domingo, dezembro 30, 2007

ARTE, RACISMO E A VISÃO CLASSE MÉDIA DO INUSITADO

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Não vou partir de nenhum pressuposto ou citação.
Arte no sentido obscuro e indefinível como cerveja.
Arte como produto consumível a fim de gerar conforto, e logo descartável, ou ao menos durável até a próxima limpeza dos armários.
Arte e racismo como resultado do esforço, energia aplicada do empreendedor para realizar o discurso anti-racista. O resultado são filmes, peças, textos, intervenções...

Mira Nair, Spike Lee, choque de culturas. Atrito de peles.

Minha pouca experiência com a diferença racial foi tensa, com alguns sinais de alerta. Às vezes senti necessidade de impor limites. Tudo breve.

Percebendo as diferenças e adaptações incompletas; senti necessidade de perder os acentos, nuances e modos. Acreditei que outra cultura é superior a minha. Lamentei a própria origem.

Não pleiteei cota na universidade nem pensei em solicitar indenização ao governo federal: japonês também é muito racista.
Minha mãe teve arrepios quando soube que minha primeira namoradinha era loira.
Proibiu o namoro.
Aplicou sermões, especulou sobre o resultado genético dessa união precoce.
“Imagine japonezinhos loiros? ”
Hoje em dia isso pode parecer normal.
A meninada japonesa pintam os cabelos de loiro e outras cores inaturais para o couro cabeludo. Fazem permanente e tranças rastafaris. Cirurgia “corretiva” no desenho dos olhos.
Mas em 1977, não tinha nada disso. Não havia Marilin Mason, só um comportado Ziggy Stardust, ou um carnavalesco Ney Matogrosso.
Apesar de tudo hoje tenho um japonezinho que não é purinho, sob muitos aspectos, parece que foi uma melhora na cepa. A criatura é mais bela que a soma dos genitores!
Isso porque me considero um fracasso estético.
Não sendo belo deveria ser feio. Se fosse feio teria um físico original ,o que denotaria personalidade. Sendo médio, nem feio muito menos bonito, sou apenas mais um.

Clichês, novamente.

Quando saio à campo, escolho o vestuário mais sóbrio.

Aprendi com os bonequeiros. Nobre arte!
Levei a coisa muito ao pé da letra.
Quem olha pela primeira vez, pela segunda... pela décima, tem a impressão de que sou, como já disseram, um funcionário de algum escritório, contador, engenheiro, professor...
Mesmo com o guarda roupa squeitista (sobras do caçula).

Foi um plano para criar contraste entre o Jorge “vida diária” e o Jorge “ator-bonequeiro”, e assim valorizar o artista.

Inúmeras vezes ouvi a surpresa das pessoas que me vêem antes e em seguida durante as apresentações; por fim, não acreditam que seja a mesma pessoa.
Acho que se sentem enganadas até.
Em outras situações infelizes, talvez ocorra uma frustração, porque as pessoas se afastam do palco.
Não se aproximam.

Termino só, desmontando o equipamento, no desligar das luzes... snif, snif!!!
Fico mal com isso.
Especulo que o espetáculo não tenha sido bom.
Mas pode ser que acreditem que eu seja louco! Temem estar diante de um esquizóide esquisito!!!

Agora a regra geral: sempre sou maltratado ou, pelo menos, tratado com displicência, quando chego a um lugar que não me conhecem; e após o espetáculo são todos coração aberto, ajudam, oferecem café (quando aceitam a normalidade da loucura), ou tratam um pouco melhor e logo em seguida, desaparecem.

Esse é problema de ser louco. Ou assume a loucura ou se disfarce em "sano". Louco recortado, não dá!

Talvez devesse ser um japonês loiro, acaju, abóbora, verde-limão.

Talvez mudar os aros do óculos, algo mais... Elton John.
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sábado, dezembro 29, 2007

SESSÃO DE FÉRIAS

ENQUANTO A SOCIEDADE SOCIALIZA, INTERAGE E SE DESTRÓI. RECOMENDO UM SAUDÁVEL DISTACIAMENTO DISSO TUDO E UM MERGULHO REFRESCANTE NA FILMOGRAFIA DOS CATÁLOGOS DE DVDS;

ROMA:
Série da HBO, elenco inglês, é engraçado e pomposo ver romanos falando e agindo como british lords. Nada e pasta, mamas e raviólis voadores! Tudo soberbo e contido! Uma beleza!

24 HORAS:
Aventuras do Jack Bauer. Soemnte a partir da 3ª temporada.

LOST:
Já cansou!

BAND OF BROTHERS:
Relatos da Cia. Easy, durante a invasão da Normandia, Dia "D", II Guerra Mundial. Os paraquedistas são lançados além da linha alemã. É só encrenca. fiquei em choque quando eles encontram o primeiro campo de concentração de judeus! O que pensaram eles? Lembrar que o anti-semitismo era natural naquele tempo. Aliás eram anti-todos!

Boas férias!

2008 CHEGANDO E NÓS ESPERANDO.

Desculpa a ausência.
Administrando assuntos familiares de fim-de-ano, festas, presentes, estoques.
Resultado que não fiz festa nem participei de alguma.
Não dei presente e nem ganhei.
De estoque, comprei o básico: um porquinho, um franguinho e um boizinho para duas pessoas e meia, ou seja um pouquinho de cada.
Bebi uma garrafa de Concha Y Toro e uma long neck de cerveja. Ressalto que o vinho estou bebendo diluído em água e mel...
Recebi umas três ou quatro mensagens de natal recomendando paz e tranqüilidade, uma outra falava de calma. No grau etário dos meus auspiciosos 42 anos, é o que desejo.

Se me dissessem que meus 40 anos seriam assim, eu diria que disseram e eu acreditei.
Nada é mais forte que o poder hormonal e nada é mais forte do que a falta dele.
Com vinte anos reclamava dos músculos e dor nas costas. Com trinta não suportava som alto na vizinhança. Agora com 40, rezo por energia para poder trabalhar.
Não pense aqui que estou me achando velho.
Nada disso.
Já fui velho.
Hoje temo a invalidez. A fragilidade das células.

Mas há alguma vantagem em ter idade avançada. Tem-se um entendimento das coisas muito maior. Pode haver alguma inteligência precoce que desvende os mistérios revelados apenas pelo tempo.
Tenho informações sobre as mulheres que não posso usar. Lamento incrivelmente não ter tido esses conhecimentos quando era pivete.

O que eu faço com isso? Acho que vou escrever um manual de orientação sexual para adolescentes. Será que eles ainda lêem?
Na minha época li um ou dois desse manuais de orientação sexual. Comprei também um “método infalível para seduzir mulheres”, curso por correspondência. Aliás sou detetive particular: eu fiz o curso do Bechara Jalk! Curso por correspondência!


Bem, dos cursos aprendi que limpeza é fundamental. Não precisa ser bonito, mas o asseio é necessário.
Orientam a baixar a expectativa: “...há mulheres atraentes não só nas capas das revistas, mas nos caixas de supermercados e nas videolocadoras”.
Isso foi importante. Uma lição mal aprendida. Por ter alta expectativa, padrão elevado de preferências, perdi oportunidades maravilhosas. Quando tinha uma chance, uma boa oportunidade, empacava como qualquer adolescente de cara varada de espinhas.
A esse sábio ensinamento, acrescentaria: “quando uma não quer eu não bicarei”.
Como sofria! Como apaixonava! Como eu fixava em barca furada, meu deus! Por quê não partia para outra? Parecia um personagem de filme. A filmografia romântica é responsável pela educação sentimental do ocidente, com certeza. Nada é inocente, nada!

Mas falava em paz, tranqüilidade e calma...

Coisas que se deseja mas talvez não se obtém.
Esse finalzinho de 2007 foi...sangrento, não?
Só notícia chegando.
Humanidade frágil!
A única coisa que posso dizer é: desculpa, pessoal!
Às vezes se quer fazer as coisas de forma correta, por acreditar que de outra forma é incorreta. E tudo não passa de uma visão distorcida. Por isso, com 42 anos aprendi que muito pouco do que fiz foi correto e muito foi resultado de visão distorcida.

Para 2008, meu grande desafio será:
- levar tapa na cara e não revidar;
- apanhar e só então pensar se vale a pena revidar;
- passar longe de qualquer convocação para luta, combate etc.

Afinal, contato físico é sempre contato físico.

quinta-feira, novembro 22, 2007

ESCAPISMO, PELAMORDEDEUS!!!

