segunda-feira, julho 30, 2007

BERGMAN NA PRAIA

NAQUELA PRAIA DE CASCALHOS ONDE O CÉU NEBULOSO CONFUNDE COM O CINZA DO MAR. DOIS HOMENS SENTADOS SOBRE PEDRAS LAVRADAS POR MUITAS ONDAS. UM É BERGMAN, OUTRO VESTE A TÚNICA NEGRA E A FACE PÁLIDA SILENTE E CALCULISTA. ENTRE ELES O TABULEIRO DE XADREZ. :
Bergman: Xeque!
O Morte: ...
Bergman: XEQUE!
O Morte:...
Bergman: Xeque-mate!!!
O Morte: PUTA QU´EU PARIU!
Bergman: A tua!
O Morte: Mais uma...

Perdi meu lugar para declarações fatais.

ENQUANTO ISSO, NUMA TRIBO PAULISTANA.

Estou em Bauru para comemoração dos dois aniversários do meu filhote. Cada avô quiz fazer uma festinha do seu jeito. Tempos de economia virtuosa.

Então, quando acaba a correria da festinha o que resta, uma desinteria no pequenino porque todos os parentes querem agradá-lo com docinho, salgadinho, carninha... Sem falar o apurado experimentalismo gastronômico dele próprio em que pôs na boca de água da piscina até ração da gata... Claro que bebeu a água da cachorrinha da sogra, mas trata-se de uma cadela familiar, quase uma parente também. De qualquer modo parentes, todos eles são prejudiciais para a saúde de um bebê de um ano.

Então:
depois que acabaram as festinhas, os parentes se foram e a desinteria do filhote se acalmou; a gente para pra pensar que a peça nova, toda louca e psicótica, alucinada está é muito careta. Percebemos que a vida em si é muito mais pesada que qualquer droga sintetizada em laboratório. Tem hora que a gente já se vê tirando toda a roupa, tosando a careca, abrindo a porta da rua e saindo pulando fazendo crururu-crururu...

Pensava em criar uns personagens meio Hiyeronnimus Borsch, criar situações meio Dadás, meio loucas como se dizia na década de 80. Cara, e como tá tudo louco sem que se seja! Louco é ficar sóbrio. Como se destaca um sóbrio, pensam que o cara é doente! Interna o cara! É doido!
ENTÃO... Acho que o demais é fazer uma peça caretaça. Isso é que é ser louco!

quarta-feira, julho 18, 2007

A CELEBRIDADE DA IGNORÂNCIA

O homem de manto negro, jogando xadrez na praia inóspita.
Opa, posso sentar aqui? Só vou falar algumas palavrinhas e já caio fora. Xiii, vão comer tua rainha. Deixa quieto.

O ano está bom para cultura, já para usina atômica e transporte aéreo, não. Para condomínios a coisa está meio psicopática...
Enfim, o pessoal dos títeres está trabalhando um monte. Eu estou trabalhando bem mais. Mas há de se crescer no conjunto. Não adianta o bolso estar saudável e a percepção turva.
Alguns meses atrás estive num desses festivais star system. No camarim, vinho almadén, cerveja bohêmia, salgadinhos. No palco, equipamento e equipe profissionais.
Convidei o meu amigo e colega blogueiro Sergião, para minha sonoplastia e assim desfrutar de uns momentos no outro lado da platéia.
Encontramos uma estrela em franca ascensão, um colega bonequeiro. Saudei-o vivamente ao que respondeu:
- ...depois de tanta batalha, agora estou aí, (no dito festival) entre os melhores!”
Estas palavras não saem da minha cabeça. Aparentemente denotam a constatação redundante de um artista de sucesso para outro artista (eu). Mas foi um desabafo. Deve ter ouvido muito em permanente mudez. Eu ao contrário caço a oportunidade para revidar a crítica e a impertinência. O verniz civilizatório não ficará mais arranhado do que já está se eu devolver uns pitacos, desde que estejam embalados num bem-intencionado celofane cor-de-rosa. Estaria esse meu colega bonequeiro em uma cruzada? O que ele quer provar e para quem? A quem ele quer mostrar que é uma pessoa famosa? Famosa fazendo teatro de bonecos !?!

E fazendo teatro de bonecos as pessoas circulam no star-system. Sentem-se glamurosas, agem diligentes e desenvoltas com o crachá da vaidade.
Não esqueço o reencontro com outro colega, gaúcho (GAÚCHO!!! Em uníssono os curitibanos).
Cumprimento-o:
- Oi, M... !
E “M” responde com a voz melíflua de sua opção sexual:
-“ Eu te conheço?”
A gramática fashion é tudo!

