a Camerata Antiqua, no Hospital Pequeno Príncipe onde fariam um concerto e eu a parte “animada”. Havíamos apresentado alí. É sempre um tumulto. Pacientes e acompanhantes, os serviços continuam mesmo durante o concerto!
O melhor é relaxar.
Assim, pego o microfone e vou falando qualquer coisa, enquanto estou arrumando os bonecos e os músicos vão batendo papo e circulando por ali.
- ...Vamos iniciar o concerto no momento que o maestro R.H. estiver pronto... Está pronto maestro? Maestro?
O maestro estava deambulando entre as cadeiras, mergulhado em seus pensamentos em profunda contemplação, afinal é ascendente germânico:
-“...Bem o maestro não pode responder porque está em outro estado... Estado de São Paulo. Não!!!! Ele está num refinado estado estético, amparado pelas musas que sussurram os tons que serão apresentados hoje!”
Fraca mas eficaz, né?


Só tem graça na hora.
É o xiste disparado no ato, fresco como churro. Deteriora minutos depois. Se repetir fede, apodrecido! É volátil feito o flato.
E que deleite íntimo lembrar da presença de espírito suficiente para construir essas frases instantâneas!
E que admirável rigor para soltar a frase na medida, para sem ferir um brio ou torná-la de mal-gosto!
Opção sexual, deformidade física, a traição conjugal, raça, continuam sendo os temas campeões para piada. O humorista lida com esses temas e constrói o humor moderando a farpa das palavras. Já a pessoa comum usa a piada para tocar, incomodar o outro.
A espetada embalada no celofane do humor.
Durante muitos anos ser japonês era um estigma. Cheguei desejar ser latino. Não suportava ser chamado “japonês”!!! Em parte por meus pais terem uma conduta plenamente ocidental e o convívio maior com latinos. Há os parentes que na maioria eram agricultores ou pequenos comerciantes, com baixa escolaridade. É engraçado como os brasileiros latinos apropriaram da nacionalidade. Informalmente não se acham italianos, portugueses, espanhóis, mas apontam que sicrano é negro, beltrano é chinês e fulano alemão, polaco, judeu!
O cara tem cabelo ruinzinho não é liso como o japonês, legal é o meu que não espeta nem fica enrolado, cabelo de brasileiro!
Com muito custo superei essa rejeição. Agora encaro a japice com naturalidade.

Tô beleza com a minha beleza!

Preparava-me para mais um concerto na Camerata quando saudei um músico. Uma parte deles tem nomes germânicos, uma língua que não domino. E são judeus. E fiz uma pronúncia germanicamente incorreta do nome desse músico. Ele ficou constrangido e disse:
-“Tá longe”.
- “E como se pronuncia?”
Perguntei, e ele não respondeu. Um outro músico que vinha logo atrás fez a pronúncia correta. Registrei que o músico ficara chateado e durante muito tempo esse registro voltava como um alerta e apagava.
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Esses dias percebi: Antes faziam piada comigo. Hoje sou eu quem faz a piada!!!



PEQUENO PEDIDO PARA UM GRANDE AMIGO

Tenho um grande amigo que está com uma espécie de gastrite, intoxicação ou que o valha. Era um fiel companheiro de copo e garrafa. Ele é mais profissional que eu, e foi esse o pagamento que conquistou!
Peço que voltem suas orações a essa pobre alma que agoniza em suas raízes nutricionais, para que se recupere e volte a envergar majestoso um bom copo de cerveja!!
OREMOS FERVOROSAMENTE Á SÉRGIO DEL GIORNO!!




sábado, setembro 15, 2007

A VIDA CONTINUA OQUE FAZ LEMBRAR DE UM CASO

Enquanto assistia o “docuvela” da vida do Renato Russo, na Globo, obtive luz sobre alguns aspectos do sucesso. Uma cena, num determinado momento o Legião Urbana está no estúdio e um produtor desabafa que tal guitarrista não toca “porra” alguma. Renato sai em defesa do amigo dizendo que o produtor não estava sabendo “porra” alguma do que era rock naqueles dias. Em seguida, uma cena com os elementos do Legião Urbana prometendo entre sí, chegar onde nem eles jamais imaginariam estar.
Eu não sendo músico, em minha restrita alfabetização musical, digo que aquela rapaziada não sabia tocar de verdade, mas estavam movidos pela determinação e vontade de provar que eram capazes.
Essa é a fórmula do sucesso, então!
Muito mais força de vontade do que a força do talento e da capacidade. Observe que ao invés de aprender a tocar, foram lutar para que reconhecessem sua “musicalidade” e principalmente, a sua mensagem.
Esse é o ponto.
Quando for vender a alma ao diabo. Calculem bem os termos do acordo para que a venda seja vantajosa. É como ir comprar laranjas e voltar apenas com a sacolinha do supermercado.