Por favor! One just truly soap opera!!!!
Quero afogar-me na irrealidade fantasiosa.
Como devem ter percebido estou revisitando as décadas anteriores para filmes. Ver Fama, Bonequinha de Luxo, Descalços no Parque (Jane Fonda tesudíssima, Robert Redford parecendo um paquito)...

Não vi a Tropa de Elite.
Vi Harry Potter, tá uma merda de chato.
Não comprei o livro mas já sei que ele morre.
Como tudo afinal...

Mas existe um fôlego para arrematar 2007. Jack Aubrey vai em missão secreta nas Ilhas Maurício e Reunião, sudeste da África, combater a frota Napoleônica; convocado pelo Dr. Stephen Maturin: aaaaaaaaahhhhhhhh!!! (orgasmo polimúltiplo)
Saiu o 5º volume da coleção Mestre dos Mares de Patrick O´Brian. O comandante Aubrey está casado com Sophia Willians, mora com a sogra, uma sobrinha duas nenês gêmeas e a criadagem. O encontro de Maturin com as gêmeas dispensa comentários (trad. Domingos Demasi):


“Jack conduziu Stephen escada acima ao interior de um quartinho inclinado, sobre cujo soalho estavam sentados dois bebês carecas, vestidos com roupas limpas. Tinham o rosto pálido, globular e, no meio de cada rosto um nariz surpreendentemente comprido e pontudo que chamava a atenção da mente de um observador imparcial. Elas olharam firmemente para Stephen: ainda não haviam atingido a idade de qualquer contato social que fosse e não havia a menor dúvida de que o tinham achado desinteressante, maçante, até mesmo repelente: seus olhos derivaram para alhures, rejeitando-o, ambos os pares no mesmo exato momento. Podiam ser infinitamente velhas ou seres de outra espécie.
- Belas crianças - observou Stephen. – Eu as reconheceria em qualquer lugar.
- Não consigo distinguir uma da outra- comentou Jack.- Você não acreditaria na algazarra de que elas são capazes de fazer quando as coisas não são do seu agrado. A da direita deve ser Charlotte.-
Ele olhou-as e elas olharam, vigilantes. – Oque acha delas, Stephen?- perguntou, batendo sugestivamente na testa.
Stephen retomou seu papel profissional. Em sua época de estudante, ele fizera o parto de um número grande de bebês na Rotunda, mas, desde então, sua prática se restringira aos adultos, particularmente entre adultos do mar, e poucos homens de sua posição profissional podiam ser menos qualificados para essa tarefa; entretanto ele os levantava, auscultava seus corações e pulmões, abria suas bocas e perscrutava lá dentro, flexionava seus membros e fazia movimentos diante de seus olhos.
- Qual a idade delas?- indagou ele.
- Bem, já devem ser bem velhas- disse jack.- Elas parecem estar aqui uma eternidade. Sophia é quem sabe exatamente.
Sophia entrou, e Stephen, para seu prazer, viu ambas as criaturinhas perderem seu ar antigo, eterno; sorriram, sacudiram e estremeceram convulsivamente de alegria, meras larvas humanas.”


Estava tendo que me virar com uma biografia de Alexandre em simultâneo com um Michael Ontatjie soporífero. Ondatjie às vezes parece Hemingway em O Sol Tbém. se Levanta; às vezes parece que apenas “quer” imitar.
Enfim, estou salvo.

FALANDO EM SUPERAQUECIMENTO...

Fui correr no São Brás, Santo Inácio, dois bairros próximos daqui. Atravessei uma rua linda cheia de bosques de mata Atlântica nos terrenos ainda vazios. As construtoras estão ocupando, derrubando tudo. E quem compra ajardina com gramado e primaveras. Depois pagam por faxineiras para lavar suas calçadas com compressores de água. Isso quando fazem calçadas. Então as mulheres, donas de casa com diplomas universitários, em empregos de mentira, passam voando com os filhos em Ragers, Mitsubishis...
A humanidade não em salvação.

AGORA: TEATRO

Ainda bem que tenho esse blog. Falei aqui o que não consigo falar em uma oficina. Se levantasse um oitavo das questões que levanto aqui numa oficina, no segundo dia estaria vazia.
Certa vês disse que “devemos fazer um teatro que incendeie os corações”... Meio messiânico concordo. Mas estava na faculdade ainda, era jovem etc.
Recebi o apelido de Nero.
Não é para entristecer?


sábado, novembro 10, 2007

NOTAS SOCIAIS

TENHO O DEVER DE ANUNCIAR QUE NÃO ESTOU MAIS ORFÃO DE COMPANHIA ETÍLICA.
SERGIÃO GOOD FELLOW OF DRINK CARNIVALS, RETORNOU DE SEU CURTO SPA RENERGIZADOR.
ASSIM, EM FORMA, JÁ ATACA A PACIÊNCIA DE ALGUNS GARÇONS ORDENANDO QUE AS MESAS JAMAIS FIQUEM SECAS.

NOVEMBRO ANIVERSÁRIO DA COMPANHEIRA WANDA RAMOS, ESPONSA DE DEL GIORNO, EL MIGO FIDELO. ESCORPIANA NO HORÓSCOPO CALDEU E MACACA NO CHINES, ROGAMOS VIDA LONGA E PLENA DE OPORTUNIDADES FANTÁSTICAS E LUMINARES A ESSA MUJER DI ACERO! ALLALAÔ!

DESEJO FUERZA, ENERGIA Y SANGRE PARA EL AMIGO MANUEL CARLOS KARAM. QUE A RUDE VIAGEM QUE ATEAVESSA, ATRAVESSE DE UMA VEZ E REGENERE NO FORTE E PODEROSO COMO SEMPRE FOI.
ESTOU SEMPRE PENSANDO EM TI E SE A MENTE NÃO FOR SUFICIENTE BASTA CHAMAR QUE APLICO A FORÇA FÍSICA. EVOÉ MAESTRO!

SOUBE (~DE FONTE NON DIGNA ) QUE A SECRETARIA DE CULTURA DE ARAUCÁRIA PAGA AOS ALUNOS r$100,00 p/ mes como BOLSA ARTISTA, PARA DAR SUPORTE AO PESSOAL DE REAL NECESSIDADE. É UMA EXCELENTE NOTÍCIA. O PESSOAL DE LÁ BATALHA HÁ MUITO TEMPO E SÓ TINHA PROMESSA.
VAMOS VER SE VAI DESSA VEZ.

ACHO QUE ESTOU PREPARADO PARA TERMINAR A PEÇA NOVA. EU DISSE "PREPARADO".

FELIPE FALA "PAPÁ" QUE SIGNIFICA PAI E COMIDA; "MAMÂ" QUE É A LU E A COMIDA. FALA TBÉM. WA-WÁ QUE É CACHORRO. FALA U-VÁ-VÁ QUE É UVA, A FRUTA QUE ELE ADORA. "TÉÉ-TÉÉ-TÉÉ" É UMA BRONCA INTRADUZÍVEL QUE TALVEZ SIGNIFIQUE "ME DEIXE , SEUS FILHADAPUTAS!".
OS PROGRESSOS LINGUÍSTICOS DO MEU NENÊ.

ESTOU AJUDANDO A REDE SOL.
A COISA É BRAVA. CADA LUGAR QUE A GENTE NEM IMAGINA.
ASILO COM MANICÔMIO JUNTO, VELHINHO DEITADO FEITO CACHORRO.
A VIDA É FEITA PARA NÃO DURAR.
SEMANA QUE VEM VOU PARA ESCOLAS ESPECIAIS.
QUERO SÓ VER.





LOOKING FOR FAME





Em 1980, ou mais exato, em 1984, o Big Brother de Orwell não apareceu; surgiria em 2003 e pouco em cadeia nacional. Apesar de produzido em 80 o filme só foi lançado em 84 no Brasil: Fama, de Alan Parker.

O filme mais copiado em campanhas publicitárias, com a trilha mais chupada, com o visual mais imitado.

A música “Own My Own” que havia sido martelada pela Nika Costa durante quatro anos, foi interpretada por Irene Kara, no filme: e toma-lhe “Own My Own” em nova versão (embora acompanhada pelo mesmo piano!!!!!) por mais quatro.

As melhores cenas: a do táxi que para em frente a escola e toca a música tema do filme e Hot Lunch Jam, em que uma aluna direitinha entra na cantina esfumaçada, lotada de músicos, bailarinos e atores em completa zona, foram copiadas à exaustão.
Um cara inicia um tamborilar de baquetas sobre a mesa, o personagem Bruno Martelli abre o velho piano e dá as notas baixas, outro vai acompanhando, bailarinos sobre as mesas num crescendo e...