Respondi que ele não me conhecia porque eu não tinha amigo gay. Ele incrédulo:
-“O quê?”
- “Ninguém agüenta, além de viado é surdo.”

Não devia ter dito isso pro “M”. O pessoal do Sul é finíssimo. Nunca espero uma descortesia deles. O “eu te conheço?” me pegou tão desprevenido que disparei sem pensar essas palavras estranhas e inconscientes.

E eu achava o ambiente titeritesco tão mais cooperativo, amistoso...

Bom , já vou. Vai ficar sem pião...

domingo, julho 15, 2007

CATANDO MILHO PRÁS CATADORAS DE COQUINHOS

Assisti “A Catadora de Ossos” do Distrito Federal, no Festival, dirigido pela adorável Isabela Brochado. Conheci-a em Ovar, Portugal, acompanhada pelo pulccinellista Bruno Leone.
Sou partidário dos amigos por isso “A Catadora de Ossos” é uma boa peça. A trilha musical é embaladora como um nino de criança. Isabela junto com Ana Bellacosta produzem as intervenções musicais. A peça seria quase carregada pela música não fosse a presença de uma atriz-bonequeira gordinha que não esconde a ótima escola de atores que vem de Brasília.
Mas tem uma coisa: o tempo.
A peça corre num tempo que não é do Brasil. Não é a hora do Brasil!
Sempre penso no tempo da peça. É uma ambição alterar a percepção temporal da platéia. Aliás, adoro produzir qualquer alteração sensorial. Não é sempre que se consegue e para obter qualquer alteração há de se controlar a maioria das variantes presentes no instante e no espaço que ocorre o evento teatral (cartesiano demais?...).
Então vamos lá.
Quanto tempo você suporta ouvir teu amigo?
Sentado numa mesa de bar, com cerveja gelada na mesa; pode ser fechados em casa tomando café, tudo bem... quanto tempo você consegue acompanhar o raciocínio da pessoa amiga, sem interrompê-la? Você suportaria 1:30h.? E se a pessoa não fosse sua amiga, se fosse desconhecida, suportaria pelo menos 30 minutos? 20? Um analista, psicólogo ouve até 60 minutos, não mais, porque é trabalho dele.
Então porque se determinou que uma peça deva durar mais que 60 minutos? Tem peça infantil que dura 50 minutos (dizem que é para não cansar!!!!!), a duração de uma aula em uma escola.
Acho que o brasileiro aprende com o estrangeiro e não adapta o aprendizado. É sôfrego em seguir fielmente os ensinamentos exógenos. Torna-se guardião rigoroso desses ensinamentos; chega a indicar apontar que está dentro dos parâmetros e quem está fora. Então a duração deve ter sido determinado num desses aprendizados. Que ninguém sabe direito por que.
Ora, aqui temos poucos ritos. Na verdade somos avessos a qualquer rito. Qual igreja que funciona? A que fica pulando, cantando e dançando. Candomblé, evangélica, carismática. Quem quer a igreja do rito em latim põe o dedo aqui... ninguém. Quem quer fazer yoga? Basta sentar em lótus e cantar 108 vêzes 108 om nama Shivaia! Quem quer? É yoga, coisa chique! Façam fila... dois, três... loucos.
Aqui se toma cafezinho no balcão. Se pelo menos tomassem o café turco, sentadinho, depois uma mentinha e muita conversa, duas ou três horas pela tarde. Que vagabundos! Não rola por aqui.
Um chá das cinco, cakes, sugar stones...two, I beg your pardon! Um chá-no-ryu, ritual do chá no Japão, 3 a 4 horas... ai se pode falar em alteração temporal. Aí tem platéia.
Uma curiosidade. Sabiam que no Japão tem gente que cura insônia assistindo a um teatro tradicional? Pois é cultura utilitária. Não tem preconceito.
Tempo, duração, alteração sensorial. Puxa nem senti o tempo passar.
Ouvir o outro.
Na peça da “Catadora...” há a cena em que a atriz gordinha interage com a platéia... ou pelo menos tenta. Estamos em Curitiba. A capital que mesmo odiando o espetáculo aplaude em pé. Tudo bem , sem levar em conta essa livre interpretação do código de etiqueta; delimitamos a questão apenas no conteúdo da cena em que a atriz questiona o indivíduo na sua relação com o catador de lixo. Mais uma vez o tempo torna-se soberano regente da atitude do ser-urbano: quem tem tempo para isso? E a peça não responde. A questão está resumida, porque o ser-urbano não ouve os pais, irmãos, amigos, filhos, esposa, marido, vizinhos, conhecidos, a cidade... Só ouve quando pagam, tempo é dinheiro. Minha atenção tem custo, mesmo as pessoas do meu círculo ouço duas frase. Por favor, fala logo... em resumo... seja claro... e por aí.
No resto a peça é jóia. Curitiba é um troço. E eu pra sobreviver aprendi a fazer o cara rir muito em 40 minutos, e jamais no ambiente conhecido do espectador reticente de uma sala tradicional de teatro.

