domingo, julho 15, 2007

CATANDO MILHO PRÁS CATADORAS DE COQUINHOS

Assisti “A Catadora de Ossos” do Distrito Federal, no Festival, dirigido pela adorável Isabela Brochado. Conheci-a em Ovar, Portugal, acompanhada pelo pulccinellista Bruno Leone.
Sou partidário dos amigos por isso “A Catadora de Ossos” é uma boa peça. A trilha musical é embaladora como um nino de criança. Isabela junto com Ana Bellacosta produzem as intervenções musicais. A peça seria quase carregada pela música não fosse a presença de uma atriz-bonequeira gordinha que não esconde a ótima escola de atores que vem de Brasília.
Mas tem uma coisa: o tempo.
A peça corre num tempo que não é do Brasil. Não é a hora do Brasil!
Sempre penso no tempo da peça. É uma ambição alterar a percepção temporal da platéia. Aliás, adoro produzir qualquer alteração sensorial. Não é sempre que se consegue e para obter qualquer alteração há de se controlar a maioria das variantes presentes no instante e no espaço que ocorre o evento teatral (cartesiano demais?...).
Então vamos lá.
Quanto tempo você suporta ouvir teu amigo?
Sentado numa mesa de bar, com cerveja gelada na mesa; pode ser fechados em casa tomando café, tudo bem... quanto tempo você consegue acompanhar o raciocínio da pessoa amiga, sem interrompê-la? Você suportaria 1:30h.? E se a pessoa não fosse sua amiga, se fosse desconhecida, suportaria pelo menos 30 minutos? 20? Um analista, psicólogo ouve até 60 minutos, não mais, porque é trabalho dele.
Então porque se determinou que uma peça deva durar mais que 60 minutos? Tem peça infantil que dura 50 minutos (dizem que é para não cansar!!!!!), a duração de uma aula em uma escola.
Acho que o brasileiro aprende com o estrangeiro e não adapta o aprendizado. É sôfrego em seguir fielmente os ensinamentos exógenos. Torna-se guardião rigoroso desses ensinamentos; chega a indicar apontar que está dentro dos parâmetros e quem está fora. Então a duração deve ter sido determinado num desses aprendizados. Que ninguém sabe direito por que.
Ora, aqui temos poucos ritos. Na verdade somos avessos a qualquer rito. Qual igreja que funciona? A que fica pulando, cantando e dançando. Candomblé, evangélica, carismática. Quem quer a igreja do rito em latim põe o dedo aqui... ninguém. Quem quer fazer yoga? Basta sentar em lótus e cantar 108 vêzes 108 om nama Shivaia! Quem quer? É yoga, coisa chique! Façam fila... dois, três... loucos.
Aqui se toma cafezinho no balcão. Se pelo menos tomassem o café turco, sentadinho, depois uma mentinha e muita conversa, duas ou três horas pela tarde. Que vagabundos! Não rola por aqui.
Um chá das cinco, cakes, sugar stones...two, I beg your pardon! Um chá-no-ryu, ritual do chá no Japão, 3 a 4 horas... ai se pode falar em alteração temporal. Aí tem platéia.
Uma curiosidade. Sabiam que no Japão tem gente que cura insônia assistindo a um teatro tradicional? Pois é cultura utilitária. Não tem preconceito.
Tempo, duração, alteração sensorial. Puxa nem senti o tempo passar.
Ouvir o outro.
Na peça da “Catadora...” há a cena em que a atriz gordinha interage com a platéia... ou pelo menos tenta. Estamos em Curitiba. A capital que mesmo odiando o espetáculo aplaude em pé. Tudo bem , sem levar em conta essa livre interpretação do código de etiqueta; delimitamos a questão apenas no conteúdo da cena em que a atriz questiona o indivíduo na sua relação com o catador de lixo. Mais uma vez o tempo torna-se soberano regente da atitude do ser-urbano: quem tem tempo para isso? E a peça não responde. A questão está resumida, porque o ser-urbano não ouve os pais, irmãos, amigos, filhos, esposa, marido, vizinhos, conhecidos, a cidade... Só ouve quando pagam, tempo é dinheiro. Minha atenção tem custo, mesmo as pessoas do meu círculo ouço duas frase. Por favor, fala logo... em resumo... seja claro... e por aí.
No resto a peça é jóia. Curitiba é um troço. E eu pra sobreviver aprendi a fazer o cara rir muito em 40 minutos, e jamais no ambiente conhecido do espectador reticente de uma sala tradicional de teatro.

E O FESTIVAL ACABOU.

Um comentário:

Joba Tridente disse...

Tempo é coisa de louco, mesmo.
Se a gente perder o tic...,
com o tac apenas
não vai catar coquinhos,
vai catar cavacos!
Orientando uma oficina, pra adolescentes q.q.tô.fzdo.ak,
apresentei uma história:
"A filha do rei em busca de marido",.
A história já vinha de muito.
Os bonecos estreavam e, não entenderam a frieza.
Neu eu. A gente não tava ruim.
Tempos depois, já nem lembrava mais do espetáculo, uma oficinanda me disse:
"Cara, adorei a sua apresentação!"
Foi a única! Foi sincera!
E eu pensei: Vai entender essa gente!
Quanto aos cavacos, os que peguei guardei.
Nunca se sabe quando vai precisar esquentar o público.