A escola do Fama existe. Foi inspirada na Fiorello H. LaGuardia High School, uma faculdade para música, artes plásticas e performáticas (teatro & dança), de Nova Iorque.

Talvez por esse filme, eu tenha seguido uma carreira artística. Em diversos momentos queria estar numa cantina como aquela de Hot Lunch Jam e tentava recriar aquilo com meus colegas de Educação Física (!?). Fiz Biodança, balé, kung fu para dançar algo parecido como aquela gente. Entrei num coral da terceira idade, com 19 anos, para aprender os rudimentos da cantoria. Por fim, tentei teatro, tentei Artes Cênicas na USP, Unicamp, porque queria uma formatura como aquela; mas acabei em Curitiba fazendo bonecos.
Nada mal!

Aquele frenesi de dança, música e drama foi extremamente sedutor.
Se hoje estou neste trabalho de contenção e economia de pulsões elétricas musculares, naquela década e nos vinte anos seguintes queria explodir em possibilidades, embriagar de adrenalina e daquele outro hormônio de recompensa (tanto tempo sem uso que esqueci).

Hoje fui apresentar o “Luvazine” numa escola do Cajuru, um trampo voluntário sem-remuneração. A escola estava aberta para atender a comunidade com serviços. Entrei, montei o palco. Algumas crianças vinham perguntar o que era aquela tenda de pano. Uns adultos perguntavam onde “tirava RG”. Apresentei o espetáculo no limite das cordas vocais, na verdade “marchei com o texto” porque as pessoas não pararam de falar. Na verdade falaram mais alto por causa do teatro... Nunca vejo a reação do público, ouço: algumas risadas, respostas às minhas intervenções, só. Não foi uma apresentação muito feliz. No final uns aplausos com retribuições dos bonecos. Sem me postar à frente para agradecer, percebi meia dúzia de pessoas distantes uns 8 metros do palco.
A representante da Regional veio me parabenizar. A diretora da escola quer que eu retorne em dezembro para o evento no salão nobre (tinha salão nobre?); soube que havia mais adultos que crianças e que uma mulher dobrava-se de rir... uma pelo menos.

Acho que Curitiba, a população maltrata demais o artista. Saio de trás do palco como se tivesse levado uma surra. Mas daí fico sabendo que gostaram e coisa e tal.

Esse é o caminho de Fama que escolhi.





quinta-feira, novembro 01, 2007

QUEM QUER SER BOZO?

Eu quero!
Não tenho nenhuma vontade de alcançar algum âmago estético. Nada ambicioso assim. Quando era bobo e acreditava nas vanguardas, revoluções, ações terroristas contra burguesia estabilizada, tinha vergonha de dizer que gostava de comer bem, passar a tarde a beira da piscina, tomando suquinhos compostos, coquetéis doces esse tipo de coisa viada, mas que é muito boa.

Já levei porrada de uma pseudo-crítica de que o que eu fazia em teatro estava sendo uma merda. Claro! Eu quero ser Bozo, porra! Vaga de Garibaldo já está tomado; teria que assassinar o Júlio na gaita e a bicharada no vocal, cocoricó... Não isso não.
Mas a vaga de Bozo tá vaga.

Outra coisa que é boa na vida desses tipos é a companhia, as ajudantes de auditório. Um séqüito dedicado de mocinhas, loucas pela fama, disciplinadas feito esquadrão de tropa de elite, com amor pela camisa, mesmo sem ela...

É uma celebridade oculta. Palhaço ou boneco, nunca a identidade secreta é revelada. Pois muito se sabe que a fama só é boa nos primeiros 15 minutos. Depois enche o saco! Aí a gente quer mesmo é por chinelo e bermuda, sair de barba crescida, com bafo, olhando feio para todo lado sem dizer bom dia para ninguém. Esse é o maior prazer e objeto de desejo de quem é realmente famoso.



terça-feira, outubro 30, 2007

NOVOS CAMINHOS PARA O TEATRO DE ANIMAÇÃO: HORIZONTES, RUMOS, TRILHAS, PASSOS, ÂNIMO!!!



Já vou falando.
Toda hora aparece um título como esse, em qualquer lugar deste Brasilzão.
A bacurinha acadêmica se coça e tomada de ímpeto aquariano, quer regenerar o guarda-roupa, fazer aquela palavra que faz uma semana que eu tento lembrar e não consigo; o diabo, é que talvez essa palavra esteja “out”. Algo como trocar o visual por outro, entenderam, né?
Recebo um mail de uma amiga em que os franco-belgas estão fazendo uma experiência radical no ramo da animação. É sobre manequins de vitrine. Atores interpretam manequins, interpretam os sentimentos dos manequins..., ..., ..., ..., (pasmo)!!!

Tá bom, brincadeira. Deve ser um espetáculo legal. Deve estimular a reflexão. Franceses são bons nisso, sempre foram. Mesmo exterminando argelinos... Tá bom, eu paro.

Mas aí manifesto minha caretice capricorniana. Essa que um astrólogo disse ser o empecilho da minha evolução espiritual, material e psíquica, ao que retruquei ser uma atitude prudente na vida. Na tréplica revidou que era caretice mesmo... Certo doutor Astral, o careta vai falar:

Por mais que se tente, nunca haverá a consolidação de uma “vanguarda”, “modernidade” ou novos caminhos, rumos etc. etc., no teatro de bonecos. Porque a cada passo além disso, o teatro de bonecos não será teatro de bonecos. Assim como literatura sem livro, deixa de ser. Pintura sem tableux, teatro sem ator, açougue sem carne, cozinha sem cozinheiro, puteiro sem puta ( já imaginou um puteiro com umas máquinas suga-porra, com filminho?) etc.
Observem o título desse texto: parará, parará...teatro de animação. Essa nomenclatura surgiu para depor o antigo teatro de bonecos e sobre os escombros da tradição erigir uma gloriosa era de contemporaneidade entre as mídias, que incluísse o pobre boneco, ou objeto animado. Só que nessa jornada ( engraçado que a direção para o moderno se imagina numa excursão à pé), iniciada sem o boneco tradicional (teatro com objetos de utilidade cotidiana) até no teatro sem o uso de qualquer objeto, adereço ou boneco, somente o ator-bonequeiro.
No caso da pesquisa franco-belga, a experiência, pelo que vi em fotos, ocorre sem bonecos, manequins ( não tem manequins, pelo menos??), somente atores, ou cientistas-artistas, pesquisadores-intérpretes. Tá , então não é mais teatro de bonecos ou de animação, é teatro! Ou pior, vitrine-viva. Não haviam desistido disso? Se estão exumando as ombreiras por que não reviver as vitrines-vivas?
Então vamos à definição:

Teatro de bonecos é a imantação (termo muito usado no século XIX) do boneco, causando a leitura de que tal objeto é vivo, reflexo de uma face da existência. Por boneco, compreende-se qualquer manufatura, artifício ou material.

Outra coisa.
Ponha no Google busca “teatro de animação ou forma animada”, o resultado é um monte de filmes de computação gráfica. Seja: a bandeira já caiu...

Estou pronto para os ovos e tomates...

quarta-feira, outubro 24, 2007

OUTUBRO VÁ...