E O FESTIVAL ACABOU.

quarta-feira, julho 11, 2007

AH! CASA NOVA..

Festival rolando, frio congelando...
Mas aqui no sítio de Santa Felicidade, reina a preguiça e a vontade de dar um grande tempo.
Esse povo paulistano é doido de nó.
Estão todos estressados. No reio da correria diária. Quem disse que carioca só pensa em praia? Todo mundo. É por isso que o luiz André foi morar em Sampa. Lá está mais aclimatado. Sandra, Luiz andré, Anderson, Maurício e Agnaldo se matam de trampar.

Eu deveria dizer que estou com inveja, mas prá falar a verdade, já vivi tudo isso. Já quiz fazer uma carrada de coisa, de conquistar o mundo. Dei muito com a cara na porta em São Paulo. Violentei meu sistema imunológico até o talo, fazendo caminhada pelas marginais; respirando fundo o metano do rio Pinheiros e Tietê, a fuligem de escapamentos e fábricas.
Fazia um troço chamado "Inversão Tântrica", para amortecer psicologicamente o dano que perpetava em mim mesmo. São Paulo, são pauladas!!!

E festival que é bom, nada.
Apresentei, e pronto.
Não tem nada que mudar.
Não tem nada que mexer.
Não bebi um ml. de álcool, porque não dá tesão algum beber neste festival daqui de Curitiba.
That´s It!

terça-feira, julho 10, 2007

O Festival 01

O 16º Festival Espetacular de Teatro de Bonecos, aqui em Curitiba-PR, pode não ser o melhor, mas definitivamente não é o melhor. Espero que essa seja uma crítica construtiva. E sabe onde ocorre as melhores apresentações? Para mim é na lona do Circo montada na praça Santos Andrade. Aliás estou virando figura na praça. Já apresentei em dois aniversários da cidade e umas três vezes na lona. O povo assiste de graça os espetáculos. E é o povo que vai, uma galera que precisa de um teatro legal para se divertir e não tem grana sobrando, o que fazer? É Brasil! Coisa que não entra na minha cabeça é, já que meu cachet está pago, cobrar ingresso! E o ingresso está a R$6,00. Só que a criança não está só. Tem a mãe ou o pai, ou então a família toda. A coisa fica entre R$9,00 a R$12,00, R$15... é exponencial.
E me divirto um monte. Falo o que quero e o que não quero. E povão se diverte ainda mais com a língua preta do tio aqui.

O CABARÉ DOS QUASE-VIVOS

Cabaré que tenha visto foi ou nos filmes do Fassbinder, ou o Cabaret com a Liza Minelli. Tem que ver que sou velhinho. Essa é minha referência.
Pois o “Cabaré...” do Sobrevento se torna suporte para emissão de suas mensagens. A adesão do público é imediata. O público da periferia. Que dá duro, trampa e sabe do rigor que é tocar uma família com dois tostões. Não serve para o estudante universitário com carro estacionado ao lado do teatro José Maria Santos. Não dá. Esse aí vai torcer o biquinho, porque assiste Hermes e Renato, e quer bolsa de estudos na Holanda em design de moda. Acha que isso é dar duro. Montar um desfile e manter uma dieta de baixa caloria... Mas que vi um desses garotinhos deixar rolar uma lacrima furtiva, ah isso vi.
Por outro lado, o Sobrevento é digno de procurar e envolver profissionais de alto escalão. De buscar soluções inovadoras até o último instante. Aí está um dilema, porque esse último instante precioso deveria ser reservado para o ócio. Onde eclodem as melhores idéias. Sem o ócio isso não ocorre. E o Sobrevento é trampalcoólico crônico. É flagrante a tensão de trabalho deles durante a peça.

quinta-feira, julho 05, 2007

MANUAL DE AUTO-AJUDA

Ah...
Que vida malvada!
O que tenho para dizer aos amigos que: está corrida!
Que coisa mais tediosa! “Corrida”!
Correndo perco o sabor, estou sem paladar. É terrível. Quero engolir uma costela inteira. Afundar num pote de doce de leite. Porque não sinto o sabor da comida. Estou com fome de sabor.