A memória.
Tento mudar o método. Impossível.
Devo fazer os atores, depois a partir das competências: criar a peça. Devo fazer os bonecos e do resultado, fazer o espetáculo.
Alterar essa ordem é ficar incapacitado de dar um passo adiante.
Voltei a fazer os bonecos. A peça está se criando.
A vida não é fácil mesmo e por mais que se deseje mudar a brincadeira, a mudança é insípida e acaba que voltamos a brincar os velhos brinquedos.
Não catei lixo na rua. Não estive num front de combate. Não tive trauma psicológico severo, jamais tive surto, depressão aguda, angústia crônica... apesar de querer ter passado por tudo isso, e poder dizer:

-“Não queiram passar pelo que passei”.

Nem por isso tenho poucas histórias para contar.
Foram situações normais que ascenderam a uma condição peculiar pelo fato de um atalho tornar-se grande volta. Uma parlapatice digna de relato:

Havia terminado uma temporada no Teatro João Caetano (V. Mariana) num espetáculo infantil.
Casa lotada, sempre, e não recebia pagamento. Como éramos semi- profissionais (DRT provisório), a produção enganava o elenco.
Fiquei um ano assim.
Depois, convidado para um estágio na Unicamp junto a um grupo de treinamento para atores. Teria que bancar minha despesa. Nem lembro como levantei a grana.
Eu, como todo ator iniciante era bobo e achava que iria conquistar as pessoas através de um permanente sorriso.
Levando coice e pensamento positivo.
Lá, em geral, só gente de cara amarrada e arrogante.
Qual o susto que levei quando o Luiz Otávio Burnier, coordenador de curso de Artes Cênicas, puxando papo comigo!? Pedindo opinião sobre umas coisinhas ali outras acolá!!
O resto só dava pitaco.
As atrizes de uma cia., convidou-nos, eu e o pessoal do estágio, para um jantar numa chácara perto de Taguatinga. Uma professorinha de dança deu carona para todos. A professorinha era muito invocada. Ela não ia com a minha cara. De qualquer forma, como era bobo peguei carona no carro dela até a chácara, ao invés de ficar quieto em Campinas. O carro foi abarrotado de gente.
A chácara tinha casa grande, tinha pomar, piscina e sauna. Adoro sauna e fui o último a sair.
Então aparece a diretora da cia. das atrizes. Ela estava grávida e minha primeira impressão sobre foi que era bonitinha, arrogante e rica. A diretora entrou na sala da sauna e despiu-se na maior quebra de protocolo: lá estava o barrigão de 7 meses, seios intumescidos, os pelos pubianos descabelados e a pele bronzeada e bonita.
Vi tudo isso em 2 ou 3 segundos e prendi o olhar no rosto dela. Ocasiões de nudez impessoal, como essa, sempre aconteceram na minha vida. A garota aparece do nada, fica pelada, mas não tem a intenção de propiciar a cópula. É pura exibição de poder e provocação. Se o macho destemperado ceder a provocação, perdeu!
Consigo manter uma atitude austera nesses momentos. Controlo a respiração e as batidas cardíacas. Suo um pouco na testa. Jamais fiquei ereto!
Na sauna, ficamos falando baboseiras de teatro, método, disciplina, subjetividades dramatúrgicas. Quando o pescoço ficou insuportavelmente dolorido, despedi-me para dirigir-me à casa grande.
Jantamos e no momento de sair a professorazinha invocada invocou que o carro não agüentaria levar todo mundo de volta: uma pessoa ( bastava uma!) deveria ficar. Os olhares vagaram pelas paredes da sala até que como num complô siciliano caíram sobre mim. Como um soldado colonial inglês, estufei o peito procurei manter o máximo de dignidade e soltei: Tá então eu fico!