Finda o mês e estou quase acabando os trabalhos, quase me acabando.
Nunca trampei tanto na minha vida! Algo em torno de 42 apresentações!!! Calcule a média em 31 dias...
Amanhã ministro uma oficina e lá serão mais 16 horas de trabalho. Isso sem falar nas horas empreendidas na produção do espetáculo novo, no desenvolvimento de novos projetos, na prestação de contas, envio de documentação e alguma frustração na perda de um ou outro edital.
Nesses últimos dias andei por alguns lugares interessantes. Na regional do Pinheirinho, conheci umas pedagogas gentilíssimas, como a Sarita onde recondicionei meus conceitos educativos.
Em Balsa Nova, tem a Celeste que é uma sósia da Juliana Paz mais magrinha, psico-pedagoga da Secretaria de Educação, uma graça só. As crianças vinham para a Celeste e a enchiam de beijo e abraço. Pensei que era uma atitude usual, que ela era conhecida das crianças, mas ela confessou que nunca fora tão beijada na vida. Só estavam sendo gratas pelo teatro de bonecos. Com um japa estranho como eu, melhor é beijar a Juliana Paz, admito.
Balsa Nova não tem só beleza natural como a Celeste. Primeiro tem aquela serrinha que apóia São Luiz do Purunã, uma presença permanente na visão. Aos pés dessa cuesta espalham bosques, plantações de trigo e pequenas propriedades cheias de pequenos segredos.
Sabe que produzem queijo, vinho, vinho de jaboticaba, vinho de pêssego, vinho de uva, até; mas nunca se encontra os produtos.
Por todos os lugares se vê as pequenas parreiras e as ovelhas. Lugares como Campo do Meio, Rodeio São José, Bugre, São Caetano, lugarzinhos, bairrinhos com igrejinhas.
Há uma escola que parece sítio. Tudo aberto, ensolarado, crianças e professoras alegres. A diretora, a Tata, com um olhão verde e um barrigão de sete meses, linda, ficou com a gente o tempo todo, proseando, tricotando e atendendo uma situação ou outra.
Por lá tem a Itambé, a fábrica de cimento, que racha as montanhas e devolve cineminha e alguma obra de concreto para as vilas ao redor.
Tem a mina de ouro em algum lugar; que se chega meio marcando a hora, meio na clandestinidade.
E tudo isso apresentando o “Luvazine”, que eu não agüento mais fazer.

segunda-feira, setembro 24, 2007

INTOLERÂNCIA À FRENTE, CUIDADO!

Já disse que quando me pedem para cortar determinada cena para não ir de encontro a crenças ou convicções, não discuto, CORTO!
Mas quando falam na minha cara que tal cena é “apelativa”, “desperta a sensualidade” (!?), isso já é mais complicado.
Quando algum diretor de escola pública, recebendo um espetáculo pago com verba pública, ultrapassa a linha que separa a estética teatral do teatro pedagógico-rei-leão-bela-e-a-fera para reclamar de indecência e pouca vergonha, então algo de grave está acontecendo.
Escola Municipal Enéas Faria, cuidado artistas! Ali reina a disciplina cristã e a intolerância aos questionamentos e a mínima fruição do livre pensamento. - São crianças! Argumenta a diretora.
Sim, diretora, e as crianças gostaram da peça em que um fantoche em trajes em estilo turco, desenvolvia uma dança do ventre com um par de bolas de pano à modo de tetas... Isso, segundo a percepção da diretora, despertou a libido da criançada.
Deus me livre de in-to-le-rân-ci-a, madre superiora!

quarta-feira, setembro 19, 2007

HUMOR, PODER E FRICÇÃO RACIAL

Calma! Deixei Câmara Cascudo ficou na prateleira.

Nos tempos adolescentes queria ser um guerreiro-asceta. No Japão existem os “yamabushi”, embrenham-se nas montanhas geladas e exercitam-se sob o jorro de quedas d´água, por horas, aquecidos apenas pelos sutras budistas. Talvez algo mais light como permanecer por semanas sentado de pernas cruzadas, sem comer, nem beber; focalizado num único som primordial: ooommmm!
O mais admiravel nestes indivíduos é a ilustração restrita o suficiente para a ascese. Leitura mínima, porém intensa, ardentemente refletida dos textos religiosos.
Queria este tipo de formação, devo confessar.
Quando se cresce, vamos necessitando de um alto volume de informações. Anseia-se por um acumulado de dados, sistematizado para uma resposta rápida, e basta.

Meu modo de vida exige outra configuração.
Hoje o humor é uma ferramenta importante no trabalho.
Meu treinamento disciplina a uma resposta rápida e contextualizada contra uma provocação.
É uma arma!
Acumulo informações e lido com elas em duelos imprevisíveis, sem ritos, avisos, covardes, gratuitos que ameaçam meu bem-estar.
Por ex.:
Fui visitar uma amiga com um bebê recém-nascido. Havia uma festa em que o marido recebia ex-colegas de trabalho. Achei que seria inconveniente, mas ela insistiu. Tentando enturmar, um dos colegas me interpela bruscamente:
- Quem é você?!?
Fiquei pasmo, mas como estava com um chopp na mão, disse:
- Sou o primo do Ricardão e vim para te dar o recado que está tudo bem em sua casa, não se preocupe.
Risadas gerais, mesmo assim não consegui me enturmar. Terminei rápido minha visita.

Outro dia estava com a Camerata Antiqua, no Hospital Pequeno Príncipe onde fariam um concerto e eu a parte “animada”. Havíamos apresentado alí. É sempre um tumulto. Pacientes e acompanhantes, os serviços continuam mesmo durante o concerto!
O melhor é relaxar.
Assim, pego o microfone e vou falando qualquer coisa, enquanto estou arrumando os bonecos e os músicos vão batendo papo e circulando por ali.
- ...Vamos iniciar o concerto no momento que o maestro R.H. estiver pronto... Está pronto maestro? Maestro?
O maestro estava deambulando entre as cadeiras, mergulhado em seus pensamentos em profunda contemplação, afinal é ascendente germânico:
-“...Bem o maestro não pode responder porque está em outro estado... Estado de São Paulo. Não!!!! Ele está num refinado estado estético, amparado pelas musas que sussurram os tons que serão apresentados hoje!”
Fraca mas eficaz, né?


Só tem graça na hora.
É o xiste disparado no ato, fresco como churro. Deteriora minutos depois. Se repetir fede, apodrecido! É volátil feito o flato.
E que deleite íntimo lembrar da presença de espírito suficiente para construir essas frases instantâneas!
E que admirável rigor para soltar a frase na medida, para sem ferir um brio ou torná-la de mal-gosto!
Opção sexual, deformidade física, a traição conjugal, raça, continuam sendo os temas campeões para piada. O humorista lida com esses temas e constrói o humor moderando a farpa das palavras. Já a pessoa comum usa a piada para tocar, incomodar o outro.
A espetada embalada no celofane do humor.
Durante muitos anos ser japonês era um estigma. Cheguei desejar ser latino. Não suportava ser chamado “japonês”!!! Em parte por meus pais terem uma conduta plenamente ocidental e o convívio maior com latinos. Há os parentes que na maioria eram agricultores ou pequenos comerciantes, com baixa escolaridade. É engraçado como os brasileiros latinos apropriaram da nacionalidade. Informalmente não se acham italianos, portugueses, espanhóis, mas apontam que sicrano é negro, beltrano é chinês e fulano alemão, polaco, judeu!
O cara tem cabelo ruinzinho não é liso como o japonês, legal é o meu que não espeta nem fica enrolado, cabelo de brasileiro!
Com muito custo superei essa rejeição. Agora encaro a japice com naturalidade.

Tô beleza com a minha beleza!

Preparava-me para mais um concerto na Camerata quando saudei um músico. Uma parte deles tem nomes germânicos, uma língua que não domino. E são judeus. E fiz uma pronúncia germanicamente incorreta do nome desse músico. Ele ficou constrangido e disse:
-“Tá longe”.
- “E como se pronuncia?”
Perguntei, e ele não respondeu. Um outro músico que vinha logo atrás fez a pronúncia correta. Registrei que o músico ficara chateado e durante muito tempo esse registro voltava como um alerta e apagava.
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Esses dias percebi: Antes faziam piada comigo. Hoje sou eu quem faz a piada!!!



PEQUENO PEDIDO PARA UM GRANDE AMIGO

Tenho um grande amigo que está com uma espécie de gastrite, intoxicação ou que o valha. Era um fiel companheiro de copo e garrafa. Ele é mais profissional que eu, e foi esse o pagamento que conquistou!
Peço que voltem suas orações a essa pobre alma que agoniza em suas raízes nutricionais, para que se recupere e volte a envergar majestoso um bom copo de cerveja!!
OREMOS FERVOROSAMENTE Á SÉRGIO DEL GIORNO!!




sábado, setembro 15, 2007

A VIDA CONTINUA OQUE FAZ LEMBRAR DE UM CASO

Enquanto assistia o “docuvela” da vida do Renato Russo, na Globo, obtive luz sobre alguns aspectos do sucesso. Uma cena, num determinado momento o Legião Urbana está no estúdio e um produtor desabafa que tal guitarrista não toca “porra” alguma. Renato sai em defesa do amigo dizendo que o produtor não estava sabendo “porra” alguma do que era rock naqueles dias. Em seguida, uma cena com os elementos do Legião Urbana prometendo entre sí, chegar onde nem eles jamais imaginariam estar.
Eu não sendo músico, em minha restrita alfabetização musical, digo que aquela rapaziada não sabia tocar de verdade, mas estavam movidos pela determinação e vontade de provar que eram capazes.
Essa é a fórmula do sucesso, então!
Muito mais força de vontade do que a força do talento e da capacidade. Observe que ao invés de aprender a tocar, foram lutar para que reconhecessem sua “musicalidade” e principalmente, a sua mensagem.
Esse é o ponto.
Quando for vender a alma ao diabo. Calculem bem os termos do acordo para que a venda seja vantajosa. É como ir comprar laranjas e voltar apenas com a sacolinha do supermercado.