Tenho fome de leitura, aventura, de quadrinho, de filme...tudo está insípido. E só aparece trabalho, e o dinheiro é insuficiente por isso preciso fazer aparecer mais trabalho...

Ontem estava apresentando numa escola legal, com professoras e diretora legais, criançada legal; ou seja tudo para ser uma ótima apresentação. Sobre a caixa de som ponho bonecos, e uma garrafa de água com a tampa meio rosqueada. A garrafa fica sempre numa posição que não atrapalha os movimentos, mas desta vez ela estava no meio do caminho entre a mão e os bonecos. Eu olhava para a garrafa e pensava. Ela está atrapalhando. No final ela caiu e fez pifar a caixa de som. Por que não tirei a garrafa? Tive que encerrar a apresentação. Além disso a caixa foi para a oficina e semana que vem tem uma agenda de apresentações; pânico, panic at the theater!
Bom, tudo se resolve.
Mas é o computador de bordo avisando que tem que desacelerar. Talvez faça uma meditação para corrigir o PH mental. Os monges tibetanos tem alguns métodos para fazer isso, dar um freio nos caras que estão ambiciosos demais. Fazê-los encarar a morte. Eles põe o cara para limpar cemitérios, trampar em matadouros. Havia um que fez uma espécie de post fix para sempre lembrar que a vida tem agenda curta: amarrou um crânio acima da orelha! Andava o dia inteiro com aquela caveira sobre a cabeça! Inesquecível!

Realmente, não foi para isso que escolhi esse trabalho. Não foi para falar para todo mundo que “ávida está uma correria”. Principalmente se não se deseja que ela chegue ao inevitável destino antes da hora.

segunda-feira, julho 02, 2007

LIMIAR DO VAZIO- ESQUECI UMA COISINHA...

Ah... antes que eu vá embora, queria avisar que pode ser que eutraga um amigo aqui. É ótima companhia para umas cervejas e divagação sobre a fatalidade. O Sérgio Del Giorno. Pode ser? Pode? Faloooouuu!

NO LIMIAR DO IMENSO VAZIO...

Lá estou no imenso vazio binário (não, não é obra do Beto Richa).
Céu e terra confusos, ou dividido por um mar obscuro de ondas desalentadas, molham meus pés e a borla da túnica negra do cavalheiro de faces pálidas a minha frente.
Jogamos xadrês.
Na verdade ele joga e eu falo.
Ele nada diz.
Seria a morte?
Não pode ser a morte é mulher.
Seria o destino?
Seria apenas o FIM???
Eu: ...então. Resolvi dar uma passada por aqui e ver como é esse tal vazio. Paisagem européia, não? Escandinávia, Noruega... Podia rolar um solzinho, areiazinha ao invés desse cascalho. Esta é a fronteira para entre o ser e a aniquilação?

O Outro: (...)

Eu: Nunca fui bom de xadrês, sei jogar damas, dominó, banco imobiliário, war. Não quer jogar war?


O Outro: (...)

Eu: ...Desculpe. Estou sendo trivial num momento que deveria ser solene. Está bem. Antes devo dizer uma coisa; as vanguardas são desinteressantes! Pronto falei. Nada de novo é criado. Tudo é revisão de um capítulo existente, mas esquecido. Veja o Dadá (não confundir com o cavalheiro que também se vira com bonecos), abstracionismo, desconstrutivismo, o moderno... nada além do suprimento das necessidades aniquilantes da guerra. O teatro é sempre teatro. O que há de inventar além do teatro? O cinema poderia ter sido a etapa seguinte, mas já não é teatro. A maior vanguarda deve ao menor autor teatral do passado. Que interessante há de se “criar” a nova linguagem teatral? Que interessante há de se “convidar a platéia à reflexão”? Por acaso sou algum pastor para desejar a conversão de alguém?

O outro: (...)

Eu: Beleza! Não quero atrapalhar o joguinho. Aproveitei a visita para instituir minhas palavras terminais. Esta opinião será fatal. Tudo que eu disser, escrever e declarar aqui, será cristalizada pela eternidade desse ambiente... Pode ser? Posso alugar, por assim dizer, o teu cenário?

O outro: (...)

Eu: Quem cala consente. Qualquer dia desses eu volto. Falou!