sábado, setembro 15, 2007

A VIDA CONTINUA OQUE FAZ LEMBRAR DE UM CASO

Enquanto assistia o “docuvela” da vida do Renato Russo, na Globo, obtive luz sobre alguns aspectos do sucesso. Uma cena, num determinado momento o Legião Urbana está no estúdio e um produtor desabafa que tal guitarrista não toca “porra” alguma. Renato sai em defesa do amigo dizendo que o produtor não estava sabendo “porra” alguma do que era rock naqueles dias. Em seguida, uma cena com os elementos do Legião Urbana prometendo entre sí, chegar onde nem eles jamais imaginariam estar.
Eu não sendo músico, em minha restrita alfabetização musical, digo que aquela rapaziada não sabia tocar de verdade, mas estavam movidos pela determinação e vontade de provar que eram capazes.
Essa é a fórmula do sucesso, então!
Muito mais força de vontade do que a força do talento e da capacidade. Observe que ao invés de aprender a tocar, foram lutar para que reconhecessem sua “musicalidade” e principalmente, a sua mensagem.
Esse é o ponto.
Quando for vender a alma ao diabo. Calculem bem os termos do acordo para que a venda seja vantajosa. É como ir comprar laranjas e voltar apenas com a sacolinha do supermercado.

A memória.
Tento mudar o método. Impossível.
Devo fazer os atores, depois a partir das competências: criar a peça. Devo fazer os bonecos e do resultado, fazer o espetáculo.
Alterar essa ordem é ficar incapacitado de dar um passo adiante.
Voltei a fazer os bonecos. A peça está se criando.
A vida não é fácil mesmo e por mais que se deseje mudar a brincadeira, a mudança é insípida e acaba que voltamos a brincar os velhos brinquedos.
Não catei lixo na rua. Não estive num front de combate. Não tive trauma psicológico severo, jamais tive surto, depressão aguda, angústia crônica... apesar de querer ter passado por tudo isso, e poder dizer:

-“Não queiram passar pelo que passei”.

Nem por isso tenho poucas histórias para contar.
Foram situações normais que ascenderam a uma condição peculiar pelo fato de um atalho tornar-se grande volta. Uma parlapatice digna de relato:

Havia terminado uma temporada no Teatro João Caetano (V. Mariana) num espetáculo infantil.
Casa lotada, sempre, e não recebia pagamento. Como éramos semi- profissionais (DRT provisório), a produção enganava o elenco.
Fiquei um ano assim.
Depois, convidado para um estágio na Unicamp junto a um grupo de treinamento para atores. Teria que bancar minha despesa. Nem lembro como levantei a grana.
Eu, como todo ator iniciante era bobo e achava que iria conquistar as pessoas através de um permanente sorriso.
Levando coice e pensamento positivo.
Lá, em geral, só gente de cara amarrada e arrogante.
Qual o susto que levei quando o Luiz Otávio Burnier, coordenador de curso de Artes Cênicas, puxando papo comigo!? Pedindo opinião sobre umas coisinhas ali outras acolá!!
O resto só dava pitaco.
As atrizes de uma cia., convidou-nos, eu e o pessoal do estágio, para um jantar numa chácara perto de Taguatinga. Uma professorinha de dança deu carona para todos. A professorinha era muito invocada. Ela não ia com a minha cara. De qualquer forma, como era bobo peguei carona no carro dela até a chácara, ao invés de ficar quieto em Campinas. O carro foi abarrotado de gente.
A chácara tinha casa grande, tinha pomar, piscina e sauna. Adoro sauna e fui o último a sair.
Então aparece a diretora da cia. das atrizes. Ela estava grávida e minha primeira impressão sobre foi que era bonitinha, arrogante e rica. A diretora entrou na sala da sauna e despiu-se na maior quebra de protocolo: lá estava o barrigão de 7 meses, seios intumescidos, os pelos pubianos descabelados e a pele bronzeada e bonita.
Vi tudo isso em 2 ou 3 segundos e prendi o olhar no rosto dela. Ocasiões de nudez impessoal, como essa, sempre aconteceram na minha vida. A garota aparece do nada, fica pelada, mas não tem a intenção de propiciar a cópula. É pura exibição de poder e provocação. Se o macho destemperado ceder a provocação, perdeu!
Consigo manter uma atitude austera nesses momentos. Controlo a respiração e as batidas cardíacas. Suo um pouco na testa. Jamais fiquei ereto!
Na sauna, ficamos falando baboseiras de teatro, método, disciplina, subjetividades dramatúrgicas. Quando o pescoço ficou insuportavelmente dolorido, despedi-me para dirigir-me à casa grande.
Jantamos e no momento de sair a professorazinha invocada invocou que o carro não agüentaria levar todo mundo de volta: uma pessoa ( bastava uma!) deveria ficar. Os olhares vagaram pelas paredes da sala até que como num complô siciliano caíram sobre mim. Como um soldado colonial inglês, estufei o peito procurei manter o máximo de dignidade e soltei: Tá então eu fico!

Fiquei foi puto da cara. Aquilo era uma sacanagem da professorazinha. Perguntava qual seria o motivo? A mais clássica fodeção da pessoa com mínimo poder contra o coitado. Além disso estava com dinheiro contado e teria de pagar a passagem de ônibus até Campinas. Fiquei com muita, muita raiva.
Mas era uma visita social.
Era uma cia. de atrizes convidando gente que fazia teatro.
Havia entre elas uma adorável pessoa, Maria Bozanigo. Estava apresentando um solo em São Paulo e havia ministrado uma oficina na Unicamp e todos haviam participado.
Talvez para compensar, pois não consegui esconder minha frustração; ou talvez minha condição Mané lhe pareceu um clown. Ou tenha visto uma partícula potencial. Não sei.
Maria sentou-se, fixando seu par azulzão de olhos em mim, falando italiano. Ela era suíça do cantão itálico. Não entendi nada e nem queria entender, estava bravo e gastando o último ml. de paciência, ouvindo aquela suíça falando na minha orelha. A filha do ex-ministro João Saiad fazia parte da cia. e foi traduzindo.
Maria falava, perguntava e eu ia respondendo meio no piloto-automático. Estava pensando em voltar a Campinas à pé...
Ela insistia em saber se eu havia compreendido o eixo principal da oficina.
Já estava de saco cheio dos mestrinhos da Unicamp. Todos tinham uma pesquisa imaterial, trancendental, vocabulário incriado, traduzível em silêncio... todas essas metáforas antípodas, que não respondiam nada, não questionavam, palavras reverenciais, inertes e vazias...
E Maria voltava: Jorge! Você entendeu? Presta atenção...
E prestei atenção: aquela moça estava transmitindo um conhecimento exclusivo para mim. Minha mente se abriu e tudo que ela falou fez sentido e adequava não só com o conteúdo da oficina, mas como o procedimento completo de arte e vida.
A cia. das atrizes se chama SUNIL. É um prenome hindu. O nome de um menino na Índia, que eles homenagearam batizando a cia. E como no Bhagavat Gita, o longo poema de Krishna, versejado em um instante eterno a Arjuna, no prólogo da batalha entre primos, que matou milhões de pessoas. Como aquele poema que Arjuna não conseguiu reter, eu também não consegui.
Não recordo de nem uma vírgula, das palavras que aquela moça me revelou.
Lembro apenas que aquele foi um generoso presente, num momento de grande frustração.

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