A memória.
Tento mudar o método. Impossível.
Devo fazer os atores, depois a partir das competências: criar a peça. Devo fazer os bonecos e do resultado, fazer o espetáculo.
Alterar essa ordem é ficar incapacitado de dar um passo adiante.
Voltei a fazer os bonecos. A peça está se criando.
A vida não é fácil mesmo e por mais que se deseje mudar a brincadeira, a mudança é insípida e acaba que voltamos a brincar os velhos brinquedos.
Não catei lixo na rua. Não estive num front de combate. Não tive trauma psicológico severo, jamais tive surto, depressão aguda, angústia crônica... apesar de querer ter passado por tudo isso, e poder dizer:

-“Não queiram passar pelo que passei”.

Nem por isso tenho poucas histórias para contar.
Foram situações normais que ascenderam a uma condição peculiar pelo fato de um atalho tornar-se grande volta. Uma parlapatice digna de relato:

Havia terminado uma temporada no Teatro João Caetano (V. Mariana) num espetáculo infantil.
Casa lotada, sempre, e não recebia pagamento. Como éramos semi- profissionais (DRT provisório), a produção enganava o elenco.
Fiquei um ano assim.
Depois, convidado para um estágio na Unicamp junto a um grupo de treinamento para atores. Teria que bancar minha despesa. Nem lembro como levantei a grana.
Eu, como todo ator iniciante era bobo e achava que iria conquistar as pessoas através de um permanente sorriso.
Levando coice e pensamento positivo.
Lá, em geral, só gente de cara amarrada e arrogante.
Qual o susto que levei quando o Luiz Otávio Burnier, coordenador de curso de Artes Cênicas, puxando papo comigo!? Pedindo opinião sobre umas coisinhas ali outras acolá!!
O resto só dava pitaco.
As atrizes de uma cia., convidou-nos, eu e o pessoal do estágio, para um jantar numa chácara perto de Taguatinga. Uma professorinha de dança deu carona para todos. A professorinha era muito invocada. Ela não ia com a minha cara. De qualquer forma, como era bobo peguei carona no carro dela até a chácara, ao invés de ficar quieto em Campinas. O carro foi abarrotado de gente.
A chácara tinha casa grande, tinha pomar, piscina e sauna. Adoro sauna e fui o último a sair.
Então aparece a diretora da cia. das atrizes. Ela estava grávida e minha primeira impressão sobre foi que era bonitinha, arrogante e rica. A diretora entrou na sala da sauna e despiu-se na maior quebra de protocolo: lá estava o barrigão de 7 meses, seios intumescidos, os pelos pubianos descabelados e a pele bronzeada e bonita.
Vi tudo isso em 2 ou 3 segundos e prendi o olhar no rosto dela. Ocasiões de nudez impessoal, como essa, sempre aconteceram na minha vida. A garota aparece do nada, fica pelada, mas não tem a intenção de propiciar a cópula. É pura exibição de poder e provocação. Se o macho destemperado ceder a provocação, perdeu!
Consigo manter uma atitude austera nesses momentos. Controlo a respiração e as batidas cardíacas. Suo um pouco na testa. Jamais fiquei ereto!
Na sauna, ficamos falando baboseiras de teatro, método, disciplina, subjetividades dramatúrgicas. Quando o pescoço ficou insuportavelmente dolorido, despedi-me para dirigir-me à casa grande.
Jantamos e no momento de sair a professorazinha invocada invocou que o carro não agüentaria levar todo mundo de volta: uma pessoa ( bastava uma!) deveria ficar. Os olhares vagaram pelas paredes da sala até que como num complô siciliano caíram sobre mim. Como um soldado colonial inglês, estufei o peito procurei manter o máximo de dignidade e soltei: Tá então eu fico!

Fiquei foi puto da cara. Aquilo era uma sacanagem da professorazinha. Perguntava qual seria o motivo? A mais clássica fodeção da pessoa com mínimo poder contra o coitado. Além disso estava com dinheiro contado e teria de pagar a passagem de ônibus até Campinas. Fiquei com muita, muita raiva.
Mas era uma visita social.
Era uma cia. de atrizes convidando gente que fazia teatro.
Havia entre elas uma adorável pessoa, Maria Bozanigo. Estava apresentando um solo em São Paulo e havia ministrado uma oficina na Unicamp e todos haviam participado.
Talvez para compensar, pois não consegui esconder minha frustração; ou talvez minha condição Mané lhe pareceu um clown. Ou tenha visto uma partícula potencial. Não sei.
Maria sentou-se, fixando seu par azulzão de olhos em mim, falando italiano. Ela era suíça do cantão itálico. Não entendi nada e nem queria entender, estava bravo e gastando o último ml. de paciência, ouvindo aquela suíça falando na minha orelha. A filha do ex-ministro João Saiad fazia parte da cia. e foi traduzindo.
Maria falava, perguntava e eu ia respondendo meio no piloto-automático. Estava pensando em voltar a Campinas à pé...
Ela insistia em saber se eu havia compreendido o eixo principal da oficina.
Já estava de saco cheio dos mestrinhos da Unicamp. Todos tinham uma pesquisa imaterial, trancendental, vocabulário incriado, traduzível em silêncio... todas essas metáforas antípodas, que não respondiam nada, não questionavam, palavras reverenciais, inertes e vazias...
E Maria voltava: Jorge! Você entendeu? Presta atenção...
E prestei atenção: aquela moça estava transmitindo um conhecimento exclusivo para mim. Minha mente se abriu e tudo que ela falou fez sentido e adequava não só com o conteúdo da oficina, mas como o procedimento completo de arte e vida.
A cia. das atrizes se chama SUNIL. É um prenome hindu. O nome de um menino na Índia, que eles homenagearam batizando a cia. E como no Bhagavat Gita, o longo poema de Krishna, versejado em um instante eterno a Arjuna, no prólogo da batalha entre primos, que matou milhões de pessoas. Como aquele poema que Arjuna não conseguiu reter, eu também não consegui.
Não recordo de nem uma vírgula, das palavras que aquela moça me revelou.
Lembro apenas que aquele foi um generoso presente, num momento de grande frustração.

quarta-feira, setembro 05, 2007

PUPPET GO SHOP!

Aproveitando a licença paternidade de duas horas fui pagar os impostos da empresa. Aproveitei para consultar os preços do varejo.

Passei pela Americana S.A., tudo caro. DVDs sem repor o estoque na média de R$9,90 e R$12.99, como sempre.

Na Siciliano encontrei um Byron fora de catálogo, Beppo, um a narrativa poética sobre a vida devassa e sórdida em Veneza: R$25,00!! Achei infame o valor e não comprei. Onde já se viu? Byron a R$25,00!!!!

Achei uma Top Livros, ponto-de-estoque na esquina da Amintas com a Presidente Pedrosa. Logo na entrada, uma coleção de mangás da Conrad. Havia um Mattoti, Estigmas que custa R$40,00 e estava por R$9,00... Um Casanova quadrinizado por Hunt Emerson, que desenhou o melhor orgasmic-comic em “O Amante de Lady Charttelly” (totalmente bronhável). Havia Evangelion que acho lindo e o Vagabond, a vida in mangá de Miyamoto Musashi, um samurai auto-didata e iconoclasta até hoje idolatrado no Japão.
- Jane Spitfire de Augusto Boal a R$9,00, capa dura, douração na lateral das folhas.
- Curva do Rio Sujo, do Joca a R$5,00.
- Livros da Conrad: R$9, 7 e 5.
- Filhas do Segundo Sexo, Paulo Francis R$5.

Enfim uma afronta pagar isso por livro. O duro que não serve de peso pra porta porque são fininhos.

terça-feira, setembro 04, 2007

Fim de tarde, sentado diante do pc.

Tenho que escrever uma peça nova e não tenho absolutamente idéia alguma.
Aí o Felipe chega e dá um caminho.
Aqui está o primeiro texto do filhotinho:

Nnw,X kokk,hyhaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa weeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee,as\ AAq

Muito bom!! Dá para deixar qualquer concreto cinza de inveja...

