domingo, dezembro 30, 2007

ARTE, RACISMO E A VISÃO CLASSE MÉDIA DO INUSITADO

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Não vou partir de nenhum pressuposto ou citação.
Arte no sentido obscuro e indefinível como cerveja.
Arte como produto consumível a fim de gerar conforto, e logo descartável, ou ao menos durável até a próxima limpeza dos armários.
Arte e racismo como resultado do esforço, energia aplicada do empreendedor para realizar o discurso anti-racista. O resultado são filmes, peças, textos, intervenções...

Mira Nair, Spike Lee, choque de culturas. Atrito de peles.

Minha pouca experiência com a diferença racial foi tensa, com alguns sinais de alerta. Às vezes senti necessidade de impor limites. Tudo breve.

Percebendo as diferenças e adaptações incompletas; senti necessidade de perder os acentos, nuances e modos. Acreditei que outra cultura é superior a minha. Lamentei a própria origem.

Não pleiteei cota na universidade nem pensei em solicitar indenização ao governo federal: japonês também é muito racista.
Minha mãe teve arrepios quando soube que minha primeira namoradinha era loira.
Proibiu o namoro.
Aplicou sermões, especulou sobre o resultado genético dessa união precoce.
“Imagine japonezinhos loiros? ”
Hoje em dia isso pode parecer normal.
A meninada japonesa pintam os cabelos de loiro e outras cores inaturais para o couro cabeludo. Fazem permanente e tranças rastafaris. Cirurgia “corretiva” no desenho dos olhos.
Mas em 1977, não tinha nada disso. Não havia Marilin Mason, só um comportado Ziggy Stardust, ou um carnavalesco Ney Matogrosso.
Apesar de tudo hoje tenho um japonezinho que não é purinho, sob muitos aspectos, parece que foi uma melhora na cepa. A criatura é mais bela que a soma dos genitores!
Isso porque me considero um fracasso estético.
Não sendo belo deveria ser feio. Se fosse feio teria um físico original ,o que denotaria personalidade. Sendo médio, nem feio muito menos bonito, sou apenas mais um.

Clichês, novamente.

Quando saio à campo, escolho o vestuário mais sóbrio.

Aprendi com os bonequeiros. Nobre arte!
Levei a coisa muito ao pé da letra.
Quem olha pela primeira vez, pela segunda... pela décima, tem a impressão de que sou, como já disseram, um funcionário de algum escritório, contador, engenheiro, professor...
Mesmo com o guarda roupa squeitista (sobras do caçula).

Foi um plano para criar contraste entre o Jorge “vida diária” e o Jorge “ator-bonequeiro”, e assim valorizar o artista.

Inúmeras vezes ouvi a surpresa das pessoas que me vêem antes e em seguida durante as apresentações; por fim, não acreditam que seja a mesma pessoa.
Acho que se sentem enganadas até.
Em outras situações infelizes, talvez ocorra uma frustração, porque as pessoas se afastam do palco.
Não se aproximam.

Termino só, desmontando o equipamento, no desligar das luzes... snif, snif!!!
Fico mal com isso.
Especulo que o espetáculo não tenha sido bom.
Mas pode ser que acreditem que eu seja louco! Temem estar diante de um esquizóide esquisito!!!

Agora a regra geral: sempre sou maltratado ou, pelo menos, tratado com displicência, quando chego a um lugar que não me conhecem; e após o espetáculo são todos coração aberto, ajudam, oferecem café (quando aceitam a normalidade da loucura), ou tratam um pouco melhor e logo em seguida, desaparecem.

Esse é problema de ser louco. Ou assume a loucura ou se disfarce em "sano". Louco recortado, não dá!

Talvez devesse ser um japonês loiro, acaju, abóbora, verde-limão.

Talvez mudar os aros do óculos, algo mais... Elton John.
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