Fiquei foi puto da cara. Aquilo era uma sacanagem da professorazinha. Perguntava qual seria o motivo? A mais clássica fodeção da pessoa com mínimo poder contra o coitado. Além disso estava com dinheiro contado e teria de pagar a passagem de ônibus até Campinas. Fiquei com muita, muita raiva.
Mas era uma visita social.
Era uma cia. de atrizes convidando gente que fazia teatro.
Havia entre elas uma adorável pessoa, Maria Bozanigo. Estava apresentando um solo em São Paulo e havia ministrado uma oficina na Unicamp e todos haviam participado.
Talvez para compensar, pois não consegui esconder minha frustração; ou talvez minha condição Mané lhe pareceu um clown. Ou tenha visto uma partícula potencial. Não sei.
Maria sentou-se, fixando seu par azulzão de olhos em mim, falando italiano. Ela era suíça do cantão itálico. Não entendi nada e nem queria entender, estava bravo e gastando o último ml. de paciência, ouvindo aquela suíça falando na minha orelha. A filha do ex-ministro João Saiad fazia parte da cia. e foi traduzindo.
Maria falava, perguntava e eu ia respondendo meio no piloto-automático. Estava pensando em voltar a Campinas à pé...
Ela insistia em saber se eu havia compreendido o eixo principal da oficina.
Já estava de saco cheio dos mestrinhos da Unicamp. Todos tinham uma pesquisa imaterial, trancendental, vocabulário incriado, traduzível em silêncio... todas essas metáforas antípodas, que não respondiam nada, não questionavam, palavras reverenciais, inertes e vazias...
E Maria voltava: Jorge! Você entendeu? Presta atenção...
E prestei atenção: aquela moça estava transmitindo um conhecimento exclusivo para mim. Minha mente se abriu e tudo que ela falou fez sentido e adequava não só com o conteúdo da oficina, mas como o procedimento completo de arte e vida.
A cia. das atrizes se chama SUNIL. É um prenome hindu. O nome de um menino na Índia, que eles homenagearam batizando a cia. E como no Bhagavat Gita, o longo poema de Krishna, versejado em um instante eterno a Arjuna, no prólogo da batalha entre primos, que matou milhões de pessoas. Como aquele poema que Arjuna não conseguiu reter, eu também não consegui.
Não recordo de nem uma vírgula, das palavras que aquela moça me revelou.
Lembro apenas que aquele foi um generoso presente, num momento de grande frustração.

quarta-feira, setembro 05, 2007

PUPPET GO SHOP!

Aproveitando a licença paternidade de duas horas fui pagar os impostos da empresa. Aproveitei para consultar os preços do varejo.

Passei pela Americana S.A., tudo caro. DVDs sem repor o estoque na média de R$9,90 e R$12.99, como sempre.

Na Siciliano encontrei um Byron fora de catálogo, Beppo, um a narrativa poética sobre a vida devassa e sórdida em Veneza: R$25,00!! Achei infame o valor e não comprei. Onde já se viu? Byron a R$25,00!!!!

Achei uma Top Livros, ponto-de-estoque na esquina da Amintas com a Presidente Pedrosa. Logo na entrada, uma coleção de mangás da Conrad. Havia um Mattoti, Estigmas que custa R$40,00 e estava por R$9,00... Um Casanova quadrinizado por Hunt Emerson, que desenhou o melhor orgasmic-comic em “O Amante de Lady Charttelly” (totalmente bronhável). Havia Evangelion que acho lindo e o Vagabond, a vida in mangá de Miyamoto Musashi, um samurai auto-didata e iconoclasta até hoje idolatrado no Japão.
- Jane Spitfire de Augusto Boal a R$9,00, capa dura, douração na lateral das folhas.
- Curva do Rio Sujo, do Joca a R$5,00.
- Livros da Conrad: R$9, 7 e 5.
- Filhas do Segundo Sexo, Paulo Francis R$5.

Enfim uma afronta pagar isso por livro. O duro que não serve de peso pra porta porque são fininhos.

terça-feira, setembro 04, 2007

Fim de tarde, sentado diante do pc.

Tenho que escrever uma peça nova e não tenho absolutamente idéia alguma.
Aí o Felipe chega e dá um caminho.
Aqui está o primeiro texto do filhotinho:

Nnw,X kokk,hyhaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa weeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee,as\ AAq

Muito bom!! Dá para deixar qualquer concreto cinza de inveja...

Este é o ponto de reflexão.
Talvez não seja falta de idéias iniciais, mas a falta de idéias vendáveis para o público que compra meus espetáculos. Atender encomendas é difícil. Achava que justamente era essa minha maior habilidade. Agora me encontro vazio e seco de soluções.
E novamente o processo titeriteiro se inicia. É fabricando minhas marionetes, meus fantoches que o espetáculo toma forma. Da mesma forma que as dinâmicas de grupo, os exercícios e o laboratório de atores vai se desenvolvendo e o resultado final fica óbvio qual direção tomar no espetáculo; assim é com a manufatura das matérias-prima que serão bonecos.
E eles estão justamente lá, fincados no isopor, brancos de tinta base, aguardando a pintura definitiva. A mim resta aguardar, diante do computador, a idéia surgir e a explosão do texto espalhara em minha mente...
Deve ser o machismo inconsciente, clamando por domínio. Ter o texto impresso e pronto para ensaiar. Queria pegar a matéria abstrata e após processá-la em texto, ter em mãos uma peça de teatro. Queria. O que acontece é que a obra é um roteiro que não é seguido, mas construído. Parece um ato pioneiro, um desbravamento. Um terreno desconhecido que vai sendo mapeado, lentamente. Dolorosamente lento. Tediosamente.
Lento.