Este é o ponto de reflexão.
Talvez não seja falta de idéias iniciais, mas a falta de idéias vendáveis para o público que compra meus espetáculos. Atender encomendas é difícil. Achava que justamente era essa minha maior habilidade. Agora me encontro vazio e seco de soluções.
E novamente o processo titeriteiro se inicia. É fabricando minhas marionetes, meus fantoches que o espetáculo toma forma. Da mesma forma que as dinâmicas de grupo, os exercícios e o laboratório de atores vai se desenvolvendo e o resultado final fica óbvio qual direção tomar no espetáculo; assim é com a manufatura das matérias-prima que serão bonecos.
E eles estão justamente lá, fincados no isopor, brancos de tinta base, aguardando a pintura definitiva. A mim resta aguardar, diante do computador, a idéia surgir e a explosão do texto espalhara em minha mente...
Deve ser o machismo inconsciente, clamando por domínio. Ter o texto impresso e pronto para ensaiar. Queria pegar a matéria abstrata e após processá-la em texto, ter em mãos uma peça de teatro. Queria. O que acontece é que a obra é um roteiro que não é seguido, mas construído. Parece um ato pioneiro, um desbravamento. Um terreno desconhecido que vai sendo mapeado, lentamente. Dolorosamente lento. Tediosamente.
Lento.



segunda-feira, agosto 13, 2007

De que me lembro!

Como podem perceber, estou sem assunto titeritesco faz tempo. É por estar de férias e com toda a produção parada por simples, pura e espero, momentânea falta de idéias. Em alguns dias estarei novamente na estrada e talvez haja algo digno de relatar para o deleite de vossas pupilas delicadas, estimados amigos.

Enquanto isso, resgato uma lembrança motivado pelo relato de falecimento de alguém; câncer de próstata. É incrível morrer de câncer de próstata. Imagino, leigo que sou, que se eu tiver diagnóstico de tumor prostatástico, não titubeie em solicitar ao honrado cirurgião que extirpe impiedosamente o arcabouço de tal enfermidade: -“Pode capar, doutor!!!”
Sempre fui devoto das terapias naturalistas, macrobióticas e orientais, desde a adolescência sempre me apeguei a elas. Tive educação germânica numa família japonesa (não precisa reter as lágrimas!). Era cobrado pelo alto investimento em detrimento da apresentação de baixos resultados na escola. Então o que eu fazia? Tinha miopia e não consertava os óculos. Por isso rendia cada vez menos nas provas. Ia no dentista e pedia para não aplicar anestesia e descontar no orçamento. Desligava a eletricidade do chuveiro e quando lavava as panelas economizava água... eu era um herói.
Falava da próstata...
De tanto ver campanhas procurei um urologista. De cara pedi um exame de toque retal e manifestei interesse por um exame de fertilidade. O douto medicador disse:
-“Péralá, uma coisa de cada vez: fertilidade primeiro...”

Já falei que esse foi o mais chato exame que já fiz na vida. Porque o douto ex-acadêmico da hipocrácia, queria uma coleta de esperma in-vigor. Ou seja, que eu transasse com minha adorada esposa e na hora da dispersão do pólen, o douto “exigiu” que eu usasse de meus poderes yóguico tântricos e retivesse a explosão de prazer, estendesse o outro membro superior, que é o braço ademais o dito membro já estaria muito ocupado, lutando bravamente; tomasse o potinho plástico, desrrosqueasse e... AAAAaaaaahhhh. Tarde demais. Juro, juro, juro que tentei. Por fim fiz a coleta solitária. O douto cientista uretral deu-me um severo puxão-de-orelhas, argumentando a coleta solitária era ineficaz e não representativa dos reais índices de fertilidade. Que desejava e-xa-ti-dão. Contra-argumentei que nunca fora um homem e-xa-to!
O médico era um garotão loiro cacheado, bronzeado, altão, enfim, bonitão. Sabe de uma coisa. Tenho ressalvas com gente bonita. O cara é bonito, sorte dele. Hoje sabemos que a beleza se cultiva. Ela é proposital e não natural. Tem que investir para criar e manter. E o Narciso se alimenta disso. Há uma alta taxa de auto-homossexualidade no narcisista. Quando você suplanta reflexo do narcisista, aí é um problema: ele se apaixona por ti.
Estava peladinho para o exame geral (o toque retal ainda não rolou), o douto aponta:
-“ Que é isso aí!” Eram as cicatrizes dos pontos de moxabustão, acupuntura por combustão que eu recebera; lembre-se que eu ERA um herói.
-“Isso é marca de nascença, aquilo é necrose de heroína, esta é de cocaína e esta é maconha; se em oito anos de estudo não reconhece uma cicatriz por combustão...
O médico ficou quieto, mas vi que ele gostou da resposta.
Desde então não quis mais saber do exame de próstata.

quinta-feira, agosto 02, 2007

O MUNDO TÁ UMA LOUUCURAA!!..

O Sergião queria que eu reeditasse as histórias da esquina da fama, no Água Verde. Só pra fazer jabá do último famoso daquele lugar o medalha de prata no boliche que é padeiro onde eu comprava coca-cola. Vê como o mundo está invertido? Você passa 18 anos num banco escolar para aprender que padaria é onde se faz pão, sapataria conserta sapato, mecânico conserta carro, bombeiro apaga incêndio.
Na verdade, padaria é pra comprar cigarro (como não fumo compro coca), sapataria eu passo em frente porque sapato velho se joga fora, bombeiro serve pra comer mulher famosa. Só o mecânico me mantém são o pouco raciocínio, por enquanto...

Mas aqui na Santa Felicidade, que ainda é Curitiba e portanto tem sua cota razoável de louquinho, tem também seus passa-tempos.
Estava na fila do Bradesco, tentando imaginar onde seria a famosa casa de swing da Santa Felicidade, quando vejo uma velhinha sendo instada pela caixa do banco a tomar seu lugar na fila. A velhinha tinha cabelos médios, lisos e tingidos de preto; tinha a pele branca e úmida; era gordinha e baixa. Como não sou curitibano, ofereci meu lugar na fila.
A velhinha soltou-se e começou a desfiar seu rosário de lamentos. Disse que sofrera um acidente e quase morrera. Respondi que não parecia e que ela, recuperada, podia sofrer outro acidente.
Disse que seu médico estava lá em cima, apontando para o céu... Eu olhei para o alto.
No começo fiquei com medo porque achei que ela sendo louca podia entrar em crise e partir para cima de mim; com louco é melhor não dar trela.

Devo ser louco também para falar essas coisas em público, para uma pessoa desconhecida.
Ela falou que teve um ataque epilético enquanto acendia o fogão, desmaiou e ficou sendo cozida pela boca acesa do fogão. Ficou queimada do abdômen até o rosto. A velhinha levantou a blusa para mostrar a pele queimada cicatrizada. Coisa feia!
No final era uma boa mulher e não me bateu.




Ficamos contando vantagem um para outro. Eu disse que perdera a mãe com câncer no fígado. Ela perdera 12 parentes para o câncer. Cheguei a citar o amigo escritor, mas ele não conta porque está vivo e se recuperando. Nem me deixou terminar de contar o drama do amigo: não tome meu tempo com essas trivialidades de gente se recuperando?
Somando minha mãe e um conhecido de Bauru que morreu de aids, perdi desgraçadamente da velhinha e seus 12 heróicos parentes.
Tive que apelar:
A senhora aí lutando! E tem gente com saúde que vive reclamando. Ah, ela se derreteu toda!

Que acidente da Gol!
Que acidente da TAM!
Que ponte que caiu?
Pinga de barril!!!




segunda-feira, julho 30, 2007

BERGMAN NA PRAIA

NAQUELA PRAIA DE CASCALHOS ONDE O CÉU NEBULOSO CONFUNDE COM O CINZA DO MAR. DOIS HOMENS SENTADOS SOBRE PEDRAS LAVRADAS POR MUITAS ONDAS. UM É BERGMAN, OUTRO VESTE A TÚNICA NEGRA E A FACE PÁLIDA SILENTE E CALCULISTA. ENTRE ELES O TABULEIRO DE XADREZ. :
Bergman: Xeque!
O Morte: ...
Bergman: XEQUE!
O Morte:...
Bergman: Xeque-mate!!!
O Morte: PUTA QU´EU PARIU!
Bergman: A tua!
O Morte: Mais uma...

Perdi meu lugar para declarações fatais.

