quarta-feira, setembro 19, 2007

HUMOR, PODER E FRICÇÃO RACIAL

Calma! Deixei Câmara Cascudo ficou na prateleira.

Nos tempos adolescentes queria ser um guerreiro-asceta. No Japão existem os “yamabushi”, embrenham-se nas montanhas geladas e exercitam-se sob o jorro de quedas d´água, por horas, aquecidos apenas pelos sutras budistas. Talvez algo mais light como permanecer por semanas sentado de pernas cruzadas, sem comer, nem beber; focalizado num único som primordial: ooommmm!
O mais admiravel nestes indivíduos é a ilustração restrita o suficiente para a ascese. Leitura mínima, porém intensa, ardentemente refletida dos textos religiosos.
Queria este tipo de formação, devo confessar.
Quando se cresce, vamos necessitando de um alto volume de informações. Anseia-se por um acumulado de dados, sistematizado para uma resposta rápida, e basta.

Meu modo de vida exige outra configuração.
Hoje o humor é uma ferramenta importante no trabalho.
Meu treinamento disciplina a uma resposta rápida e contextualizada contra uma provocação.
É uma arma!
Acumulo informações e lido com elas em duelos imprevisíveis, sem ritos, avisos, covardes, gratuitos que ameaçam meu bem-estar.
Por ex.:
Fui visitar uma amiga com um bebê recém-nascido. Havia uma festa em que o marido recebia ex-colegas de trabalho. Achei que seria inconveniente, mas ela insistiu. Tentando enturmar, um dos colegas me interpela bruscamente:
- Quem é você?!?
Fiquei pasmo, mas como estava com um chopp na mão, disse:
- Sou o primo do Ricardão e vim para te dar o recado que está tudo bem em sua casa, não se preocupe.
Risadas gerais, mesmo assim não consegui me enturmar. Terminei rápido minha visita.

Outro dia estava com a Camerata Antiqua, no Hospital Pequeno Príncipe onde fariam um concerto e eu a parte “animada”. Havíamos apresentado alí. É sempre um tumulto. Pacientes e acompanhantes, os serviços continuam mesmo durante o concerto!
O melhor é relaxar.
Assim, pego o microfone e vou falando qualquer coisa, enquanto estou arrumando os bonecos e os músicos vão batendo papo e circulando por ali.
- ...Vamos iniciar o concerto no momento que o maestro R.H. estiver pronto... Está pronto maestro? Maestro?
O maestro estava deambulando entre as cadeiras, mergulhado em seus pensamentos em profunda contemplação, afinal é ascendente germânico:
-“...Bem o maestro não pode responder porque está em outro estado... Estado de São Paulo. Não!!!! Ele está num refinado estado estético, amparado pelas musas que sussurram os tons que serão apresentados hoje!”
Fraca mas eficaz, né?


Só tem graça na hora.
É o xiste disparado no ato, fresco como churro. Deteriora minutos depois. Se repetir fede, apodrecido! É volátil feito o flato.
E que deleite íntimo lembrar da presença de espírito suficiente para construir essas frases instantâneas!
E que admirável rigor para soltar a frase na medida, para sem ferir um brio ou torná-la de mal-gosto!
Opção sexual, deformidade física, a traição conjugal, raça, continuam sendo os temas campeões para piada. O humorista lida com esses temas e constrói o humor moderando a farpa das palavras. Já a pessoa comum usa a piada para tocar, incomodar o outro.
A espetada embalada no celofane do humor.
Durante muitos anos ser japonês era um estigma. Cheguei desejar ser latino. Não suportava ser chamado “japonês”!!! Em parte por meus pais terem uma conduta plenamente ocidental e o convívio maior com latinos. Há os parentes que na maioria eram agricultores ou pequenos comerciantes, com baixa escolaridade. É engraçado como os brasileiros latinos apropriaram da nacionalidade. Informalmente não se acham italianos, portugueses, espanhóis, mas apontam que sicrano é negro, beltrano é chinês e fulano alemão, polaco, judeu!
O cara tem cabelo ruinzinho não é liso como o japonês, legal é o meu que não espeta nem fica enrolado, cabelo de brasileiro!
Com muito custo superei essa rejeição. Agora encaro a japice com naturalidade.

Tô beleza com a minha beleza!

Preparava-me para mais um concerto na Camerata quando saudei um músico. Uma parte deles tem nomes germânicos, uma língua que não domino. E são judeus. E fiz uma pronúncia germanicamente incorreta do nome desse músico. Ele ficou constrangido e disse:
-“Tá longe”.
- “E como se pronuncia?”
Perguntei, e ele não respondeu. Um outro músico que vinha logo atrás fez a pronúncia correta. Registrei que o músico ficara chateado e durante muito tempo esse registro voltava como um alerta e apagava.
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Esses dias percebi: Antes faziam piada comigo. Hoje sou eu quem faz a piada!!!



PEQUENO PEDIDO PARA UM GRANDE AMIGO

Tenho um grande amigo que está com uma espécie de gastrite, intoxicação ou que o valha. Era um fiel companheiro de copo e garrafa. Ele é mais profissional que eu, e foi esse o pagamento que conquistou!
Peço que voltem suas orações a essa pobre alma que agoniza em suas raízes nutricionais, para que se recupere e volte a envergar majestoso um bom copo de cerveja!!
OREMOS FERVOROSAMENTE Á SÉRGIO DEL GIORNO!!




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