ENQUANTO ISSO, NUMA TRIBO PAULISTANA.

Estou em Bauru para comemoração dos dois aniversários do meu filhote. Cada avô quiz fazer uma festinha do seu jeito. Tempos de economia virtuosa.

Então, quando acaba a correria da festinha o que resta, uma desinteria no pequenino porque todos os parentes querem agradá-lo com docinho, salgadinho, carninha... Sem falar o apurado experimentalismo gastronômico dele próprio em que pôs na boca de água da piscina até ração da gata... Claro que bebeu a água da cachorrinha da sogra, mas trata-se de uma cadela familiar, quase uma parente também. De qualquer modo parentes, todos eles são prejudiciais para a saúde de um bebê de um ano.

Então:
depois que acabaram as festinhas, os parentes se foram e a desinteria do filhote se acalmou; a gente para pra pensar que a peça nova, toda louca e psicótica, alucinada está é muito careta. Percebemos que a vida em si é muito mais pesada que qualquer droga sintetizada em laboratório. Tem hora que a gente já se vê tirando toda a roupa, tosando a careca, abrindo a porta da rua e saindo pulando fazendo crururu-crururu...

Pensava em criar uns personagens meio Hiyeronnimus Borsch, criar situações meio Dadás, meio loucas como se dizia na década de 80. Cara, e como tá tudo louco sem que se seja! Louco é ficar sóbrio. Como se destaca um sóbrio, pensam que o cara é doente! Interna o cara! É doido!
ENTÃO... Acho que o demais é fazer uma peça caretaça. Isso é que é ser louco!

quarta-feira, julho 18, 2007

A CELEBRIDADE DA IGNORÂNCIA

O homem de manto negro, jogando xadrez na praia inóspita.
Opa, posso sentar aqui? Só vou falar algumas palavrinhas e já caio fora. Xiii, vão comer tua rainha. Deixa quieto.

O ano está bom para cultura, já para usina atômica e transporte aéreo, não. Para condomínios a coisa está meio psicopática...
Enfim, o pessoal dos títeres está trabalhando um monte. Eu estou trabalhando bem mais. Mas há de se crescer no conjunto. Não adianta o bolso estar saudável e a percepção turva.
Alguns meses atrás estive num desses festivais star system. No camarim, vinho almadén, cerveja bohêmia, salgadinhos. No palco, equipamento e equipe profissionais.
Convidei o meu amigo e colega blogueiro Sergião, para minha sonoplastia e assim desfrutar de uns momentos no outro lado da platéia.
Encontramos uma estrela em franca ascensão, um colega bonequeiro. Saudei-o vivamente ao que respondeu:
- ...depois de tanta batalha, agora estou aí, (no dito festival) entre os melhores!”
Estas palavras não saem da minha cabeça. Aparentemente denotam a constatação redundante de um artista de sucesso para outro artista (eu). Mas foi um desabafo. Deve ter ouvido muito em permanente mudez. Eu ao contrário caço a oportunidade para revidar a crítica e a impertinência. O verniz civilizatório não ficará mais arranhado do que já está se eu devolver uns pitacos, desde que estejam embalados num bem-intencionado celofane cor-de-rosa. Estaria esse meu colega bonequeiro em uma cruzada? O que ele quer provar e para quem? A quem ele quer mostrar que é uma pessoa famosa? Famosa fazendo teatro de bonecos !?!

E fazendo teatro de bonecos as pessoas circulam no star-system. Sentem-se glamurosas, agem diligentes e desenvoltas com o crachá da vaidade.
Não esqueço o reencontro com outro colega, gaúcho (GAÚCHO!!! Em uníssono os curitibanos).
Cumprimento-o:
- Oi, M... !
E “M” responde com a voz melíflua de sua opção sexual:
-“ Eu te conheço?”
A gramática fashion é tudo!

Respondi que ele não me conhecia porque eu não tinha amigo gay. Ele incrédulo:
-“O quê?”
- “Ninguém agüenta, além de viado é surdo.”

Não devia ter dito isso pro “M”. O pessoal do Sul é finíssimo. Nunca espero uma descortesia deles. O “eu te conheço?” me pegou tão desprevenido que disparei sem pensar essas palavras estranhas e inconscientes.

E eu achava o ambiente titeritesco tão mais cooperativo, amistoso...

Bom , já vou. Vai ficar sem pião...

domingo, julho 15, 2007

CATANDO MILHO PRÁS CATADORAS DE COQUINHOS

Assisti “A Catadora de Ossos” do Distrito Federal, no Festival, dirigido pela adorável Isabela Brochado. Conheci-a em Ovar, Portugal, acompanhada pelo pulccinellista Bruno Leone.
Sou partidário dos amigos por isso “A Catadora de Ossos” é uma boa peça. A trilha musical é embaladora como um nino de criança. Isabela junto com Ana Bellacosta produzem as intervenções musicais. A peça seria quase carregada pela música não fosse a presença de uma atriz-bonequeira gordinha que não esconde a ótima escola de atores que vem de Brasília.
Mas tem uma coisa: o tempo.
A peça corre num tempo que não é do Brasil. Não é a hora do Brasil!
Sempre penso no tempo da peça. É uma ambição alterar a percepção temporal da platéia. Aliás, adoro produzir qualquer alteração sensorial. Não é sempre que se consegue e para obter qualquer alteração há de se controlar a maioria das variantes presentes no instante e no espaço que ocorre o evento teatral (cartesiano demais?...).
Então vamos lá.
Quanto tempo você suporta ouvir teu amigo?
Sentado numa mesa de bar, com cerveja gelada na mesa; pode ser fechados em casa tomando café, tudo bem... quanto tempo você consegue acompanhar o raciocínio da pessoa amiga, sem interrompê-la? Você suportaria 1:30h.? E se a pessoa não fosse sua amiga, se fosse desconhecida, suportaria pelo menos 30 minutos? 20? Um analista, psicólogo ouve até 60 minutos, não mais, porque é trabalho dele.
Então porque se determinou que uma peça deva durar mais que 60 minutos? Tem peça infantil que dura 50 minutos (dizem que é para não cansar!!!!!), a duração de uma aula em uma escola.
Acho que o brasileiro aprende com o estrangeiro e não adapta o aprendizado. É sôfrego em seguir fielmente os ensinamentos exógenos. Torna-se guardião rigoroso desses ensinamentos; chega a indicar apontar que está dentro dos parâmetros e quem está fora. Então a duração deve ter sido determinado num desses aprendizados. Que ninguém sabe direito por que.
Ora, aqui temos poucos ritos. Na verdade somos avessos a qualquer rito. Qual igreja que funciona? A que fica pulando, cantando e dançando. Candomblé, evangélica, carismática. Quem quer a igreja do rito em latim põe o dedo aqui... ninguém. Quem quer fazer yoga? Basta sentar em lótus e cantar 108 vêzes 108 om nama Shivaia! Quem quer? É yoga, coisa chique! Façam fila... dois, três... loucos.
Aqui se toma cafezinho no balcão. Se pelo menos tomassem o café turco, sentadinho, depois uma mentinha e muita conversa, duas ou três horas pela tarde. Que vagabundos! Não rola por aqui.
Um chá das cinco, cakes, sugar stones...two, I beg your pardon! Um chá-no-ryu, ritual do chá no Japão, 3 a 4 horas... ai se pode falar em alteração temporal. Aí tem platéia.
Uma curiosidade. Sabiam que no Japão tem gente que cura insônia assistindo a um teatro tradicional? Pois é cultura utilitária. Não tem preconceito.
Tempo, duração, alteração sensorial. Puxa nem senti o tempo passar.
Ouvir o outro.
Na peça da “Catadora...” há a cena em que a atriz gordinha interage com a platéia... ou pelo menos tenta. Estamos em Curitiba. A capital que mesmo odiando o espetáculo aplaude em pé. Tudo bem , sem levar em conta essa livre interpretação do código de etiqueta; delimitamos a questão apenas no conteúdo da cena em que a atriz questiona o indivíduo na sua relação com o catador de lixo. Mais uma vez o tempo torna-se soberano regente da atitude do ser-urbano: quem tem tempo para isso? E a peça não responde. A questão está resumida, porque o ser-urbano não ouve os pais, irmãos, amigos, filhos, esposa, marido, vizinhos, conhecidos, a cidade... Só ouve quando pagam, tempo é dinheiro. Minha atenção tem custo, mesmo as pessoas do meu círculo ouço duas frase. Por favor, fala logo... em resumo... seja claro... e por aí.
No resto a peça é jóia. Curitiba é um troço. E eu pra sobreviver aprendi a fazer o cara rir muito em 40 minutos, e jamais no ambiente conhecido do espectador reticente de uma sala tradicional de teatro.

E O FESTIVAL ACABOU.

quarta-feira, julho 11, 2007

AH! CASA NOVA..

Festival rolando, frio congelando...
Mas aqui no sítio de Santa Felicidade, reina a preguiça e a vontade de dar um grande tempo.
Esse povo paulistano é doido de nó.
Estão todos estressados. No reio da correria diária. Quem disse que carioca só pensa em praia? Todo mundo. É por isso que o luiz André foi morar em Sampa. Lá está mais aclimatado. Sandra, Luiz andré, Anderson, Maurício e Agnaldo se matam de trampar.

Eu deveria dizer que estou com inveja, mas prá falar a verdade, já vivi tudo isso. Já quiz fazer uma carrada de coisa, de conquistar o mundo. Dei muito com a cara na porta em São Paulo. Violentei meu sistema imunológico até o talo, fazendo caminhada pelas marginais; respirando fundo o metano do rio Pinheiros e Tietê, a fuligem de escapamentos e fábricas.
Fazia um troço chamado "Inversão Tântrica", para amortecer psicologicamente o dano que perpetava em mim mesmo. São Paulo, são pauladas!!!

E festival que é bom, nada.
Apresentei, e pronto.
Não tem nada que mudar.
Não tem nada que mexer.
Não bebi um ml. de álcool, porque não dá tesão algum beber neste festival daqui de Curitiba.
That´s It!

terça-feira, julho 10, 2007

O Festival 01

O 16º Festival Espetacular de Teatro de Bonecos, aqui em Curitiba-PR, pode não ser o melhor, mas definitivamente não é o melhor. Espero que essa seja uma crítica construtiva. E sabe onde ocorre as melhores apresentações? Para mim é na lona do Circo montada na praça Santos Andrade. Aliás estou virando figura na praça. Já apresentei em dois aniversários da cidade e umas três vezes na lona. O povo assiste de graça os espetáculos. E é o povo que vai, uma galera que precisa de um teatro legal para se divertir e não tem grana sobrando, o que fazer? É Brasil! Coisa que não entra na minha cabeça é, já que meu cachet está pago, cobrar ingresso! E o ingresso está a R$6,00. Só que a criança não está só. Tem a mãe ou o pai, ou então a família toda. A coisa fica entre R$9,00 a R$12,00, R$15... é exponencial.
E me divirto um monte. Falo o que quero e o que não quero. E povão se diverte ainda mais com a língua preta do tio aqui.

O CABARÉ DOS QUASE-VIVOS

Cabaré que tenha visto foi ou nos filmes do Fassbinder, ou o Cabaret com a Liza Minelli. Tem que ver que sou velhinho. Essa é minha referência.
Pois o “Cabaré...” do Sobrevento se torna suporte para emissão de suas mensagens. A adesão do público é imediata. O público da periferia. Que dá duro, trampa e sabe do rigor que é tocar uma família com dois tostões. Não serve para o estudante universitário com carro estacionado ao lado do teatro José Maria Santos. Não dá. Esse aí vai torcer o biquinho, porque assiste Hermes e Renato, e quer bolsa de estudos na Holanda em design de moda. Acha que isso é dar duro. Montar um desfile e manter uma dieta de baixa caloria... Mas que vi um desses garotinhos deixar rolar uma lacrima furtiva, ah isso vi.
Por outro lado, o Sobrevento é digno de procurar e envolver profissionais de alto escalão. De buscar soluções inovadoras até o último instante. Aí está um dilema, porque esse último instante precioso deveria ser reservado para o ócio. Onde eclodem as melhores idéias. Sem o ócio isso não ocorre. E o Sobrevento é trampalcoólico crônico. É flagrante a tensão de trabalho deles durante a peça.

quinta-feira, julho 05, 2007

MANUAL DE AUTO-AJUDA

Ah...
Que vida malvada!
O que tenho para dizer aos amigos que: está corrida!
Que coisa mais tediosa! “Corrida”!
Correndo perco o sabor, estou sem paladar. É terrível. Quero engolir uma costela inteira. Afundar num pote de doce de leite. Porque não sinto o sabor da comida. Estou com fome de sabor.

Tenho fome de leitura, aventura, de quadrinho, de filme...tudo está insípido. E só aparece trabalho, e o dinheiro é insuficiente por isso preciso fazer aparecer mais trabalho...

Ontem estava apresentando numa escola legal, com professoras e diretora legais, criançada legal; ou seja tudo para ser uma ótima apresentação. Sobre a caixa de som ponho bonecos, e uma garrafa de água com a tampa meio rosqueada. A garrafa fica sempre numa posição que não atrapalha os movimentos, mas desta vez ela estava no meio do caminho entre a mão e os bonecos. Eu olhava para a garrafa e pensava. Ela está atrapalhando. No final ela caiu e fez pifar a caixa de som. Por que não tirei a garrafa? Tive que encerrar a apresentação. Além disso a caixa foi para a oficina e semana que vem tem uma agenda de apresentações; pânico, panic at the theater!
Bom, tudo se resolve.
Mas é o computador de bordo avisando que tem que desacelerar. Talvez faça uma meditação para corrigir o PH mental. Os monges tibetanos tem alguns métodos para fazer isso, dar um freio nos caras que estão ambiciosos demais. Fazê-los encarar a morte. Eles põe o cara para limpar cemitérios, trampar em matadouros. Havia um que fez uma espécie de post fix para sempre lembrar que a vida tem agenda curta: amarrou um crânio acima da orelha! Andava o dia inteiro com aquela caveira sobre a cabeça! Inesquecível!

Realmente, não foi para isso que escolhi esse trabalho. Não foi para falar para todo mundo que “ávida está uma correria”. Principalmente se não se deseja que ela chegue ao inevitável destino antes da hora.

segunda-feira, julho 02, 2007

LIMIAR DO VAZIO- ESQUECI UMA COISINHA...

Ah... antes que eu vá embora, queria avisar que pode ser que eutraga um amigo aqui. É ótima companhia para umas cervejas e divagação sobre a fatalidade. O Sérgio Del Giorno. Pode ser? Pode? Faloooouuu!

NO LIMIAR DO IMENSO VAZIO...

Lá estou no imenso vazio binário (não, não é obra do Beto Richa).
Céu e terra confusos, ou dividido por um mar obscuro de ondas desalentadas, molham meus pés e a borla da túnica negra do cavalheiro de faces pálidas a minha frente.
Jogamos xadrês.
Na verdade ele joga e eu falo.
Ele nada diz.
Seria a morte?
Não pode ser a morte é mulher.
Seria o destino?
Seria apenas o FIM???
Eu: ...então. Resolvi dar uma passada por aqui e ver como é esse tal vazio. Paisagem européia, não? Escandinávia, Noruega... Podia rolar um solzinho, areiazinha ao invés desse cascalho. Esta é a fronteira para entre o ser e a aniquilação?

O Outro: (...)

Eu: Nunca fui bom de xadrês, sei jogar damas, dominó, banco imobiliário, war. Não quer jogar war?


O Outro: (...)

Eu: ...Desculpe. Estou sendo trivial num momento que deveria ser solene. Está bem. Antes devo dizer uma coisa; as vanguardas são desinteressantes! Pronto falei. Nada de novo é criado. Tudo é revisão de um capítulo existente, mas esquecido. Veja o Dadá (não confundir com o cavalheiro que também se vira com bonecos), abstracionismo, desconstrutivismo, o moderno... nada além do suprimento das necessidades aniquilantes da guerra. O teatro é sempre teatro. O que há de inventar além do teatro? O cinema poderia ter sido a etapa seguinte, mas já não é teatro. A maior vanguarda deve ao menor autor teatral do passado. Que interessante há de se “criar” a nova linguagem teatral? Que interessante há de se “convidar a platéia à reflexão”? Por acaso sou algum pastor para desejar a conversão de alguém?

O outro: (...)

Eu: Beleza! Não quero atrapalhar o joguinho. Aproveitei a visita para instituir minhas palavras terminais. Esta opinião será fatal. Tudo que eu disser, escrever e declarar aqui, será cristalizada pela eternidade desse ambiente... Pode ser? Posso alugar, por assim dizer, o teu cenário?

O outro: (...)

Eu: Quem cala consente. Qualquer dia desses eu volto. Falou!